Conceituação Filosófica e História da Filosofia - *J. Cláudio
“Eu sei que nada sei”, dito de Sócrates, filósofo Grego, que revolucionário ao pensamento filosófico ocidental, nas controversas do pensar humano, no final do século quarto antes de cristo.
Com esta afirmação Sócrates parte do principio de que ninguém é detentor absoluto da verdade. O não saber é o ponto inicial para chegar aonde se quer conhecer.
Conceituar filosofia hoje, ainda é muito difícil, pois os conceitos acumulados ao longo da história dão conta de que filosofia é a ciência que estudas as causas das coisas.
Neste nosso estudo procurarei percorrer a história da filosofia, “garimpando” conceitos dos mais diversos e de diferentes fontes para tentar, conjuntamente com filósofos do mundo e do Brasil, pelo menos dar aos alunos que me cercam alguns conceitos a cerca de filosofia.
Estou, neste momento, tão confuso quanto Sócrates, tão criança, tão infantil, sempre perguntando a todos: O que é o saber?
Entrem comigo neste barco e vamos a deriva da busca do conhecer.
Filosofia: ciência que busca através da investigação a causa, a origem das coisas. Através do porque vai sempre indagando o que é o objeto estudado.
“Filosofia é um ramo da ciência que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados,seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aso conteúdos, contemporaneamente, a filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade”.(1)
Filosofia: “Ciência da busca do conhecimento, especialmente da origem e do sentido da existência. Sistema ou conjunto de estudos que reúne um determinado ramo do conhecimento” *2.
Filosofia: (Philosophia) –Singular feminino – Grego, pelo latim philosophiam. Ciência geral dos seres, dos princípios e das causas. Estudo da psicologia, da moral, da lógica e da metafísica”.(3).
A filosofia nasce ligada, colocada com a vida.*4
Filosofar é meditar, estudar as causas e as conseqüências dos fatos, procurar saber, ter sabedoria. * “Paula costa,da quinta série do Colégio Nossa Senhora do Rosário.
Filosofar é discutir e debater sobre inúmeros assuntos e temas. * 5
Filosofar é compreender que é a razão humana que constrói o mundo, não forças adversas, mitológicas ou de deuses.
Concepção Mitológica da Grecia
A construção da sociedade Grega veio carregada de sentimentos dos mais profundos, pois o seu povoamento aconteceu num período longo e fundamentalmente carregado de símbolos mitológicos.
Por Paulo Sérgio Ferreira Beckman
Sócrates
Vida do filósofo Sócrates, saiba quem foi Sócrates, Filosofia grega
Sócrates nasceu em Atenas, provavelmente no ano de 470 AC, e tornou-se um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Podemos afirmar que Sócrates fundou o que conhecemos hoje por filosofia ocidental. Foi influenciado pelo conhecimento de um outro importante filósofo grego : Anaxágoras. Seus primeiros estudos e pensamentos discorrem sobre a essência da natureza da alma humana.
Sócrates era considerado pelos seus contemporâneos um dos homens mais sábios e inteligentes. Em seus pensamentos, demonstra uma necessidade grande de levar o conhecimento para os cidadãos gregos. Seu método de transmissão de conhecimentos e sabedoria era o diálogo. Através da palavra, o filósofo tentava levar o conhecimento sobre as coisas do mundo e do ser humano.
Conhecemos seus pensamentos e idéias através das obras de dois de seus discípulos: Platão e Xenofontes. Infelizmente, Sócrates não deixou por escrito seus pensamentos.
Sócrates não foi muito bem aceito por parte da aristocracia grega, pois defendia algumas idéias contrárias ao funcionamento da sociedade grega. Criticou muitos aspectos da cultura grega, afirmando que muitas tradições, crenças religiosas e costumes não ajudavam no desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos.
Em função de suas idéias inovadoras para a sociedade, começa a atrair a atenção de muitos jovens atenienses. Suas qualidades de orador e sua inteligência, também colaboraram para o aumento de sua popularidade. Temendo algum tipo de mudança na sociedade, a elite mais conservadora de Atenas começa a encarar Sócrates como um inimigo público e um agitador em potencial. Foi preso, acusado de pretender subverter a ordem social, corromper a juventude e provocar mudanças na religião grega. Em sua cela, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta, em 399 AC.
Algumas frases e pensamentos atribuídas ao filósofo Sócrates:
“A vida que não passamos em revista não vale a pena viver.
A palavra é o fio de ouro do pensamento.
Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.
É melhor fazer pouco e bem, do que muito e mal.
Alcançar o sucesso pelos próprios méritos. Vitoriosos os que assim procedem.
A ociosidade é que envelhece, não o trabalho.
O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância.
Chamo de preguiçoso o homem que podia estar melhor empregado.
Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes.
Não penses mal dos que procedem mal; pense somente que estão equivocados.
O amor é filho de dois deuses, a carência e a astúcia.
A verdade não está com os homens, mas entre os homens.
Quatro características deve ter um juiz: ouvir cortesmente, responder sabiamente, ponderar prudentemente e decidir imparcialmente.
Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir.
Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados fracos.
Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.
Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo de Deus.”
Paulo Sérgio Ferreira Beckman
O MUNDO DA EXPERIÊNCIA, AS QUATRO CAUSAS, ÉTICA E POLÍTICA
Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Em 1996, descobriu-se em Atenas, Grécia, o sítio arqueológico onde funcionou o Liceu - a escola fundada por Aristóteles (384-322 a.C.), para concorrer com a Academia, a escola anterior, fundada por seu antigo professor, Platão (427-347 a.C.). A fundação do Liceu não reflete nenhuma ingratidão do discípulo com seu mestre, que por sinal já havia morrido cerca de dez anos quando a escola aristotélica surgiu (336 a.C.).
Aluno de Platão, a quem reconhecia o gênio, Aristóteles passou a discordar de uma idéia fundamental de sua filosofia e, então, o pensamento dos dois se distanciou. Talvez seja esse o ponto de partida para se falar da obra filosófica aristotélica.
Platão concebia a existência de dois mundos: aquele que é apreendido por nossos sentidos - por assim dizer, o mundo concreto -, que está em constante mutação; e um outro mundo - abstrato -, o mundo das idéias, imutável, independente do tempo e do espaço, que nos é acessível somente pelo intelecto.
O mundo da experiência
Para Aristóteles, existe um único mundo: este em que vivemos. Só nele encontramos bases sólidas para empreender investigações filosóficas. Aliás, é o nosso deslumbramento com este mundo que nos leva a filosofar, para conhecê-lo e entendê-lo.
Aristóteles sustenta que o que está além de nossa experiência não pode ser nada para nós. Nesse sentido, ele não acreditava e não via razões para acreditar no mundo das idéias ou das formas ideais platônicas.
Porém, conhecer o mundo da experiência, "concreto", foi um desejo ao qual Aristóteles se entregou apaixonadamente. Assim, ele descreveu os campos básicos da investigação da realidade e deu-lhes os nomes com que são conhecidos até os nossos dias: lógica, física, política, economia, psicologia, metafísica, meteorologia, retórica e ética.
Aliás, ele inventou também os termos técnicos dessas disciplinas e eles também se mantêm em uso desde então. Exemplos? Energia, dinâmica, indução, demonstração, substância, essência, propriedade, categoria, proposição, tópico, etc.
O que é ser?
Filósofo que sistematizou a lógica, Aristóteles definiu as formas de inferência que são válidas e as que não são, além de nomeá-las. Durante dois milênios, estudar lógica significou estudar a lógica aristotélica.
Aristóteles aplicou a lógica, antes de mais nada, para responder a uma questão que lhe parecia a mais importante de todas: o que é ser?, ou, em outras palavras, o que significa existir? Primeiramente, o filósofo constatou que as coisas não são a matéria de que se constituem.
Por exemplo, uma pilha de telhas, outra de tijolos, vigas e colunas de madeira não são uma casa. Para se tornarem casa, é necessário que estejam reunidas de um modo determinado, numa estrutura muito específica e detalhada. Essa estrutura é a casa; e os materiais, embora necessários, podem variar.
Com o tempo, nosso corpo está em constante mutação - transforma-se da infância para adolescência, desta para a idade adulta e, finalmente, para a velhice. Nem por isso deixamos de ser nós mesmos. Da mesma maneira, um cão é um cão em virtude de uma organização e estrutura que ele compartilha com outros cães e que o diferencia de outros animais que também são feitos de carne, pelos, ossos, sangue...
As quatro causas
Para Aristóteles uma coisa é o que é devido a sua forma. Como, porém, o filósofo entende essa expressão? Ele compreende a forma como a explicação da coisa, a causa de algo ser aquilo que é. Na verdade, Aristóteles distingue a existência de quatro causas diferentes e complementares:
1. Causa material: de que a coisa é feita? No exemplo da casa, de tijolos.
2. Causa eficiente: o que fez a coisa? A construção.
3. Causa formal: o que lhe dá a forma? A própria casa.
4. Causa final: o que lhe deu a forma? A intenção do construtor.
Embora Aristóteles não seja materialista (vimos que a forma não é a matéria), sua explicação do mundo é mundana, está no próprio mundo. Finalmente, para o filósofo, a essência de qualquer objeto é a sua função. Diz ele que, se o olho tivesse uma alma, esta seria o olhar; se um machado tivesse uma alma, esta seria o cortar. Entendendo isso, entendemos as coisas.
Mas o pensamento aristotélico não se limitou a essa área da filosofia que podemos chamar de teoria do conhecimento ou epistemologia. Deixando de lado os domínios que deram origem a outras ciências e nos limitando à filosofia propriamente dita, Aristóteles ainda refletiu sobre a ética, a política e a poética (que, no caso, compreende não apenas a poesia, mas a obra literária e teatral).
Ética e política
No campo da ética, segundo Aristóteles, todos nós queremos ser felizes no sentido mais pleno dessa palavra. Para obter a felicidade, devemos desenvolver e exercer nossas capacidades no interior do convívio social.
Aristóteles acredita que a auto-indulgência e a autoconfiança exageradas criam conflitos com os outros e prejudicam nosso caráter. Contudo, inibir esses sentimentos também seria prejudicial. Vem daí sua célebre doutrina do justo meio, pela qual a virtude é um ponto intermediário entre dois extremos, os quais, por sua vez, constituem vícios ou defeitos de caráter.
Por exemplo, a generosidade é uma virtude que se situa entre o esbanjamento e a mesquinharia. A coragem fica entre a imprudência e a covardia; o amor-próprio, entre a vaidade e a falta de auto-estima, o desprezo por si mesmo. Nesse sentido, a ética aristotélica é uma ética do comedimento, da moderação, do afastamento de todo e qualquer excesso.
Para Aristóteles, é a ética que conduz à política. Segundo o filósofo, governar é permitir aos cidadãos viver a vida plena e feliz eticamente alcançada. O Estado, portanto, deve tornar possível o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo. Por fim, o indivíduo só pode ser feliz em sociedade, pois o homem é, mais do que um ser social, um animal político - ou seja, que precisa estabelecer relações com outros homens.
O papel da arte
A poética tem, para Aristóteles, um papel importantíssimo nisso, na medida em que é a arte - em especial a tragédia - que nos proporciona as grandes noções sobre a vida, por meio de uma experiência emocional. Identificamo-nos com os personagens da tragédia e isso nos proporciona a catarse, uma descarga de desordens emocionais que nos purifica, seja pela piedade ou pelo terror que o conflito vivido pelas personagens desperta em nós.
Tudo isso é, evidentemente, um resumo ultra-sintético do pensamento aristotélico. Sua obra é gigantesca, apesar de a maior parte dela ter se perdido ao longo dos tempos. O que chegou até nós corresponde a 1/5 de sua produção. São notas suas e de seus discípulos que passaram nas mãos de estudiosos da Antigüidade, da Idade Média (parte dos quais em países islâmicos), e que foram reorganizadas pela posteridade.
Principalmente em função disso, a leitura de Aristóteles é difícil e seus textos não possuem a qualidade artística que encontramos nas obras de Platão. Para conhecer os aspectos relacionados às ciências na obra aristotélica clique aqui.
Bibliografia
"História da Filosofia", Julián Marías, Martins Fontes, 2004.
• "História da Filosofia", Bryan Magee, Edições Loyola, 2001.
• "Dicionário de Filosofia", Nicola Abbagnano, Martins Fontes, 2000.
• *Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.
350 - 900 DC. Agostinho foi a linha de separação entre a especulação patrística e escolástica na filosofia medieval. Agostinho o maior de todos os pais latinos da igreja e não houve igual filosofo, teólogo desde Paulo até Tomás de aquino. Além dele temos Boethius como um dos principais filósofos deste período. Jonhn Scotus Erigena foi precursor do escolasticismo.
