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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Pedagogia do Medo

PEDAGOGIA DO MEDO - J. Cláudio*

Ao entrar em uma escola pública de Uberaba-MG, para fazer uma apresentação cênica, pude perceber, na quadra, que os alunos estavam em silêncio.
Um silêncio regido por professores, que de pé, enquanto os alunos estavam sentados no piso da quadra de esportes.
Os professores a qualquer “barulho” dos alunos ditavam o silêncio com ameaças de punição: vou dar uma advertência, muito silêncio.
Os “subordinados” ficavam em perfeito silêncio. Obedeciam com veemência a ordem os seus comandantes, como em um quartel de comando militar.
Percebi que o medo reinava soberanamente naquele recinto, pois ninguém podia se quer expressar a sua vontade infantil de inquietude naquela tarde quente de agosto.
A pedagogia do medo estava claramente expressa, dominava-se tudo que se queira naquele espaço preparado com esmo carinho para aquela apresentação que iria fazer.
Fiquei pasmo quando uma educadora, esbravejando em altos gritos, clamava: vão pra sala, pois eu não permito, não admito, vou advertir.
Estava estampada uma nova pedagogia do medo, pois se educava naquela tarde com pressão oral, força dominadora do medo e sobre tudo a raiva da desobediência eficaz na infância.
O conceito de professor povo de Maria Tereza Nidelcoff* estava enterrado em minha humilde atitude de observar a nefasta pressão do professor policial.
Logo ao final da apresentação que fizera com esmero, uma sirene, igual as dos quartéis suou para que os subordinados adentrassem na sala de aula, em filas seguiam para aquele lugar de acumulo juvenil sem nenhuma condição de se educar.
Lá estava um quadro “negro”, um professor policial e os alunos enfileirados olhando uns para as nucas dos outros.
Os ensinamentos de Paulo Freire*2, “que todo educado é um educando e todo educando é um educador”, nunca tinha sido ouvido por aquela “educadora”.
Constatei claramente que o mau desempenho da escola pública hoje está no educador, pois cada um de nós tem que ter educação como processo transformador, não educação mera repetição de conteúdo vazio para os alunos.
A pedagogia do medo continua ameaçando os alunos, levando-os a lugar nenhum, pois é mera repetidora do medo que se vive dentro de casa, na esquina, nas praças, e, na escola.
Educar pelo medo, aplicando ameaças de quartéis com punições é coisa que deveria ser do passado não do século da comunicação virtual e tecnológica.
Pedagogia do medo, da palmatória, foi aperfeiçoada com as palavras de “eu te dou uma advertência, isto nos leva a crer que estamos em um mundo de não educação”, e sim de uma pedagogia que quer ter resultados pela opressão dos educadores.



*Maria Teresa Nidelcoff, educadora argentina, inicia um diálogo com mestres, educadores e professores; coloca e distingue a questão do "mestre-policial" ou "mestre-povo" e a polêmica existente entre uma atitude "policialesca e castradora" de ensino ou uma criativa de "engajamento" na cultura do educando.

Paulo Freire*2

No começo de 1964, foi convidado pelo presidente João Goulart para coordenar o Programa Nacional de Alfabetização. Logo após o golpe militar, o método de alfabetização de Paulo Freire foi considerado uma ameaça à ordem, pelos militares. Viveu no exílio no Chile e na Suíça, onde continuou produzindo conhecimento na área de educação. Sua principal obra, Pedagogia do Oprimido, foi lançada em 1969. Nela, Paulo Freire detalha seu método de alfabetização de adultos. Retornou ao Brasil no ano de 1979, após a Lei da Anistia.


J. Cláudio* - Formado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco, em 1988.
Professor de Filosofia na Escola Estadual Paulo José Derenusson – Uberaba – MG.
Escritor e poeta