A FILOSOFIA MEDIEVAL DE SANTO AGOSTINHO (354-430)
O cristianismo estava consolidado nessa época: embora tivesse apenas quatrocentos anos, era considerado a verdade irrefutável. Apesar disso, Santo Agostinho, que nasceu no norte da África, numa cidade chamada Tagarte, nem sempre foi cristão. Fez os primeiros estudos na cidade natal e ,com a ajuda de um amigo foi para Cartago, aos dezesseis anos, completar os estudos superiores. Não foi um bom aluno. Na juventude, detestava estudar grego. Interessa-se pôr filosofia ao ler uma obra de Cícero. Quando criança era cristão, mas depois interessou-se pôr outras religiões, como a dos maniqueus, que formavam uma seita, e dividiam o mundo entre o bem e o mal, trevas e luz, espírito e matéria. Com o seu espírito o homem pode transcender a matéria, para os maniqueístas. O maniqueísmo contém uma visão dualista radical, bem e mal são tomados como princípios absolutos. Posteriormente, Agostinho combateu essa doutrina, que foi criada pôr Manes. De início ele recusava a ler a Bíblia, pôr considerá-la vulgar. Teve um caso de amor, interessava-se pôr questões mundanas e nasceu um filho, falecido ainda adolescente. Com vinte anos, perdeu o pai e ficou sendo o responsável pelo sustento de duas famílias. Foi professor de retórica em Cartago, mas depois mudou-se para Roma. Sua mãe foi contra a mudança e Agostinho teve de enganá-la na hora da viagem. De Roma foi para Milão, onde foi novamente professor de retórica. Foi influenciado pelos estóicos, pôr Platão e o neoplatonismo, também estava entre os adeptos do ceticismo. Abandonou o maniqueísmo, que critica. Converteu-se então à fé cristã, depois de conhecer a palavra do apóstolo Paulo, e batizou-se aos trinta e dois anos de idade. Desistiu do cargo de professor. Voltou a Tagaste onde funda uma comunidade monástica, disposto a fundamentar racionalmente a fé, como foi comum na Idade Média. Mostrou que sem a fé a razão não é capaz de levar para a felicidade. A razão, para Agostinho serve de auxiliar da fé, esclarecendo e tornando inteligível aquilo que intuímos. Ele tinha tomado contato com o pensamento neoplatônico de que a natureza humano contém parte da essência divina. Demonstra que há limites para a racionalidade, receberemos um saber que está além do natural. Com o cristianismo uma luz inundou seu coração, sua alma encontrou a paz. Virou vigário aos trinta e seis anos, praticando a vida ascética.
Santo Agostinho escreveu Contra os Acadêmicos e expôs a teoria de que os sentidos dizem algo verdadeiro. O erro provém do juízo que fazemos das sensações, e não delas próprias. A sensação não é falsa, o que é falso é querer ver nelas uma verdade externa ao próprio sujeito. Virou Bispo de Hipona.
Agostinho ficou conhecido pôr "cristianizar" Platão, fazendo vários paralelos entre a parte espiritualista dele (que diz existir um mundo transcendente) e as sagradas escrituras. Faz a distinção entre o corpo, sujeito à sorte do mundo e a alma, que é atemporal., com a qual se pode conhecer Deus. Antes de Deus ter criado o mundo a partir do nada as Idéias eternas já existiam na sua mente. Deus é bondade pura. Ele já conhece o que uma pessoa vai viver antes dela viver. Assim apesar da humanidade ter sido amaldiçoada depois do pecado original, alguns alcançarão a verdade divina, a salvação. Isso depende do uso que fazemos do livre arbítrio, a faculdade que o indivíduo tem de determinar de acordo com a sua própria consciência a sua conduta, livre da Divina Providência enquanto está vivo. Seria o ato livre de decisão, de opção. Durante um diálogo, Agostinho chega a conclusão que o mal não provém de Deus, mas sim do mau uso do livre arbítrio. De fato ,para ele não existe mal, apenas a ausência de Deus. (com isso ele refuta de vez a doutrina dos maniqueus) Essa teoria encontra-se no livro O livre arbítrio.
Com uma vida errada, a alma fica presa ao corpo, porém a relação correta é a inversa. Os órgãos sensoriais sentem a ação dos elementos exteriores, a alma não. Deus é a fonte dos conhecimentos perfeitos e não o homem. A experiência mística leva à iluminação divina. Assim se chega às verdades eternas, e o intelecto então é capaz de pensar corretamente a ordem natural divina. A unidade divina é plena e viva, e guarda a multiplicidade. O amor de Deus é infinito. A graça e a liberdade complementam-se.
Na obra a Cidade de Deus, Agostinho faz oposição entre sensível e inteligível, alma e corpo, espírito e matéria, bem e mal e ser e não ser. Acrescenta a história à filosofia, interpretando a história da humanidade como o conflito entre a Cidade de Deus, inspirada no amor à Deus e nos valores que Cristo pregou, presentes na Igreja, e a Cidade humana, baseada nos valores imediatos e mundanos. Essas cidades estariam presentes na alma humana, e no final a Cidade de Deus triunfaria. Outra obra importante são as Confissões, que é autobiográfica. Essa obra faz dele um precursor de Descartes, Rousseau e o existencialismo. Acredita na verdade contida nos números, que fazem parte da natureza.
A FILOSOFIA MEDIEVAL DE SANTO ANSELMO (1033-1109)
Anselmo nasceu em Aosta na Itália, filho de um nobre Gondolfo, e de uma mãe rica, Ermenberga. Seguiu a carreira religiosa, fez estudos clássicos e escreveu sempre em latim. Foi eleito prior em 1063, porque tinha muita inteligência e piedade. Sua biografia nos é contada pelo seu discípulo, Eadmero. Foi comum na Idade Média os religiosos buscavam o apoio da fé na razão. Anselmo escreveu uma obra sobre esse assunto. É considerado um dos iniciadores da tradição escolástica. Buscava um argumento para provar a existência de Deus, e sua bondade suprema. Fala que a crença e a fé correspondem à verdade, e que existe verdadeiramente um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ele não existe apenas na inteligência, mas também na realidade. Anselmo desenvolveu uma linha de pensamento sobre essas bases, chamados de argumento ontológico, que foi retomada por Descartes e criticada por Kant, e ela estava numa obra chamada Proslógio. Parte do fato de que o homem encontra no mundo muitas coisas, algumas boas, que procedem de um bem absoluto, que é necessariamente existente. Todas as coisas tem uma causa, menos o ser incriado, que é a causa de si mesmo e fundamenta todos os outros seres. Esse ser é Deus. Seus argumentos não foram totalmente aceitos. Anselmo chegou a arcebispo da Cantuária em 1093. Escreveu outras obras importantes, Da Gramática e A Verdade, latim. Recebeu doações de terras para a igreja, mas brigou com Guilherme, o ruivo, rei da Inglaterra pois não queria fazer comércio com os bens da Igreja. Isso foi considerado um desrespeito ao poder Real, e Guilherme impediu Anselmo de Viajar para Roma, desafiando o poder da Igreja.
Num dos seus primeiros livros, Monológico, em que apresenta sua visão de Deus, Anselmo fala que a essência suprema existe em todas as coisas e tudo depende dela. Reconhece nela onipotência, onipresença, máxima sabedoria e bondade suprema. Ela criou tudo a partir do nada. Anselmo procurava desenvolver um raciocínio evolutivo sobre o que considerava ser a verdade, que estava contida na Bíblia. Para Anselmo, o pensamento tem algo de divino, e Deus tem uma razão. Sua palavra é sua essência, e Ele é pura essência (essa noção não é nova) infinito, sem começo nem fim, pois nada existiu antes da essência divina e nada existirá depois. Para ela o presente, o passado e o futuro são juntos ao tempo, são uma coisa só. E Ela é imutável, uma substância, embora seja diferente da substância das outras criaturas. Existe de uma maneira simples e não pode ser comparado com a consciência das criaturas, pois é perfeito e maravilhoso e tem todas as qualidades já citadas. O verbo e o espírito supremo são uma coisa só, pois este usa o verbo consubstancial para expressar-se. Mas a maneira intrínseca que o espírito supremo se expressa e conhece as coisas é incogniscível para nós. O verbo procede de Deus por nascimento, e o pai passa a sua essência para o filho. O espírito ama a si mesmo, e transmite esse amor.
Para Anselmo, a alma humana é imortal, e as criaturas seriam felizes e infelizes eternamente. Mas nenhuma alma é privada do bem do Ser supremo, e deve buscá-lo, através da fé. E Deus é uno. Para se contemplá-lo devemos nos afastar dos problemas e preocupações cotidianos e buscá-lo. Ele é onipotente embora não possa coisas como morrer ou mentir. É piedoso, em parte por ser impassível, o que não o impede de exercer sua justiça, pois ele pensa e é vivo. Anselmo fala muito da crença divina do Pai, do filho e do espírito humano. Grandes coisas esperam por aquele que aceitar Deus e buscá-lo. Santo Anselmo influenciou muito o pensamento teológico posterior.
A FILOSOFIA MEDIEVAL DE SÃO TOMÁS DE AQUINO
Aquino nasceu em um castelo próximo à cidade de Aquino, Itália, de uma família nobre. Entrou cedo para a ordem Dominicana. Não se sabe com precisão os acontecimentos da sua vida. As universidades surgem no século XII, e elas começam a ter forte atuação e influência. Cria-se um ambiente cultural, nas capitais, em que irão atuar Alberto Magno e seu discípulo, São Tomás de Aquino. Há uma miscigenação cultural, pois os Sábios da Arábia vem para a Europa. São Tomás de Aquino entrou para a universidade de Nápoles, onde estudou filosofia. Sabia, falava e escrevia em latim fluentemente.
Escreveu um opúsculo quando ainda era jovem, O ente e a Essência, entre os anos de 1252 e 1253. Aborda questões metafísicas, explicando o percurso da consciência humana entre a sensação e a concepção . Diz, o que cai imediatamente no alcance do saber humano é composto. O homem se eleva do composto ao simples, do posterior ao anterior. A essência existe no intelecto. A substância composta é matéria e forma. A forma e matéria, quando tomadas em si, ou seja sem o aparato do entendimento racional considerando-as, é incognoscível, mas existem caminhos para a investigação das possibilidades. O intelecto quando está isento da materialidade, desvela que nada pode ser mais perfeito do que aquilo que confere o ser. São Tomás é famoso por ter cristianizado Aristóteles, à semelhança do que fez Agostinho com Platão, ele transformou o pensamento desse sábio num padrão aceitável pela igreja católica, Apesar de Aristóteles não ter conhecido a revelação cristã, como diz Tomás, e de sua obra ser original, autônoma e independente de dogmas, ele está em harmonia com o saber contido na Bíblia. E Tomás aplica o pensamento de Aristóteles na teologia. No Ente e a Essência, ele comenta obras como a Física e a Metafísica. E as observações sobre Aristóteles vão permanecer em todas as suas obras. Além dessa influência podemos citar os padres da Igreja, o pseudo-dioníseo (mais cultura grega), Boécio e os árabes e judeus como influência. Tomás de Aquino afirma que podemos conhecer Deus pelos seus efeitos, ele é o último em uma escala evolutiva, a causa de todas as coisas. Antes de Deus vem os anjos, e antes desses, os homens. Ele comenta o gênero e a espécie, que pertencem à essência, pois o todo está no indivíduo.
A essência tem dois modos, um é dela própria, nada é verdadeiramente dela, senão o que lhe cabe como ela própria. Por exemplo o homem, por ser homem, será sempre racional. Mas o branco e o preto não são noções exclusivas da humanidade.
No outro modo, algo se predica da essência, por acidente daquilo que é específico, como o homem ser de cor branca. As formas são inteligidas na medida em que estão separadas da matéria e suas condições. A diferença da essência da substância compostas e simples é que a composta é forma e matéria, e a simples é apenas forma. A inteligência possui potência e ato.
Santo Tomás de Aquino é mais um que fala (como o fez mais tarde Espinosa) que a essência de Deus é o seu próprio ser.
Concluindo, ele diz que há essência nas substâncias e nos acidentes.
Então virou professor e foi para Paris, onde escreve comentários sobre a Bíblia. Nessa cidade passa a vida, foi onde escreveu as duas Sumas que compõe a sua obra: A Suma contra os gentios e a Suma teológica, mais diversos opúsculos. São obras teológicas, com muitos aspectos filosóficos. Santo Tomás afirma que o homem possui uma capacidade, passada por Deus, de distinguir naturalmente o certo e o errado. Ele não tinha uma visão muito positiva da mulher, como Aristóteles, que dizia ser o homem ativo ,criativo e doador de energia vital na concepção, enquanto a mulher é receptora e passiva. Ele achava que isso estava de acordo com a afirmação da Bíblia que a mulher deriva de uma costela do homem. Na Bíblia está escrito como viver segundo a vontade de Deus, e daí Tomás tira seus argumentos sobre a vida moral. Ele demonstra que não há conflito entre a fé e a razão. O conhecimneto verdadeiro é uma adição da inteligência para o objeto a ser inteligido em si. Apesar de Deus ser a causa de tudo, ele não age diretamente nos fatos de sua criação. Mas a providência existe e governa o mundo, pois ele é abslouto e necessário. E a felicidade do homem só pode ser encontrada na contemplação da verdade.
A obra de São Aquino é imensa, alguns de seus trabalhos foram escritos por ele mesmo, outros ditados e outros ainda reportados. Aristóteles disse, e isso foi comentado por São Tomás, que o homem tem a sensação em comum com os animais, que sentem de maneira perfeita. A memória nasce pelo acúmulo de lembranças, e a lembrança nasce da experiência. Mas o homem se eleva ao raciocínio e produz a arte. A filosofia é um conhecimento das causas dos fenômenos. Assim a filosofia deve considerar o senso comum e tem um aspecto coincidente com a teologia: seu saber provém da Sabedoria divina. Então, em menor grau o saber popular também. Mas a sabedoria divina deve ser procurada através da fé, dizia Tomás, e isso é comum entre os teólogos.
Ele distingue na natureza o ser real e o ser da razão (Espinoza nos Pensamentos metafísicos também o faz, mais uma vez.). O ser real existe independente de qualquer consideração da razão. O ser da razão é aquele que apesar de existir em representação, não pode ser independente do pensamento de quem o concebe. Assim a lógica humana só existiria no conceito, e não na realidade. Por outro lado, a alma é imortal, pois é imaterial, e tudo que é imaterial é imortal. Esse argumento como outras verdades teológicas pode ser agora combatido, mas durante séculos ele fundamentou o pensamento em que a Igreja se apoia.
Para Tomás, o conhecimento passa por vários graus de abstração cujo objetivo é conhecer a imaterialidade. O primeiro esforço da existência abstrativa consiste em considerar as coisas independentemente dos sentidos e da noção que tiramos dele. O segundo esforço consiste em considerar as coisas independentes das qualidades sensíveis. No terceiro esforço tem que se consideraras coisas independentes do seu valor material. Assim chega-se ao objeto metafísico, que é imaterial, espiritual.
Na Suma contra os Gentios faz uma exposição completa da religião católica, identificando o que há de verdade nela. Gentios eram os pagãos e os maometanos. Essa suma trata de Deus e suas obras, da fé no mistério da santíssima trindade, da encarnação, dos sacramentos e da vida eterna. Deus é a verdade pura, sem falsidade vontade que existe em si e para si e neste processo estende sua vontade para o que não é a sua essência. O que não é sua essência seriam só as coisas percebidas, pois Deus é tudo. Não tem ódio, não quer o mal, sua potência indica-se com a sua ação, mas ele não pode tudo. Santo Tomás de Aquino faz a distinção entre a filosofia e teologia. E as criaturas não existem desde sempre. Ele descreve o momento em que se inicia uma vida, quando mostra como a alma se junta ao corpo. É uma grande obra, que influenciou e influencia até hoje todos os que se querem católicos, além de filósofos e outros estudiosos.
O ESCOLASTICISMO
Alguns datam os primórdios deste movimento no século VII DC. Fazendo o prolongar-se até o século XV DC. Seja como for, chegou a o seu ponto culminante nos séculos XII e XIII. Esse nome alude aos homens de escola os mestres universitários, filhos da igreja católica romana, que controlavam o sistema educacional da Europa, durante a idade média. O sistema estava alicerçado sobre o manuseio filosófico da fé cristã, destacando se as idéias filosóficas de Platão e Aristóteles mas, especialmente, a lógica e a metafísica do último deles. O maior filosofo deste período foi Tomas de Aquino. A filosofia dele continua sendo uma poderosa força tanto no seio da igreja católica romana quanto no mundo filosófico.
Os principais teólogos filosóficos deste período foram.
• Anselmo 1033 - 1109
• Roscelino 1050 - 1122
• Guilherme de Cjampeaux 1070 - 1121
• Pedro Abelardo 1079 - 1142
• Pedro Lombardo + - 1164
• Vernardo de Clairvaux 1091 - 1153
• João de Salisbury 1115 - 1180
• Alexandre de Hales falecido em 1245
• Alberto Magno 1193 - 1280
• Tomás de Aquino 1225 - 1274
• Boaventura 1121 - 1274
• Rogério Bacon 1214 - 1294
• João Duns Scotus 1226 - 1308
R.N.Chaplin, Ph.D.
J.M.Bentes
Editora Candeia
Autoria: Carlos Cesar Tourinho
Marilena Chaui
Universidade de S. Paulo, USP
1. Problemas de cronologia: Quando começa a "filosofia moderna"?
Freqüentemente, os historiadores da filosofia designam como filosofia moderna aquele saber que se desenvolve na Europa durante o século XVII tendo como referências principais o cartesianismo — isto é, a filosofia de René Descartes —, a ciência da Natureza galilaica — isto é, a mecânica de Galileu Galilei —, a nova idéia do conhecimento como síntese entre observação, experimentação e razão teórica baconiana — isto é, a filosofia de Francis Bacon — e as elaborações acerca da origem e das formas da soberania política a partir das idéias de direito natural e direito civil hobbesianas — isto é, do filósofo Thomas Hobbes.
No entanto, a cronologia pode ser um critério ilusório, pois o filósofo Bacon publica seus Ensaios em 1597, enquanto o filósofo Leibniz, um dos expoentes da filosofia moderna, publica a Monadologia e os Princípios da Natureza e da Graça em 1714, de sorte que obras essenciais da modernidade surgem antes e depois do século XVII. Muitos historiadores preferem localizar a filosofia moderna no período designado como Século de Ferro, situado entre 1550 e 1660, tomando como referência as grandes transformações sociais, políticas e econômicas trazidas pela implantação do capitalismo, enquanto outros consideram decisivo o período entre 1618 e 1648, isto é, a Guerra dos Trinta Anos, que delineia a paisagem política e cultural da Europa moderna.
Entretanto, essas datas e períodos podem convidar a um novo equivoco, qual seja, o de estabelecer uma relação causal direta entre acontecimentos sócio-políticos e a constituição dos conhecimentos filosóficos, científicos e técnicos, ou a criação artística. Relação entre eles, sem dúvida, existe. Mas não é linear nem causal: idéias e criações podem estar em avanço ou em atraso com relação aos acontecimentos sócio-políticos e econômicos, não porque pensadores e artistas sejam criaturas fora do espaço e do tempo, mas porque tudo depende da maneira como enfrentam questões colocadas por sua época, indo além ou ficando aquém delas. Em resumo, a relação entre uma obra e seu tempo não é a do mero reflexo intelectual de realidades sociais dadas. Um pensador e um artista se dirigem aos seus contemporâneos, mas isto não significa que sejam, em suas idéias e criações, contemporâneos de seus destinatários. Captam as questões colocadas por sua época, mas isto não significa que sua época capte as respostas por eles encontradas ou criadas. Por esses motivos, muitos historiadores das idéias consideram que pensadores e artistas, afinal, criam seu próprio público, as obras produzem seus destinatários, tanto os contemporâneos quanto os pósteros.
A cronologia pode ser enganadora quando pretendemos traçar os contornos de uma época de pensamento. Assim, por exemplo, a inauguração da idéia moderna da política como compreensão da origem humana e das formas do Poder, como compreensão do Poder enquanto solução que uma sociedade dividida internamente oferece a si mesma para criar simbolicamente uma unidade que, de fato, não possui, é uma inauguração bem anterior ao século XVII, pois foi feita por Maquiavel. Por outro lado, a idéia de que a política é uma esfera de ação laica ou profana, independente da religião e da Igreja, tema caro aos filósofos modernos, foi desenvolvida no final da Idade Média por um jurista como Marsílio de Pádua. Também a idéia do valor e da importância da observação e da experiência para o conhecimento humano aparece nos fins da Idade Média com filósofos como Roger Bacon ou Guilherme de Ockam. A extrema valorização da capacidade da razão humana para conhecer e transformar a realidade — a confiança numa ciência ativa ou prática em oposição ao saber contemplativo — é uma das características principais do chamado Humanismo, desenvolvido durante a Renascença. Em contraposição à perspectiva medieval, que era teocêntrica (Deus como centro do conhecimento e da política), os humanistas procuram laicizar o saber, a moral e a política, tomando como centro o Homem Virtuoso.
Para contornar essas dificuldades, muitos historiadores da filosofia se habituaram a designar o Renascimento como um período de transição para a modernidade ou a ruptura inicial face ao saber medieval que preparou o advento da filosofia moderna. Nesta perspectiva, o Renascimento apresentaria duas características principais: por um lado, seria um momento de grandes conflitos intelectuais e políticos (entre platônicos e aristotélicos, entre humanistas ateus e humanistas cristãos, entre Igreja e Estado, entre academias leigas e universidades religiosas, entre concepções geocêntricas e heliocêntricas, etc.), e, por outro lado, um momento de indefinição teórica, os renascentistas não tendo ainda encontrado modos de pensar, conceitos e discussões que tivessem abandonado definitivamente o terreno das polêmicas medievais. O Renascimento teria sido época de grande efervescência intelectual e artística, de grande paixão pelas novas descobertas quanto à Natureza e ao Homem, de redescobertas do saber greco-romano liberado da crosta interpretativa com que o cristianismo medieval o recobrira, de desejo de demolir tudo quanto viera do passado, desejo favorecido tanto pela chamada Devoção Moderna (a tentativa de reformar a religião católica romana sem romper com a autoridade papal) quanto pela Reforma Protestante e pelas guerras de religião, que abalaram a idéia de unidade européia como unidade político-religiosa e abriram as portas para o surgimento dos Estados Territoriais Modernos.
Ao mesmo tempo, no entanto, a indefinição e os conflitos teriam feito da Renascença um período de crise. Em primeiro lugar, crise da consciência, pois a descoberta do universo infinito por homens como Giordano Bruno deixava os seres humanos sem referência e sem centro; em segundo lugar, crise religiosa, pois tanto a Devoção Moderna quanto a Reforma Protestante criaram infinidade de tendências, seitas, igrejas e interpretações da Sagrada Escritura, dos dogmas e dos sacramentos, de modo que a referência à idéia de Cristandade, central desde Carlos Magno, se perdera; em terceiro lugar, crise política, pois a ruptura do centro cósmico (o universo é infinito), a perda do centro religioso (o papado), a perda do centro teórico (geocentrismo, aristotelismo tomista, mundo hierárquico de seres e de idéias) foi também a perda do centro político (o Sacro Império Romano Germânico destroçado pelos reinos modernos independentes e pelas cidades burguesas do capitalismo em expansão) e de suas instituições (papa, imperador, Direito Romano, Direito Canônico, relações sociais determinadas pela hierarquia da vassalagem entre os nobres e pela clara divisão entre senhores e servos, das relações econômicas definidas pela posse da terra e pela agricultura e pastoreio, com o artesanato urbano apenas subsidiário para o pequeno comércio dos burgos).
O resultado da transição, da indefinição e da crise, conforme muitos historiadores, foi o ceticismo filosófico, cujos maiores expoentes teriam sido Montaigne e Erasmo.
Só muito recentemente, os historiadores das idéias e da história sócio-política desfizeram essa imagem da transitoriedade e indefinição renascentistas, mostrando haver o Renascimento criado um saber próprio, com conceitos e categorias novos e sem os quais a filosofia moderna teria sido impossível.
Assim, por exemplo, o historiador das idéias e das instituições européias, Michel Foucault, no livro As Palavras e as Coisas (Les Mots et les Choses), considera o Renascimento um período em que os conhecimentos são regulados por um conceito fundamental: o conceito de Semelhança, graças ao qual são pensadas as relações entre seres que constituem toda a realidade, motivo pelo qual ciências como a medicina e a astronomia, disciplinas como a retórica e a história, teorias sobre a natureza humana, a sociedade, a política e a teologia empregam conceitos como os de simpatia e antipatia (nas doenças e nos movimentos dos astros), de imitação ou emulação (entre os seres humanos, entre as coisas vivas, entre humanos e coisas, entre o visível e o invisível, como no caso da alquimia), conceitos que nada têm a ver com a "magia" como superstição, mas com a magia como forma de revelação do oculto pelos poderes da mente humana, isto é, a Semelhança define um certo tipo de saber e um certo tipo de poder. Também é central o conceito de amizade, como atração natural e espontânea dos iguais (animais, humanos) e que serve de referência para pensar-se a figura do tirano como inimigo do povo e criador de reinos regulados pela inimizade recíproca (forma de compreender as divisões sociais e os conflitos entre poder e sociedade).
A Natureza é pensada como um grande Todo Vivente, internamente articulado e relacionado pelas formas variadas da Semelhança, indo dos minerais escondidos no fundo da terra ao brilho dos astros no firmamento, das coisas aos homens, dos homens a Deus. Essa idéia de totalidade vivente se exprime na frase de Giordano Bruno: "A Natureza opera a partir do Centro" (La Natura opra dal centro). Essa mesma idéia permite distinguir uma história humana e uma história natural no sentido da diferença entre ações humanas, que têm poder de transformação sobre a realidade, e as ações que nada podem sobre a Natureza enquanto obra divina, idéia que se exprime na filosofia da história de Vico.
A idéia de imitação aparece na teoria política quando alguns humanistas (sobretudo os humanistas cristãos como Erasmo e Thomas Morus) consideram que as qualidades (virtudes ou vícios) dos governantes são um espelho para a sociedade inteira, de tal modo que num regime tirânico os súditos serão tiranos também. Essa idéia de um imenso espelho reaparece no ensaio de La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, mas com uma grande inovação: não é o tirano que cria uma sociedade tirânica, mas é a sociedade tirânica (a sociedade onde homens desejam a servidão) que produz o tirano, o seu espelho.
A imitação também aparece no grande prestígio da retórica que ensina a imitação dos grandes autores e artistas clássicos da antigüidade, mas não como repetição ou reprodução do que eles pensaram, escreveram ou fizeram, e sim como recriação a partir dos procedimentos antigos. A erudição, uma das principais características dos humanistas, não é acúmulo de informações, mas uma atitude polêmica perante a tradição (recusar a apropriação católica da cultura antiga). Isto aparece com grande clareza nos historiadores que procuram conhecer fontes primárias e documentos originais a fim de elaborar uma história objetiva e patriótica, isto é, uma história nacional que seja, por si mesma, a refutação da legitimidade da dominação da Igreja Romana e do Império Romano Germânico sobre os Estados Nacionais. A erudição também serve, juntamente com a retórica, para um tipo muito peculiar de imitação dos antigos: aquela que é feita pelos escritores com a finalidade de criar uma língua nacional culta, rica, bela e que substitua o imperialismo do latim. Assim, em todas as esferas das atividades culturais pode-se perceber que a famosa "renascença dos antigos" não tem uma finalidade nostálgica e sim polêmica e criadora, que diz respeito ao presente e às suas questões.
2. Alguns aspectos do Renascimento, da Reforma e da Contra-Reforma
Do lado do que denominamos Renascimento, encontramos os seguintes elementos definidores da vida intelectual: 1) surgimento de academias laicas e livres, paralelas às universidades confessionais, nas quais imperavam as versões cristianizadas do pensamento de Platão, Aristóteles, Plotino e dos Estóicos e as discussões sobre as relações entre fé e razão, formando clérigos e teólogos encarregados da defesa das idéias eclesiásticas; as academias redescobrem outras fontes do pensamento antigo, se interessam pela elaboração de conhecimentos sem vínculos diretos com a teologia e a religião, incentivam as ciências e as artes (primeiro, o classicismo e, depois da Contra-Reforma, o maneirismo); 2) a preferência pelas discussões em torno da clara separação entre fé e razão, natureza e religião, política e Igreja. Considera-se que os fenômenos naturais podem e devem ser explicados por eles mesmos, sem recorrer à continua intervenção divina e sem submetê-los aos dogmas cristãos (como, por exemplo, o geocentrismo, com a Terra imóvel no centro do universo); defende-se a idéia de que a observação, a experimentação, as hipóteses lógico-racionais, os cálculos matemáticos e os princípios geométricos são os instrumentos fundamentais para a compreensão dos fenômenos naturais (Bruno, Copérnico, Leonardo da Vinci sendo os expoentes dessa posição). Desenvolvem-se, assim, tendências que a ortodoxia religiosa bloqueara durante a Idade Média, isto é, o naturalismo (coisas e homens, enquanto seres naturais, operam segundo princípios naturais e não por decretos divinos providenciais e secretos); 3) interesse pela ciência ativa ou prática em lugar do saber contemplativo, isto é, crença na capacidade do conhecimento racional para transformar a realidade natural e política, donde o interesse pelo desenvolvimento das técnicas (respondendo a exigências intelectuais e econômicas da época, quando o capitalismo pede instrumentos que sejam aumentadores da capacidade das forças produtivas); 4) alteração da perspectiva da fundamentação do saber, isto é, passagem da visão teocêntrica (Deus como centro, principio, meio e fim do real) para a naturalista e para a humanista. Aqui, duas grandes linhas se desenvolvem: de um lado, a discussão sobre a essência da alma humana como racional e passional, de sua força e de seus limites, conduzindo àquilo que, mais tarde, seria conhecido como o Sujeito do Conhecimento ou a Subjetividade, que, no Renascimento, ainda se encontra mais próxima de uma "psicologia da alma" e de uma moral, enquanto na filosofia moderna estará mais voltada pelo que seria chamado de Epistemologia (dessa preocupação com o homem, Nicolau de Cusa, Ficino, Erasmo e Montaigne serão os grandes expoentes); e, de outro lado, a discussão em torno dos fundamentos naturais e humanos da política. Nesta, três linhas principais se desenvolvem. A primeira, vinda dos populistas e conciliaristas medievais e da história patriótica e republicana das cidades italianas, encontra seu ponto mais alto e controvertido em Maquiavel que, além de desmontar as concepções clássicas e cristãs sobre o "bom governante virtuoso" e de uma origem divina, ou natural ou racional do poder, funda o poder na divisão originária da sociedade entre os Grandes (que querem oprimir e comandar) e o Povo (que não quer ser oprimido nem comandado), a Lei sendo a criação simbólica da unidade social pela ação política e pela lógica da ação (e não pela força, como se costuma supor). Na segunda linha, a discussão se volta para a crítica do presente pela elaboração de uma outra sociedade possível-impossível, justa, livre, igualitária, racional perfeita — a utopia, cujos expoentes são Morus e Campanella. A terceira linha discute a política a partir dos conceito de direito natural e direito civil (linha que irá predominar entre os modernos), das causas das diferenças entre os regimes políticos e as formas da soberania, sendo seus expoentes Pasquier, Bodin, Grócio. Nas três linhas, encontramos a preocupação com a história, seja como prova de que outra sociedade é possível, seja como exame dos erros cometidos por outros regimes, seja como exemplo do que pode ser imitado ou conservado.
Por seu turno, a Reforma destrói a crença (concretamente ilusória, pois jamais existente) da unidade da fé cristã, dos dogmas e cerimônias, e sobretudo da autoridade religiosa: questiona-se a autoridade papal e episcopal, questiona-se o privilégio de somente alguns poderem ler e interpretar os livros Sagrados, questiona-se que Deus tenha investido o papado do direito de ungir e coroar reis e imperadores, questionam-se dogmas e ritos (como a missa e até mesmo o batismo). O mundo cristão europeu cinde-se de alto a baixo em novas ortodoxias (luteranismo, calvinismo, anglicanismo, puritanismo) e em novas heterodoxias (anabatistas, menonitas, quakers, os "cristãos sem igreja"). As lutas religiosas não ocorrem apenas entre católicos e reformados, mas também entre estes últimos e particularmente entre eles e as pequenas seitas radicais e libertárias que serão freqüentemente dizimadas, com violência descomunal. Modifica-se a maneira de ler e interpretar a Bíblia, modifica-se a relação entre religião e política: todos devem ter o direito de ler o Livro Santo e nele Deus não declarou que a monarquia é o melhor dos regimes políticos. Dois resultados culturais decorrem dessa nova atitude: por um lado, o desenvolvimento de escolas protestantes para alfabetização dos fiéis, para que possam ler a Bíblia e escrever sobre suas próprias experiências religiosas, divulgando a nova e verdadeira fé (a panfletagem será uma das marcas características da Reforma, que produziu uma população alfabetizada); por outro lado, na fase inicial do protestantismo (que seria suplantada quando algumas seitas triunfassem e se tornassem dominantes), a defesa da idéia de comunidade, de república popular ou aristocrática e do direito político à resistência, isto é, da desobediência civil face ao papado e aos reis e imperadores católicos.
Enfim, a Contra-Reforma, cuja expressão mais alta e mais eficaz será a Companhia de Jesus, define um novo quadro para a vida intelectual: por um lado, para fazer frente à escolaridade protestante, os jesuítas (mas não somente eles) enfatizam a ação pedagógico-educativa (não nos esqueçamos de Nóbrega e Anchieta ensinando índios a ler e a escrever!), e, por outro lado, enfatizam o direito divino dos reis, fortalecendo a tendência dos novos Estados Nacionais à monarquia absoluta de direito divino. É no quadro da Contra-Reforma, como renovação do catolicismo para combate ao protestantismo, que a Inquisição toma novo impulso e se, durante a Idade Média, os alvos privilegiados do inquisidor eram as feiticeiras e os magos, além das heterodoxias tidas como heresias, agora o alvo privilegiado do Santo Oficio serão os sábios: Giordano Bruno é queimado como herege, Galileu é interrogado e censurado pelo Santo Oficio, as obras dos filósofos e cientistas católicos do século XVII passam primeiro pelo Santo Oficio antes de receberem o direito à publicação e as obras dos pensadores protestantes são sumariamente colocadas na lista das obras de leitura proibida (o Index). A Contra-Reforma realizará, do lado católico, o mesmo que a Reforma triunfante, do lado protestante: o controle da atividade intelectual que o Renascimento liberara e que cultivara como liberdade de pensamento e de expressão.
É no interior desse contexto polêmico, freqüentemente autoritário e violento que se desenvolve a Filosofia Moderna do século XVII.
3. Características gerais do saber no século XVII
A expressão "filosofia moderna ou filosofia do século XVII" é uma abstração, como já sugerimos ao mencionar a questão da cronologia. Mas é também uma abstração se considerarmos as várias filosofias que polemizaram entre si nesse período, os filósofos concebendo a metafísica, a ciência da Natureza, as técnicas, a moral e a política de maneiras muito diferenciadas. No entanto, para quem olha de longe, é impossível não reconhecer a existência de um campo de pensamento e de um campo discursivo comuns a todos os pensadores modernos e no interior dos quais suas semelhanças e diferenças se configuram. É desse campo comum que falaremos aqui.
Convém não esquecermos que a distinção entre filosofia e ciência é muito recente (consolidou-se apenas nos meados do século XIX), de modo que os pensadores do século XVII são considerados sábios (e não intelectuais, noção que também é muito recente) e não separam seus trabalhos científicos, técnicos, metafísicos, políticos. Para eles, tudo isso constitui a filosofia e cada sábio costuma ser um pesquisador ou um conhecedor de todas as áreas de conhecimento, mesmo que se dedique preferencialmente mais a umas do que a outras. Essa relação entre as atividades levou o filósofo Merleau-Ponty a designar a filosofia moderna como a época do Grande Racionalismo para o qual as relações entre ciência da Natureza, metafísica, ética, política, espírito e matéria, alma e corpo, consciência e mundo exterior estavam articuladas porque fundadas num mesmo princípio que vinculava internamente todas as dimensões da realidade: a Substância Infinita, isto é, o conceito do Ser Infinito ou Deus.
Das características gerais do campo de pensamento e de discursos da Filosofia Moderna, destacaremos os seguintes: o significado da nova ciência da Natureza, os conceitos de causalidade e de substância, a idéia de método ou de mathesis universalis, e a idéia de razão, explícita ou implicitamente elaborada por tais pensadores.
3.1. A nova Ciência da Natureza ou Filosofia Natural
Num nível superficial, pode-se dizer que a nova Ciência da Natureza ou Filosofia Natural possui três características 1) passagem da ciência especulativa para a ativa, na continuidade do projeto renascentista de dominação da Natureza e cuja fórmula se encontra em Francis Bacon: "Saber é Poder"; 2) passagem da explicação qualitativa e finalística dos naturais para a explicação quantitativa e mecanicista; isto é, abandono das concepções aristotélico-medievais sobre as diferenças qualitativas entre as coisas como fonte de explicação de suas operações (leve, pesado, natural, artificial, grande, pequeno, localizado no baixo ou no alto) e da idéia de que os fenômenos naturais ocorrem porque causas finais ou finalidades os provocam a acontecer. Tais concepções são substituídas por relações mecânicas de causa e efeito segundo leis necessárias e universais, válidas para todos os fenômenos independentemente das qualidades que os diferenciam para nossos cinco sentidos (peso, cor, sabor, textura, odor, tamanho) e sem qualquer finalidade, oculta ou manifesta; 3) conservação da explicação finalística apenas no plano da metafísica: a liberdade da vontade divina e humana e a inteligência divina e humana, embora incomensuráveis, se realizam tendo em vista fins (o filósofo Hobbes suprimirá boa parte das finalidades no campo da moral, dando-lhe fisionomia mecanicista também, e o filósofo Espinosa suprimirá a finalidade na metafísica e na ética, criticando-a como superstição e ignorância das verdadeiras causas das ações).
Todavia, como salienta o historiador das idéias, Alexandre Koyré, essas características são apenas efeitos de modificações mais profundas na nova Ciência da Natureza e que são:
1) a destruição, vinda do Renascimento, da idéia greco-romana e cristã de Cosmos, isto é, do mundo como ordem fixa segundo hierarquias de perfeição, dotado de centro e de limites conhecíveis, cíclico no tempo e limitado no espaço. Em seu lugar, surge o Universo Infinito, aberto no tempo e no espaço, sem começo, sem fim, sem limite e que levará o filósofo Pascal à célebre fórmula da "esfera cuja circunferência está em toda parte e o centro em nenhuma". Não apenas o heliocentrismo é possível a partir dessa idéia, mas com ela dois novos fenômenos ocorrem: em primeiro lugar, a perda do centro, que levará os pensadores a uma indagação que, de acordo com o historiador da filosofia Michel Serres, é essencial e prévia à própria possibilidade do conhecimento, qual seja, indagam se é possível encontrar um outro centro, ou um ponto fixo a partir do qual seja possível pensar e agir (os filósofos falam na busca do ponto de Arquimedes para o pensamento); em segundo lugar, uma nova elaboração do conceito de ordem e que, segundo Michel Foucault, será a motivação principal na elaboração moderna do método para conhecer (sem ordem não há conhecimento possível, e a primeira coisa a ordenar será a própria faculdade de conhecer);
2) a geometrização do espaço. Este era, na física aristotélico-tomista, um espaço topológico e topográfico (isto é, constituído por lugares — topoi — que determinavam a forma de um fenômeno natural, sua importância, seu sentido), o mundo estando dividido em hierarquias de perfeição conforme tais lugares. Agora, o espaço se torna neutro, homogêneo, mensurável, calculável, sem hierarquias e sem valores, sem qualidades. É essa a idéia que se exprime na famosa frase de Galileu que abre a modernidade científico-filosófica: "A filosofia está escrita neste vasto livro, constantemente aberto diante de nossos olhos (quero dizer, o universo) e só podemos compreendê-lo se primeiro aprendermos a conhecer a língua, os caracteres nos quais está escrito. Ora, ele está escrito em linguagem matemática e seus caracteres são o triângulo e o círculo e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível compreender uma só palavra". Ou como dirá Espinosa, ao escrever sobre os afetos e as paixões em sua Ética, declarando que deles tratará como se estivesse escrevendo sobre linhas, superfícies, volumes e figuras geométricas;
3) a mecânica como nova ciência da Natureza, isto é, a idéia de que todos os fenômenos naturais (as coisas não humanas e humanas) são corpos constituídos por partículas dotadas de grandeza, figura e movimento determinados e que seu conhecimento é o estabelecimento das leis necessárias do movimento e do repouso que conservam ou modificam a grandeza e a figura das coisas por nós percebidas porque conservam ou alteram a grandeza e a figura das partículas. E a idéia de que estas leis são mecânicas, isto é, leis de causa e efeito cujo modelo é o movimento local (o contato direto entre partículas) e o movimento à distância (isto é, a ação e a reação dos corpos pela mediação de outros ou, questão controversa que dividirá os sábios, pela ação do vácuo). Fisiologia, anatomia, medicina, óptica, paixões, idéias, astronomia, física, tudo será tratado segundo esse novo modelo mecânico. E é a perfeita possibilidade de tudo conhecer por essa via que permite a intervenção técnica sobre a natureza física e humana e a construção dos instrumentos, cujo ideal é autônomo e cujo modelo é o relógio.
3.2. As idéias de substância e de causalidade
Enquanto o pensamento greco-romano e o cristão admitiam a existência de uma pluralidade infinita (ou indefinida) de substâncias, os modernos irão simplificar enormemente tal conceito.
Substância é toda realidade capaz de existir (ou de subsistir) em si e por si mesma. Tudo que precisar de outro ser para existir será um modo ou um acidente da substância. Na versão tradicional, mineral era uma substância, vegetal era substância, animal, outra substância, espiritual, uma outra. Mas não só isto, dependendo das filosofias, cada mineral, cada vegetal, cada animal, cada espírito, era substância, de tal maneira que haveria tantas substâncias quantos indivíduos. Simplificadamente: a substância podia ser pensada como um gênero, ou como uma espécie ou até como um indivíduo. E cada qual teria seus modos ou acidentes e suas próprias causalidades.
Os modernos, especialmente após Descartes, admitem que há apenas três substâncias: a extensão (que é a matéria dos corpos, regida pelo movimento e pelo repouso), o pensamento (que é a essência das idéias e constitui as almas) e o infinito (isto é, a substância divina). Essa alteração significa apenas o seguinte: uma substância se define pelo seu atributo principal que constitui sua essência (a extensão, isto é, a matéria como figura, grandeza, movimento e repouso; o pensamento, isto é, a idéia como inteligência e vontade; o infinito, isto é, Deus como causa infinita e incriada).
Na verdade, os modernos não concordarão com a tripartição de Descartes. Os materialistas, por exemplo, dirão que há apenas extensão e infinito; os espiritualistas, que há apenas pensamento e infinito. E, nos dois extremos dessa discussão, estarão Espinosa, de um lado, e Leibniz, de outro. Para Espinosa existe uma e apenas uma substância — a infinitamente infinita, isto é, Deus, com infinitos atributos infinitos dos quais conhecemos dois, o pensamento e a extensão (suprema heresia: Espinosa afirma que Deus é extenso), todo o restante do universo são os modos singulares da única substância. Para Leibniz, existem infinitas substâncias, cada uma delas contendo em si mesma um dos dois grandes atributos — pensamento (inteligência, vontade, desejo) ou extensão (figura, grandeza, movimento e repouso). Essas substâncias se chamam mônadas (unidade última e indivisível) e há apenas uma diferença entre as mônadas — isto é, há a Mônada Infinita, que é Deus, e há as mônadas criadas e finitas, isto é, os seres existentes no universo, e que podem ser extensas ou pensantes.
De qualquer maneira, o essencial na questão da Substância definida pelo seu atributo principal é que, de agora em diante, conhecer é conhecer apenas três tipos de essências e suas operações fundamentais: a matéria (geometrizada), a alma (intelecto, vontade e apetites) e o infinito.
Esse conhecimento se fará pelo conceito de causalidade. Conhecer é conhecer a causa da essência, da existência e das ações e reações de um ser. Um conhecimento será verdadeiro apenas e somente quando oferecer essas causas. Evidentemente, os filósofos discordarão quanto ao que entendem por causa e causalidade, discordarão quanto à determinação de uma realidade como sendo causa ou como sendo efeito, discordarão quanto ao número de causas, discordarão quanto aos procedimentos intelectuais que permitem conhecer as causas e, portanto, discordarão quanto à definição da própria noção de verdade, uma vez que esta depende do que se entende por causa e por operação causal. Mas todos, sem exceção, consideram que um conhecimento só pode aspirar à verdade se for conhecimento das causas, sejam elas quais forem e seja como for a maneira como operem. O importante é notar que fizeram a verdade, a inteligibilidade e o pensamento dependerem da explicação causal e afastaram a explicação meramente descritiva ou interpretativa. A síntese desse ideal encontra-se em Espinosa e em Leibniz. Afirma Espinosa que o conhecimento verdadeiro é aquele que nos diz como uma realidade foi produzida, isto é, o conhecimento verdadeiro é o que alcança a gênese necessária de uma realidade. Leibniz estabelece o chamado principio da Razão Suficiente, segundo o qual nada existe que não tenha uma causa e que não possa ser conhecida, ou, como ficou conhecido: "Nihil sine ratione", nada é sem causa.
Com relação ao conceito de causalidade, é necessário fazermos três observações: 1) diferentemente dos gregos, romanos e medievais (que admitiam quatro causas — material, formal, eficiente ou motriz e final), os modernos admitem apenas duas: a eficiente (a causalidade propriamente dita como relação entre uma causa e seu efeito direto) e a final, para os seres dotados de vontade livre, pois esta sempre age tendo em vista fins (Deus e homens). Apenas Espinosa recusa a finalidade, considerando a causa final um produto da imaginação e uma ilusão; 2) a causa eficiente exige que causa e efeito sejam de mesma natureza (de mesma substância; ou de mesmo modo, no caso de Espinosa), de sorte que causas corporais não podem produzir efeitos anímicos e vice-versa. Ora, os humanos são criaturas mistas (possuem corpo e alma) e é preciso explicar causalmente as relações entre ambos se se quiser conhecer o homem e sobretudo o que os modernos chamam de ação e paixão. As soluções do problema serão variadas. Assim, por exemplo, Descartes imagina uma glândula — a glândula pineal, na base do pescoço — que faria a comunicação entre as duas substâncias do composto humano; Espinosa e Leibniz consideram a posição cartesiana absurda, e para ambos a relação entre alma e corpo não é "causal" no sentido de ação do corpo sobre a alma ou vice-versa, mas uma relação de expressão, isto é, o que se passa num deles se exprime de maneira diferente no outro e vice-versa; os materialistas resolvem o problema considerando que os efeitos anímicos são uma modalidade dos comportamentos corporais, pois não haveria uma substância espiritual, a não ser Deus; os espiritualistas vão na direção contrária (como Malebranche), considerando os corpos e os acontecimentos corporais como aparência sensível de realidades puramente espirituais; 3) o conceito de causa possui três sentidos simultâneos e inseparáveis e não apenas um; esses três sentidos simultâneos constituem a causalidade como princípio de plena inteligibilidade do real: a) a causa é algo real que produz um efeito real (causa e efeito são entes, seres, coisas); b) a causa é a razão que explica a essência e a existência de alguma coisa, é sua explicação verdadeira e sua inteligibilidade; c) a causa é o nexo lógico que articula e vincula necessariamente uma realidade a uma outra, tornando possível não só sua existência, mas também seu conhecimento. Conhecer pela causa é, pois, conhecer entes, razões e vínculos necessários.
3.3. A idéia de método ou de mathesis universalis
Os filósofos modernos enfrentam três grandes problemas no tocante ao conhecimento verdadeiro:
1) tendo o Cosmos, sua ordem, sua hierarquia e seu centro desaparecido, o homem, como ser pensante, não encontra imediatamente nas coisas percebidas a verdade, a origem e o sentido do real, pois as coisas são percebidas em suas qualidades sensoriais e o mundo parece ser finito e ordenado por valores e perfeições que a nova ciência da Natureza revelou serem ilusórios;
2) o conceito de causalidade faz uma exigência teórica que, se não for respeitada, impede que a verdade seja conhecida. Essa exigência é de que as relações causais só se estabelecem entre coisas de mesma substância (a extensão, ou a matéria, ou os corpos, dependendo da terminologia de cada sábio, só produz efeitos extensos, materiais, corporais; o pensamento, a alma, as idéias, também dependendo da terminologia de cada filósofo, só produzem efeitos pensantes, anímicos, ideativos; o finito só produz efeitos finitos; o infinito, única exceção, produz efeitos finitos e infinitos, mas não pode ser produzido por uma causa finita). Ora, como já o dissemos, os humanos são compostos de duas substâncias (ou de modos diferentes da mesma substância, no caso de Espinosa) que, no plano causal, não podem causar-se um ao outro. Ora, conhecer é uma atividade da substância pensante ou do modo pensante, mas o conhecido pode tanto ser um aspecto do pensante quanto os corpos, as coisas ou os modos extensos. E, neste caso, a causalidade não pode operar, pois o que se passa na extensão não pode causar efeitos no pensamento e vice-versa. A solução encontrada por todos os filósofos (com variantes, novamente, e com exceção de Espinosa) consiste em considerar o conhecimento uma Representação, isto é, que a inteligência não afeta nem é afetada pelos corpos, mas pelas idéias deles, havendo assim a homogeneidade exigida pela causalidade;
3) mas a representação cria um novo problema: como saber se as idéias representadas correspondem verdadeiramente às coisas representadas? Como saber se a idéia é adequada ao seu ideado? Para solucionar esta dificuldade nasce o método.
A noção de representação significa que aquele que conhece — o Sujeito do Conhecimento — está sozinho, rodeado por coisas cuja verdade ele não pode encontrar imediatamente, pois percebe coisas, mas deve conhecer Objetos do Conhecimento, isto é, as idéias verdadeiras ou os conceitos dessas coisas percebidas. Precisa de um instrumento que lhe permita três atividades: 1) representar corretamente as coisas, isto é, alcançar suas causas sem risco de erro (para os espiritualistas, os erros virão dos sentidos ou do corpo; para os materialistas, os erros virão das abstrações indevidas feitas pela inteligência); 2) controlar cada um dos passos efetuados, pois a perda de controle de uma das operações intelectuais pode provocar o erro no final do percurso, que, por isso, deve ser controlado passo por passo; 3) permitir que se possa deduzir ou inferir de algo já conhecido com certeza o conhecimento de algo ainda desconhecido, isto é, o instrumento deve permitir o progresso dos conhecimentos verdadeiros oferecendo recursos seguros para que se possa passar do conhecido ao desconhecido. A função do método é de preencher esses três requisitos. Por essa razão, nenhum dos filósofos modernos deixa de escrever um tratado sobre o método.
No século XVII, a palavra método (do grego: caminho certo, correto, seguro) tem um sentido vago e um sentido preciso. Sentido vago, porque todos os filósofos possuem um método ou o seu método, havendo tantos métodos quantos filósofos. Sentido preciso, porque o bom método é aquele que permite conhecer verdadeiramente o maior número de coisas com o menor número e regras. Quanto maiores a generalidades e a simplicidade do método, quanto mais puder ser aplicado aos mais diferentes setores do conhecimento, melhor será ele.
O método é sempre considerado matemático. Isto não quer dizer que se usa a aritmética, a álgebra, a geometria para o conhecimento de todas as realidades, e sim que o método procura o ideal matemático, isto é, ser uma mathesis universalis.
Isto significa duas coisas: 1) que a matemática é tomada no sentido grego da expressão ta mathema, isto é, conhecimento completo, perfeito e inteiramente dominado pela inteligência (aritmética, geometria, álgebra são matemáticas, por isso, isto é, porque dominam completa e intelectualmente seus objetos); 2) que o método possui dois elementos fundamentais de todo conhecimento matemático: a ordem e a medida.
Vimos que, no Renascimento, o conhecimento operava com a noção de Semelhança, era descritivo e interpretativo. A diferença entre os renascentistas e os modernos consiste no fato de que estes últimos criticam a Semelhança, considerando-a causa dos erros e incapaz de alcançar a essência das coisas. Conhecer pela causa significa que a inteligência é capaz de discernir a identidade e a diferença no nível da essência invisível das coisas. A ordem e a medida têm a função de produzir esse discernimento e por isso são o núcleo do método e da mathesis.
Conhecer é relacionar. Relacionar é estabelecer um nexo causal. Estabelecer um nexo causal é determinar quais as identidades e quais as diferenças entre os seres (coisas, idéias, corpos, afetos, etc.). A medida oferece o critério para essa identidade e essa diferença. Assim, por exemplo, a medida permitirá que não se estabeleça uma relação causal entre realidades heterogêneas quanto à substância. Ela analisa, isto é, decompõe um todo em partes e estabelece qual o elemento que serve de unificador para essas partes (a "grandeza" comum a todas elas). A ordem é o conhecimento do encadeamento interno e necessário entre os termos que foram medidos, isto é, estabelece qual o termo que se relaciona com outro e em qual seqüência necessária, de sorte que ela estabelece uma série ordenada, sintetiza o que foi analisado pela medida e permite passar do conhecido ao desconhecido.
A ordem é essencial ao método por três motivos: 1) porque os modernos consideram que a primeira verdade de uma série é conhecida por uma intuição evidente, a partir da qual será colocada a medida e esta depende da seriação dos termos feita pela ordem; 2) porque os conhecimentos de totalidades complexas são conhecimentos de séries diferentes, cujas relações só podem ser estabelecidas se cada série estiver corretamente ordenada; 3) porque a ordem permite a relação entre um primeiro termo e um último cuja medida pode não ser a mesma (são heterogêneos ou incomensuráveis), mas a relação pode ser feita porque a ordenação foi fazendo aparecer entre um termo e outro uma medida nova que encadeia o segundo ao terceiro, este ao quarto e assim por diante.
Um exemplo deste último e mais importante procedimento. Na filosofia de Descartes, não haveria como estabelecer relação causal entre a alma finita humana, Deus infinito e o mundo extenso, já que são três substâncias diferentes. Aplicando a medida e a ordem, Descartes estabelece o que chama de cadeia de razões (nexos causais e lógicos) do seguinte tipo: a alma pensa e ao pensar tem uma idéia de que ela própria não pode ser a causa, a idéia de Deus; isto é, a alma finita não pode ser causa de uma idéia infinita. Sendo, porém, Deus uma idéia, pode perfeitamente estar em nossa alma e pode causá-la em nós, porque o intelecto divino age sobre o nosso por meio das idéias verdadeiras. Ora, a idéia de Deus é a idéia de um Ser Perfeito, que seria imperfeito se não existisse, portanto, a idéia presente em nossa inteligência, causada pela inteligência de Deus, é a idéia de um ser que só será Deus se existir. Nós não podemos fazer Deus existir, mas a idéia de Deus nos revela que ele existe. Passamos, assim, da idéia ao ser. Ora, esse ser é perfeito, e se nos faz ter idéias das coisas exteriores através de nossos sentidos, é porque nos deu um corpo e criou outros corpos que constituem o mundo extenso. Passamos, assim, do ser de Deus à idéia de nosso corpo e às idéias dos corpos exteriores, o que não poderia ser feito sem a ordem, pois sem ela não poderíamos passar de nossa alma a Deus e dele ao nosso corpo nem aos corpos exteriores. A medida é a idéia e a ordem da seqüência causal dessas idéias até chegar a corpos.
O método, ciência universal da ordem e da medida, pode ser analítico ou sintético. Na análise, vai-se das partes ao todo ou do particular ao universal (é o método preferido por Descartes e Locke); na síntese, vai-se do todo às partes ou do universal ao particular (é o método preferido por Espinosa); ou uma combinação de ambos, conforme as necessidades próprias do objeto de estudo (como faz Leibniz). Em qualquer dos casos, realiza-se pela ordem e pela medida, mas é considerado dedutivo pelos racionalistas intelectualistas (que partem das idéias para as sensações) e indutivo pelos racionalistas empiristas (que partem das sensações para as idéias). Essa diferença repercute no conceito de intuição, que é considerado por todos como o ponto de partida da cadeia dedutiva ou da cadeia indutiva: no primeiro caso, a intuição é uma visão puramente intelectual de uma idéia verdadeira; no segundo caso, a intuição é sensível, isto é, visão ou sensação evidente de alguma coisa que levará à sua idéia.
4. A idéia moderna da Razão
Em seu livro História da Filosofia, Hegel declara que a filosofia moderna é o nascimento da Filosofia propriamente dita porque nela, pela primeira vez, os filósofos afirmam:
1) que a filosofia é independente e não se submete a nenhuma autoridade que não seja a própria razão como faculdade plena de conhecimento. Isto é, os modernos são os primeiros a demonstrar que o conhecimento verdadeiro só pode nascer do trabalho interior realizado pela razão, graças a seu próprio esforço, sem aceitar dogmas religiosos, preconceitos sociais, censuras políticas e os dados imediatos fornecidos pelos sentidos. Só a razão conhece e somente ela pode julgar-se a si mesma;
2) que a filosofia moderna realiza a primeira descoberta da Subjetividade propriamente dita porque nela o primeiro ato de conhecimento, do qual dependerão todos os outros, é a Reflexão ou a Consciência de Si Reflexiva. Isto é, os modernos partem da consciência da consciência, da consciência do ato de ser consciente, da volta da consciência sobre si mesma para reconhecer-se como sujeito e objeto do conhecimento e como condição da verdade. A consciência é para si mesma o primeiro objeto do conhecimento, ou o conhecimento de que é capacidade de e para conhecer;
3) que a filosofia moderna é a primeira a reconhecer que, sendo todos os seres humanos seres conscientes e racionais, todos têm igualmente o direito ao pensamento e à verdade. Segundo Hegel, essa afirmação do direito ao pensamento, unida à idéia de liberdade da razão para julgar-se a si mesma, portanto, o igualitarismo intelectual e a recusa de toda censura sobre o pensamento e a palavra, seria a realização filosófica de um principio nascido com o protestantismo e que este, enquanto mera religião, não poderia cumprir precisando da filosofia para realizar-se: o princípio da individualidade como subjetividade livre que se relaciona livremente com o infinito e com a verdade.
A razão, o pensamento, a capacidade da consciência para conhecer por si mesma a realidade natural e espiritual, o visível e o invisível, os seres humanos, a ação moral e política, chama-se Luz Natural. Embora os modernos se diferenciem quanto à Luz Natural (para alguns, por exemplo, a razão traz inatamente não só a possibilidade para o conhecimento verdadeiro, mas até mesmo as idéias, que seriam inatas; para outros, nossa consciência é como uma folha em branco na qual tudo será impresso pelas sensações e pela experiência, nada possuindo de inato), o essencial é que a Luz Natural significa a capacidade de autoiluminação do pensamento, uma faculdade inteiramente natural de conhecimento que alcança a verdade sem necessidade da Revelação ou da Luz Sobrenatural (ainda que alguns filósofos, como Pascal, Leibniz ou Malebranche, considerem que certas verdades só podem ser alcançadas pela Luz Natural se esta for auxiliada pela luz da Graça Divina).
A primeira intuição evidente, verdade indubitável de onde partirá toda a filosofia moderna, concentra-se na célebre formulação de Descartes: "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum). O pensamento consciente de si como "Força Nativa" (a expressão é de Espinosa), capaz de oferecer a si mesmo um método e de intervir na realidade natural e política para modificá-la, eis o ponto fixo encontrado pelos modernos.
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Planejamento de filosofia
Escola Estadual Paulo José Derenusson
Planejamento de anual de Filosofia –primeiros anos
Primeiro bimestre – fevereiro a abril – 2011.
Conceituação filosófica e mitologia grega
Objetivos:
Chegar ao final do bimestre com os alunos tendo compreendido o conceito do ato de pensar filosoficamente e compreenderem o pensamento mitológico so povo Grego.
Proporcionar aos mesmos meios para que saibam distinguir filosofia como elemento clareador da realidade atual.
Fazer com que os alunos compreendam filosofia como busca de conhecimento do se humano – corpo e psiquismo – pensar.
MATERIAL DIDÁTICO UTILIZADO:
A) – Textos:
“Eu sei que nada sei”, dito de Sócrates, filósofo Grego, que revolucionário ao pensamento filosófico ocidental, nas controversas do pensar humano, no final do século quarto antes de cristo.
Com esta afirmação Sócrates parte do principio de que ninguém é detentor absoluto da verdade. O não saber é o ponto inicial para chegar aonde se quer conhecer.
Conceituar filosofia hoje, ainda é muito difícil, pois os conceitos acumulados ao longo da história dão conta de que filosofia é a ciência que estudas as causas das coisas.
Neste nosso estudo procurarei percorrer a história da filosofia, “garimpando” conceitos dos mais diversos e de diferentes fontes para tentar, conjuntamente com filósofos do mundo e do Brasil, pelo menos dar aos alunos que me cercam alguns conceitos a cerca de filosofia.
Estou, neste momento, tão confuso quanto Sócrates, tão criança, tão infantil, sempre perguntando a todos: O que é o saber?
Entrem comigo neste barco e vamos a deriva da busca do conhecer.
Filosofia: ciência que busca através da investigação a causa, a origem das coisas. Através do porque vai sempre indagando o que é o objeto estudado.
“Filosofia é um ramo da ciência que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados,seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aso conteúdos, contemporaneamente, a filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade”.(1)
Filosofia: “Ciência da busca do conhecimento, especialmente da origem e do sentido da existência. Sistema ou conjunto de estudos que reúne um determinado ramo do conhecimento” *2.
Filosofia: (Philo sophia) –Singular feminino – Grego, pelo latim philosophiam. Ciência geral dos seres, dos princípios e das causas. Estudo da psicologia, da moral, da lógica e da metafísica”.(3).
A filosofia nasce ligada, colocada com a vida.*4
Filosofar é meditar, estudar as causas e as conseqüências dos fatos, procurar saber, ter sabedoria. * “Paula costa,da quinta série do Colégio Nossa Senhora do Rosário.
Filosofar é discutir e debater sobre inúmeros assuntos e temas. * 5
Filosofar é compreender que é a razão humana que constrói o mundo, não forças adversas, mitológicas ou de deuses.
B) Aulas expositivas:
Trabalhamos ao longo deste bimestre com exposições dos temas acima citados, colocando em evidência a filosofia compreensão do ser humano em busca do conhecer, usando sua mente- psíquico como elemento intelectual da descoberta.
Com a aproximação do dia internacional da mulher e a violência que todos os dias elas sofrem, propusemos um trabalho sobre a lei Maria da penha.
Dividimos as salas em grupo de máximo 05 (cinco) membros e incentivamos que os mesmos desenvolvessem atividades cobre o tema.
De acordo com o CBC: Outras serão capazes de atos de solidariedade envolvendo grande sacrifício, como o de dividir seu alimento com outra pessoa, mesmo tendo muito pouco. Isso nos leva a crer que, em se tratando do ser humano, a mera sobrevivência e bem estar do corpo parecem não ter a última palavra. Não raramente falamos que “a mente deve controlar o corpo” ou que “o ser humano deve ser definido pelas suas crenças, desejos e sentimentos e não por suas características físicas, como cor de pele, gênero e assim por diante”. Afirmamos também que é “a posse da razão que nos distingue dos outros animais” e que “não basta ter um corpo saudável, é preciso cultivar também a mente”.
C) – Material de apoio didático:
Utilizamos como apoio para a realização destes trabalhos, Datashow, vídeos, cartazes, músicas.
D) Painéis e Seminários;
Os grupos apresentaram trabalhos que surpreenderam a todos, onde destacaram a valorização da estima feminina e se mostraram solidários com as mulheres.
Constavam a ainda deste trabalho uma redação sobre o tema: Lei Maria da Penha e a violência doméstica.
Surpreendentemente as redações foram de uma solidariedade as mulheres de mostrar que o ser humano pensante pode usar a mente e o corpo como instrumento transformador.
Obs: Algumas redações e trabalhos farão parte de um relatório de atividades que pretendemos desenvolver junto com a escola na escola.
E) Avaliação
A avaliação se dividiu em: Trabalhos, redações e provas
Segundo bimestre: maio a junho de 2011.
Odisséia de Homero
Mergulhar no pensamento humano Grego é estar conectado com a realidade que se viveu aquele povo, e sobre tudo fazer a ponte com os dias de hoje.
O povo Grego levou mais de 10 (dez) séculos para se constituir como nação, pois foi formado de povos, principalmente, indo-europeus.
A dificuldade territorial grega, fez com que o seu povo se estabelecesse em ilhas espalhadas as margens do mediterrâneo, principalmente.
Os povos que ali se fixaram trouxeram uma carga enorme de cultura, mitologia e convivência de outras localidades de onde viam, formando em cada localidade, quase um estado independente, e também com os seus deuses e suas formas de adoração.
As guerras cravaram na História deste povo um marco forte, fazendo que cidades-estado, travassem lutas “Homéricas” com outras cidades.
Tróia foi um exemplo de luta memorável na Grécia.
Vamos neste segundo bimestre trabalhar este fantástico texto literário, pois ele traduz para nós toda a história de um povo e revela a importância da espiritualidade deste povo heróico e criativo, o povo Grego.
Alinhado com o CBC de filosofia, procuraremos alinhar os nossos alunos nesta perspectiva de conhecer a história e desenvolver o gosto pela leitura.
Contemporaneamente, alguns autores valorizam a cultura de outra maneira, ou seja, sem pretensão à universalidade, escapando, assim, dessa naturalização do que é convenção humana. A partir das pesquisas mais recentes das Ciências Humanas, aprendemos a reconhecer a relatividade dos valores e das normas das diferentes culturas; mas o problema dos limites do relativismo permanece. Ao estudar a diversidade cultural dos povos no planeta, a Antropologia Cultural, por exemplo, aprofunda a discussão do relativismo. Os antropólogos tendem a se opor aos filósofos, que tradicionalmente pensavam apenas numa modalidade de "Razão" (com letra maiúscula e no singular). Sob a influência da diversidade cultural, os pensadores, filósofos e antropólogos, passaram a reconhecer a pluralidade das "racionalidades" (com letra minúscula e no plural). (CBC de filosofia – Secretaria de Educação de Minas Gerais)
Objetivos
Que os alunos ao final do bimestre possam compreender que a história de um povo está diretamente relacionada com suas formas de vida; suas crenças, suas lutas e que as diferencias culturais são formas de culturas diferentes e não cultura maior ou menor.
Material didático
A) O Livro Odisséia
B) Aulas expositivas
C) Datashow, televisão, etc
D) Apresentações de seminário
E) Teatro em sala, etc.
Avaliações
As avaliações serão feitas a partir das apresentações e uma prova do bimestre.
Planejamento Bimestral dos segundos anos
Maio a julho- 2011
.O individuo é produtor da comunidade em que se vive. É elemento construtor da sua sociedade, não vive os que os outros conceberam como sociedade, mais como o ente constrói seu ambiente quanto ser decisivo e pensante.
O Cbc de Filosofia de Minas, na introdução de individuo e comunidade, diz:
Os termos “indivíduo” e “comunidade” parecem possuir significados opostos. Por um lado, “indivíduo” quer dizer “o que não pode ser dividido”, estando associado, portanto, às noções de “unicidade”, “unidade”, “propriedade”, “particularidade”, ou seja, a tudo aquilo que não é partilhado. Por outro lado, “comunidade” se refere àquilo que é “comum”, àquilo que é de todos (sem ser de ninguém em particular), àquilo que concerne a todos. Logo, a palavra “comunidade” está relacionada à vida em comum, à existência compartilhada, ao passo que “indivíduo” diz respeito à autonomia e à independência.
O individuo vive numa comunidade e assim sendo tem que partilhar com suas regras e normas e valores éticos.
OBJETIVOS
Levar o aluno a compreender que a sociedade que ele vive é fundamental associada a seus valores.
Proporcionar através da leitura elemos para que ele possa compreender o mundo como individual e coletivo.
A filosofia Grega está repleta de ensinamentos diversos a respeito de sociedade.
Como já vimos a Grecia é o berço de uma cultura com valores enormes, tanto no que se diz respeito ao individuo, quanto a coletividade.
Sócrates, em algum momento ele diz: “Outra coisa não faço senão andar por aí persuadindo-vos, moços e velhos, a não cuidar tão aferradamente do corpo e das riquezas, como de melhorar o mais possível a alma, dizendo-vos que dos haveres não vem a virtude para os homens, mas da virtude vêm os haveres e todos os outros bens particulares e públicos [para a cidade].” (Platão, Apologia de Sócrates, 30 b. Trad. de Jaime Bruna. São Paulo: Abril Cultural, 1987, p. 15. Coleção Os Pensadores).
MATERIAL DIDÁTICO
Aulas expositivas
O LIVRO: O banquete de Platão
Seminários do livro
Filmes
Datashow, et.
Avaliação: Seminários, trabalhos e provas
Planejamento dos terceiros anos
Maio a junho de 2011
Para se fazer transição da idade antiga até o modernismo filosófico faz necessário entender a base deste pensar. Compreender o que pensavam dois dos principais filósofos antigos: Platão e Aristóteles.
Platão, é o representante fiel de Sócrates e depois afina nas academias gregas seu pensar mais apurado.
PLATÃO (428 a.c- 347 a.c).
Platão foi o primeiro grande pensador a legar para a posteridade uma série de diálogos nos quais foram desenvolvidos alguns dos pilares fundamentais da filosofia política do Ocidente. Em seu diálogo A República, ele tenta descobrir o que é a justiça e qual é a organização política mais justa para se viver. Depois de analisar as concepções mais influentes, na opinião de seus concidadãos, a respeito do problema da justiça, ele procura mostrar que só em um regime ideal, construído segundo os preceitos, que procura explicitar ao longo do texto, se poderia encontrar a justiça em sua plenitude. Nesse regime, os governantes deteriam o poder em razão de seu saber e isso levou-o a concluir que a filosofia deveria governar. Não se tratava de afirmar que os filósofos deveriam governar por pertencerem a um grupo social específico, que se dedicava à busca da sabedoria e à sua transmissão, mas sim que o regime deveria ser construído segundo um saber, que se identifica com a compreensão do que é o Bem, princípio do qual derivavam todas as outras coisas. Em todos os outros regimes existentes, como a realeza, a aristocracia, a oligarquia, a democracia e a tirania, os homens se identificam e agem em conformidade com os princípios desses regimes. Na oligarquia, os governantes agem em função do poder que a riqueza lhes confere, como na democracia, é a busca por uma igualdade generalizada que move o homem democrático. No regime ideal, os homens se identificam com a filosofia e com a justiça e, por isso, são capazes de escapar das limitações de todos os outros regimes. Platão estava consciente das dificuldades para se construir um regime ideal, governado por sábios, e explicitou seu ponto de vista em diálogos como O Político e As Leis. Mas isso não foi suficiente para que ele abandonasse suas convicções e a ideia de que a realização plena das capacidades políticas dos homens só se dá quanto são deixadas de lado as particularidades dos regimes parciais.
Os diálogos já demonstra sua inclinação para uma formação filosófica mais estruturada, deixa as idéias do seu mestre, Sócrates em evidência e caminha para mais longe.
Na republica Platão já quer demonstrar que tipo de sociedade quer para os Gregos:: “Ora Glauco, recordemos os pontos em torno dos quais estamos de acordo para que uma Cidade seja eminentemente bem governada: comunidade das mulheres, comunidade das crianças e de todo o processo educativo; ocupações comuns na guerra como na paz; o governo deve estar nas mãos dos cidadãos, que mostraram ser os melhores tanto na filosofia quanto na guerra.(...). Eis outros pontos sobre os quais estamos de acordo: os chefes, uma vez designados, conduzirão os soldados para instalá-los nas residências sobre as quais falamos anteriormente e onde nenhum deles é proprietário de nada, mas nas quais tudo é comum. Além disso, estamos de acordo, acredito eu, se você se lembra, sobre quais devem ser seus bens mobiliários. – Sim, disse ele, eu me recordo que para nós nenhum desses homens deve possuir bens, que de fato pertencem aos outros, mas que assim como os guerreiros e os guardiões, eles devem receber dos outros, como salário por sua função de guarda, o necessário para a subsistência anual, sendo seu dever velar sobre eles mesmos e sobre a Cidade”.
Platão. A República. VIII, 543.
Quais dos elementos da descrição da cidade ideal são os mais importantes para sua criação?
2. Como podemos nos servir de Platão para pensarmos a concentração de poder nas mãos dos que detém as riquezas, que observamos em várias sociedades contemporâneas?
3. Quais elementos dentre os expostos nos textos lhe parecem impossíveis de se realizar em sociedades como as nossas?
Exercício.
1.Procure imaginar uma sociedade ideal e analise se seria possível construí-la nos dias de hoje, levando em conta os fatores econômicos, sociais, políticos e morais.
2. Pesquise para saber se já houve no Brasil tentativas de construir sociedades baseadas em utopias.
Material didático utilizado:
Leitura do Livro: O BANQUETE DE PLATÃO
1. Aulas expositivas
2. Data show
3. Seminário, etc
Avaliação: Rever um momento que podemos nos reunir para avaliar a prática dos alunos como formação do individuo pensante.
Planejamento de anual de Filosofia –primeiros anos
Primeiro bimestre – fevereiro a abril – 2011.
Conceituação filosófica e mitologia grega
Objetivos:
Chegar ao final do bimestre com os alunos tendo compreendido o conceito do ato de pensar filosoficamente e compreenderem o pensamento mitológico so povo Grego.
Proporcionar aos mesmos meios para que saibam distinguir filosofia como elemento clareador da realidade atual.
Fazer com que os alunos compreendam filosofia como busca de conhecimento do se humano – corpo e psiquismo – pensar.
MATERIAL DIDÁTICO UTILIZADO:
A) – Textos:
“Eu sei que nada sei”, dito de Sócrates, filósofo Grego, que revolucionário ao pensamento filosófico ocidental, nas controversas do pensar humano, no final do século quarto antes de cristo.
Com esta afirmação Sócrates parte do principio de que ninguém é detentor absoluto da verdade. O não saber é o ponto inicial para chegar aonde se quer conhecer.
Conceituar filosofia hoje, ainda é muito difícil, pois os conceitos acumulados ao longo da história dão conta de que filosofia é a ciência que estudas as causas das coisas.
Neste nosso estudo procurarei percorrer a história da filosofia, “garimpando” conceitos dos mais diversos e de diferentes fontes para tentar, conjuntamente com filósofos do mundo e do Brasil, pelo menos dar aos alunos que me cercam alguns conceitos a cerca de filosofia.
Estou, neste momento, tão confuso quanto Sócrates, tão criança, tão infantil, sempre perguntando a todos: O que é o saber?
Entrem comigo neste barco e vamos a deriva da busca do conhecer.
Filosofia: ciência que busca através da investigação a causa, a origem das coisas. Através do porque vai sempre indagando o que é o objeto estudado.
“Filosofia é um ramo da ciência que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados,seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aso conteúdos, contemporaneamente, a filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade”.(1)
Filosofia: “Ciência da busca do conhecimento, especialmente da origem e do sentido da existência. Sistema ou conjunto de estudos que reúne um determinado ramo do conhecimento” *2.
Filosofia: (Philo sophia) –Singular feminino – Grego, pelo latim philosophiam. Ciência geral dos seres, dos princípios e das causas. Estudo da psicologia, da moral, da lógica e da metafísica”.(3).
A filosofia nasce ligada, colocada com a vida.*4
Filosofar é meditar, estudar as causas e as conseqüências dos fatos, procurar saber, ter sabedoria. * “Paula costa,da quinta série do Colégio Nossa Senhora do Rosário.
Filosofar é discutir e debater sobre inúmeros assuntos e temas. * 5
Filosofar é compreender que é a razão humana que constrói o mundo, não forças adversas, mitológicas ou de deuses.
B) Aulas expositivas:
Trabalhamos ao longo deste bimestre com exposições dos temas acima citados, colocando em evidência a filosofia compreensão do ser humano em busca do conhecer, usando sua mente- psíquico como elemento intelectual da descoberta.
Com a aproximação do dia internacional da mulher e a violência que todos os dias elas sofrem, propusemos um trabalho sobre a lei Maria da penha.
Dividimos as salas em grupo de máximo 05 (cinco) membros e incentivamos que os mesmos desenvolvessem atividades cobre o tema.
De acordo com o CBC: Outras serão capazes de atos de solidariedade envolvendo grande sacrifício, como o de dividir seu alimento com outra pessoa, mesmo tendo muito pouco. Isso nos leva a crer que, em se tratando do ser humano, a mera sobrevivência e bem estar do corpo parecem não ter a última palavra. Não raramente falamos que “a mente deve controlar o corpo” ou que “o ser humano deve ser definido pelas suas crenças, desejos e sentimentos e não por suas características físicas, como cor de pele, gênero e assim por diante”. Afirmamos também que é “a posse da razão que nos distingue dos outros animais” e que “não basta ter um corpo saudável, é preciso cultivar também a mente”.
C) – Material de apoio didático:
Utilizamos como apoio para a realização destes trabalhos, Datashow, vídeos, cartazes, músicas.
D) Painéis e Seminários;
Os grupos apresentaram trabalhos que surpreenderam a todos, onde destacaram a valorização da estima feminina e se mostraram solidários com as mulheres.
Constavam a ainda deste trabalho uma redação sobre o tema: Lei Maria da Penha e a violência doméstica.
Surpreendentemente as redações foram de uma solidariedade as mulheres de mostrar que o ser humano pensante pode usar a mente e o corpo como instrumento transformador.
Obs: Algumas redações e trabalhos farão parte de um relatório de atividades que pretendemos desenvolver junto com a escola na escola.
E) Avaliação
A avaliação se dividiu em: Trabalhos, redações e provas
Segundo bimestre: maio a junho de 2011.
Odisséia de Homero
Mergulhar no pensamento humano Grego é estar conectado com a realidade que se viveu aquele povo, e sobre tudo fazer a ponte com os dias de hoje.
O povo Grego levou mais de 10 (dez) séculos para se constituir como nação, pois foi formado de povos, principalmente, indo-europeus.
A dificuldade territorial grega, fez com que o seu povo se estabelecesse em ilhas espalhadas as margens do mediterrâneo, principalmente.
Os povos que ali se fixaram trouxeram uma carga enorme de cultura, mitologia e convivência de outras localidades de onde viam, formando em cada localidade, quase um estado independente, e também com os seus deuses e suas formas de adoração.
As guerras cravaram na História deste povo um marco forte, fazendo que cidades-estado, travassem lutas “Homéricas” com outras cidades.
Tróia foi um exemplo de luta memorável na Grécia.
Vamos neste segundo bimestre trabalhar este fantástico texto literário, pois ele traduz para nós toda a história de um povo e revela a importância da espiritualidade deste povo heróico e criativo, o povo Grego.
Alinhado com o CBC de filosofia, procuraremos alinhar os nossos alunos nesta perspectiva de conhecer a história e desenvolver o gosto pela leitura.
Contemporaneamente, alguns autores valorizam a cultura de outra maneira, ou seja, sem pretensão à universalidade, escapando, assim, dessa naturalização do que é convenção humana. A partir das pesquisas mais recentes das Ciências Humanas, aprendemos a reconhecer a relatividade dos valores e das normas das diferentes culturas; mas o problema dos limites do relativismo permanece. Ao estudar a diversidade cultural dos povos no planeta, a Antropologia Cultural, por exemplo, aprofunda a discussão do relativismo. Os antropólogos tendem a se opor aos filósofos, que tradicionalmente pensavam apenas numa modalidade de "Razão" (com letra maiúscula e no singular). Sob a influência da diversidade cultural, os pensadores, filósofos e antropólogos, passaram a reconhecer a pluralidade das "racionalidades" (com letra minúscula e no plural). (CBC de filosofia – Secretaria de Educação de Minas Gerais)
Objetivos
Que os alunos ao final do bimestre possam compreender que a história de um povo está diretamente relacionada com suas formas de vida; suas crenças, suas lutas e que as diferencias culturais são formas de culturas diferentes e não cultura maior ou menor.
Material didático
A) O Livro Odisséia
B) Aulas expositivas
C) Datashow, televisão, etc
D) Apresentações de seminário
E) Teatro em sala, etc.
Avaliações
As avaliações serão feitas a partir das apresentações e uma prova do bimestre.
Planejamento Bimestral dos segundos anos
Maio a julho- 2011
.O individuo é produtor da comunidade em que se vive. É elemento construtor da sua sociedade, não vive os que os outros conceberam como sociedade, mais como o ente constrói seu ambiente quanto ser decisivo e pensante.
O Cbc de Filosofia de Minas, na introdução de individuo e comunidade, diz:
Os termos “indivíduo” e “comunidade” parecem possuir significados opostos. Por um lado, “indivíduo” quer dizer “o que não pode ser dividido”, estando associado, portanto, às noções de “unicidade”, “unidade”, “propriedade”, “particularidade”, ou seja, a tudo aquilo que não é partilhado. Por outro lado, “comunidade” se refere àquilo que é “comum”, àquilo que é de todos (sem ser de ninguém em particular), àquilo que concerne a todos. Logo, a palavra “comunidade” está relacionada à vida em comum, à existência compartilhada, ao passo que “indivíduo” diz respeito à autonomia e à independência.
O individuo vive numa comunidade e assim sendo tem que partilhar com suas regras e normas e valores éticos.
OBJETIVOS
Levar o aluno a compreender que a sociedade que ele vive é fundamental associada a seus valores.
Proporcionar através da leitura elemos para que ele possa compreender o mundo como individual e coletivo.
A filosofia Grega está repleta de ensinamentos diversos a respeito de sociedade.
Como já vimos a Grecia é o berço de uma cultura com valores enormes, tanto no que se diz respeito ao individuo, quanto a coletividade.
Sócrates, em algum momento ele diz: “Outra coisa não faço senão andar por aí persuadindo-vos, moços e velhos, a não cuidar tão aferradamente do corpo e das riquezas, como de melhorar o mais possível a alma, dizendo-vos que dos haveres não vem a virtude para os homens, mas da virtude vêm os haveres e todos os outros bens particulares e públicos [para a cidade].” (Platão, Apologia de Sócrates, 30 b. Trad. de Jaime Bruna. São Paulo: Abril Cultural, 1987, p. 15. Coleção Os Pensadores).
MATERIAL DIDÁTICO
Aulas expositivas
O LIVRO: O banquete de Platão
Seminários do livro
Filmes
Datashow, et.
Avaliação: Seminários, trabalhos e provas
Planejamento dos terceiros anos
Maio a junho de 2011
Para se fazer transição da idade antiga até o modernismo filosófico faz necessário entender a base deste pensar. Compreender o que pensavam dois dos principais filósofos antigos: Platão e Aristóteles.
Platão, é o representante fiel de Sócrates e depois afina nas academias gregas seu pensar mais apurado.
PLATÃO (428 a.c- 347 a.c).
Platão foi o primeiro grande pensador a legar para a posteridade uma série de diálogos nos quais foram desenvolvidos alguns dos pilares fundamentais da filosofia política do Ocidente. Em seu diálogo A República, ele tenta descobrir o que é a justiça e qual é a organização política mais justa para se viver. Depois de analisar as concepções mais influentes, na opinião de seus concidadãos, a respeito do problema da justiça, ele procura mostrar que só em um regime ideal, construído segundo os preceitos, que procura explicitar ao longo do texto, se poderia encontrar a justiça em sua plenitude. Nesse regime, os governantes deteriam o poder em razão de seu saber e isso levou-o a concluir que a filosofia deveria governar. Não se tratava de afirmar que os filósofos deveriam governar por pertencerem a um grupo social específico, que se dedicava à busca da sabedoria e à sua transmissão, mas sim que o regime deveria ser construído segundo um saber, que se identifica com a compreensão do que é o Bem, princípio do qual derivavam todas as outras coisas. Em todos os outros regimes existentes, como a realeza, a aristocracia, a oligarquia, a democracia e a tirania, os homens se identificam e agem em conformidade com os princípios desses regimes. Na oligarquia, os governantes agem em função do poder que a riqueza lhes confere, como na democracia, é a busca por uma igualdade generalizada que move o homem democrático. No regime ideal, os homens se identificam com a filosofia e com a justiça e, por isso, são capazes de escapar das limitações de todos os outros regimes. Platão estava consciente das dificuldades para se construir um regime ideal, governado por sábios, e explicitou seu ponto de vista em diálogos como O Político e As Leis. Mas isso não foi suficiente para que ele abandonasse suas convicções e a ideia de que a realização plena das capacidades políticas dos homens só se dá quanto são deixadas de lado as particularidades dos regimes parciais.
Os diálogos já demonstra sua inclinação para uma formação filosófica mais estruturada, deixa as idéias do seu mestre, Sócrates em evidência e caminha para mais longe.
Na republica Platão já quer demonstrar que tipo de sociedade quer para os Gregos:: “Ora Glauco, recordemos os pontos em torno dos quais estamos de acordo para que uma Cidade seja eminentemente bem governada: comunidade das mulheres, comunidade das crianças e de todo o processo educativo; ocupações comuns na guerra como na paz; o governo deve estar nas mãos dos cidadãos, que mostraram ser os melhores tanto na filosofia quanto na guerra.(...). Eis outros pontos sobre os quais estamos de acordo: os chefes, uma vez designados, conduzirão os soldados para instalá-los nas residências sobre as quais falamos anteriormente e onde nenhum deles é proprietário de nada, mas nas quais tudo é comum. Além disso, estamos de acordo, acredito eu, se você se lembra, sobre quais devem ser seus bens mobiliários. – Sim, disse ele, eu me recordo que para nós nenhum desses homens deve possuir bens, que de fato pertencem aos outros, mas que assim como os guerreiros e os guardiões, eles devem receber dos outros, como salário por sua função de guarda, o necessário para a subsistência anual, sendo seu dever velar sobre eles mesmos e sobre a Cidade”.
Platão. A República. VIII, 543.
Quais dos elementos da descrição da cidade ideal são os mais importantes para sua criação?
2. Como podemos nos servir de Platão para pensarmos a concentração de poder nas mãos dos que detém as riquezas, que observamos em várias sociedades contemporâneas?
3. Quais elementos dentre os expostos nos textos lhe parecem impossíveis de se realizar em sociedades como as nossas?
Exercício.
1.Procure imaginar uma sociedade ideal e analise se seria possível construí-la nos dias de hoje, levando em conta os fatores econômicos, sociais, políticos e morais.
2. Pesquise para saber se já houve no Brasil tentativas de construir sociedades baseadas em utopias.
Material didático utilizado:
Leitura do Livro: O BANQUETE DE PLATÃO
1. Aulas expositivas
2. Data show
3. Seminário, etc
Avaliação: Rever um momento que podemos nos reunir para avaliar a prática dos alunos como formação do individuo pensante.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Arte na rua
arte publica, o poeta das ruas
almanaque arte
"... Com a mala a punho, a vida e a cuia
Vai a prantos o viajante
Tropeça em lágrimas, cai na tuia
Como notório errante
E com a poesia a mão
Para doar a qualquer ser
Arranca do peito a solidão
Enfeita com pétalas o bem querer..."
(Trecho do poema "Andarilho", de J. Cláudio)
Quem frequenta a noite uberlandense já deve ter cruzado com uma figura inusitada carregando uma maleta, trajando terno, gravata e saia. Esse é o poeta J. Cláudio e seu personagem atual: executivo de saia, inspirado no modernista Roberto Carvalho, que entrou contra o fluxo de uma procissão, em São Paulo, usando a peça.
J. Cláudio nasceu no agreste pernambucano, além de trovador é pai, militante político e ativista ambiental. Formou-se em Filosofia no Recife e chegou a Uberlândia há 13 anos. Apaixonado pela alma feminina, e com sede por levar questionamentos a seu público, é tido como polêmico por tentar quebrar paradigmas com suas criações. Hoje, aos 49 anos, possui seis livros publicados, escreveu alguns cordéis, gravou seus poemas em CD e escreveu peças para teatro.
O palco do poeta são as ruas, praças e bares da cidade, para os quais leva o personagem e faz sua performance poética. Recitando textos próprios e de escritores consagrados, como Cecília Meireles e Manuel Bandeira, o artista procura sempre despertar a atenção para a sociedade. "Quero que se questionem e discutam sobre a concepção de ser humano: por que o homem não pode usar saia? Quem concebeu que a saia é apenas para mulher? Muito pelo contrário, as mulheres é quem tomaram conta do vestuário masculino. Luís XXV, por exemplo, usava salto alto", explica.
Suas performances duram em média meia hora e por noite o artista chega a fazer entre seis e sete apresentações. Ele conta que sua intervenção é dividida em três momentos: a chegada, que por tratar-se de uma pessoa incomum já causa frisson; a apresentação em si, momento no qual informação e emoção são expostas para o público; e o reconhecimento de seu trabalho, quando ele passa o chapéu recolhendo dinheiro ou vende seu livro.
Apesar do artista de rua enfrentar um pouco mais de preconceito, em geral, é bem recebido nos locais por onde passa. "Ouço desde piadinhas, elogios e críticas, até cantadas descaradas". Ele fala que é possível viver de arte no Brasil, inclusive em Uberlândia. Sobrevivendo num país onde cultura é artigo de luxo, levar seu trabalho para as ruas é exercício diário de paciência e amor à arte. "Na cidade existe uma aglomeração cultural de pessoas de Estados e países diferentes que aqui vivem. Uberlândia vem conquistando sua maturidade cultural aos poucos", comenta o poeta.
Flávia Reis é jornalista.
foto marlúcio ferreira
almanaque arte
"... Com a mala a punho, a vida e a cuia
Vai a prantos o viajante
Tropeça em lágrimas, cai na tuia
Como notório errante
E com a poesia a mão
Para doar a qualquer ser
Arranca do peito a solidão
Enfeita com pétalas o bem querer..."
(Trecho do poema "Andarilho", de J. Cláudio)
Quem frequenta a noite uberlandense já deve ter cruzado com uma figura inusitada carregando uma maleta, trajando terno, gravata e saia. Esse é o poeta J. Cláudio e seu personagem atual: executivo de saia, inspirado no modernista Roberto Carvalho, que entrou contra o fluxo de uma procissão, em São Paulo, usando a peça.
J. Cláudio nasceu no agreste pernambucano, além de trovador é pai, militante político e ativista ambiental. Formou-se em Filosofia no Recife e chegou a Uberlândia há 13 anos. Apaixonado pela alma feminina, e com sede por levar questionamentos a seu público, é tido como polêmico por tentar quebrar paradigmas com suas criações. Hoje, aos 49 anos, possui seis livros publicados, escreveu alguns cordéis, gravou seus poemas em CD e escreveu peças para teatro.
O palco do poeta são as ruas, praças e bares da cidade, para os quais leva o personagem e faz sua performance poética. Recitando textos próprios e de escritores consagrados, como Cecília Meireles e Manuel Bandeira, o artista procura sempre despertar a atenção para a sociedade. "Quero que se questionem e discutam sobre a concepção de ser humano: por que o homem não pode usar saia? Quem concebeu que a saia é apenas para mulher? Muito pelo contrário, as mulheres é quem tomaram conta do vestuário masculino. Luís XXV, por exemplo, usava salto alto", explica.
Suas performances duram em média meia hora e por noite o artista chega a fazer entre seis e sete apresentações. Ele conta que sua intervenção é dividida em três momentos: a chegada, que por tratar-se de uma pessoa incomum já causa frisson; a apresentação em si, momento no qual informação e emoção são expostas para o público; e o reconhecimento de seu trabalho, quando ele passa o chapéu recolhendo dinheiro ou vende seu livro.
Apesar do artista de rua enfrentar um pouco mais de preconceito, em geral, é bem recebido nos locais por onde passa. "Ouço desde piadinhas, elogios e críticas, até cantadas descaradas". Ele fala que é possível viver de arte no Brasil, inclusive em Uberlândia. Sobrevivendo num país onde cultura é artigo de luxo, levar seu trabalho para as ruas é exercício diário de paciência e amor à arte. "Na cidade existe uma aglomeração cultural de pessoas de Estados e países diferentes que aqui vivem. Uberlândia vem conquistando sua maturidade cultural aos poucos", comenta o poeta.
Flávia Reis é jornalista.
foto marlúcio ferreira
O Banquete de Platão
Apolodoro e um Companheiro
APOLODORO
- Creio que a respeito do que quereis saber não estou sem preparo. Com efeito, subia eu há pouco à
cidade, vindo de minha casa em Falero, quando um conhecido atrás de mim avistou-me e de longe me
chamou, exclamando em tom de brincadeira: “Falerino! Eh, tu, Apolodoro! Não me esperas?” Parei e
esperei. E ele disse-me: “Apolodoro, há pouco mesmo eu te procurava, desejando informarme
do
encontro de Agatão, Sócrates, Alcibíades, e dos demais que então assistiram ao banquete, e saber dos
seus discursos sobre o amor, como foram eles. Contou-mos uma outra pessoa que os tinha ouvido de
Fênix, o filho de Filipe, e que disse que também tu sabias. Ele porém nada tinha de claro a dizer.
Conta-me então, pois és o mais apontado a relatar as palavras do teu companheiro. E antes de tudo,
continuou, dize-me se tu mesmo estiveste presente àquele encontro ou não.” E eu respondi-lhe: “É
muitíssimo prováve1 que nada de claro te contou o teu narrador, se presumes que foi há pouco que se
realizou esse encontro de que me falas, de modo a também eu estar presente. Presumo, sim, disse ele. De
onde, ó Glauco?, tornei-lhe. Não sabes que há muitos anos Agatão não está na terra, e desde que eu
freqüento Sócrates e tenho o cuidado de cada dia saber o que ele diz ou faz, ainda não se passaram três
anos? Anteriormente, rodando ao acaso e pensando que fazia alguma coisa, eu era mais miseráve1 que
qualquer outro, e não menos que tu agora, se crês que tudo se deve fazer de preferência à filosofia”. “Não
fiques zombando, tornou ele, mas antes dize-me quando se deu esse encontro”. “Quando éramos crianças
ainda, respondi-lhe, e com sua primeira tragédia Agatão vencera o concurso, um dia depois de ter
sacrificado pela vitória, ele e os coristas. Faz muito tempo então, ao que parece, disse ele. Mas quem te
contou? O próprio Sócrates? Não, por Zeus, respondi-lhe, mas o que justamente contou a Fênix. Foi um
certo Aristodemo, de Cidateneão, pequeno, sempre descalço; ele assistira à reunião, amante de Sócrates
que era, dos mais fervorosos a meu ver. Não deixei todavia de interrogar o próprio Sócrates sobre a
narração que lhe ouvi, e este me confirmou o que o outro me contara. Por que então não me contaste?
tornou-me ele; perfeitamente apropriado é o caminho da cidade a que falem e ouçam os que nele
transitam.”
E assim é que, enquanto caminhávamos, fazíamos nossa conversa girar sobre isso, de modo que, como
disse ao início, não me encontro sem preparo. Se portanto é preciso que também a vós vos conte, devo
fazê-1o. Eu, aliás, quando sobre filosofia digo eu mesmo algumas palavras ou as ouço de outro, afora o
proveito que creio tirar, alegro-me ao extremo; quando, porém, se trata de outros assuntos, sobretudo dos
vossos, de homens ricos e negociantes, a mim mesmo me irrito e de vós me apiedo, os meus
companheiros, que pensais fazer algo quando nada fazeis. Talvez também vós me considereis infeliz, e
creio que é verdade o que presumis; eu, todavia, quanto a vós, não presumo, mas bem sei.
COMPANHEIRO
- És sempre o mesmo, Apolodoro! Sempre te estás maldizendo, assim como aos outros; e me pareces que
assim sem mais consideras a todos os outros infelizes, salvo Sócrates, e a começar por ti mesmo. Donde
é que pegaste este apelido de mole, não sei eu; pois em tuas conversas és sempre assim, contigo e com os
outros esbravejas, exceto com Sócrates.
APOLODORO
- Caríssimo, e é assim tão evidente que, pensando desse modo tanto de mim como de ti, estou eu
delirando e desatinando?
COMPANHEIRO
- Não vale a pena, Apolodoro, brigar por isso agora; ao contrário, o que eu te pedia, não deixes de
fazê-lo; conta quais foram os discursos.
APOLODORO
- Foram eles em verdade mais ou menos assim... Mas antes é do começo, conforme me ia contando
Aristodemo, que também eu tentarei contar-vos.
Disse ele que o encontrara Sócrates, banhado e calçado com as sandálias, o que poucas vezes fazia;
perguntou-lhe então onde ia assim tão bonito.
Respondeu-lhe Sócrates: - Ao jantar em casa de Agatão. Ontem eu o evitei, nas cerimônias da vitória, por
medo da multidão; mas concordei em comparecer hoje. E eis por que me embelezei assim, a fim de ir
belo à casa de um belo. E tu - disse ele - que tal te dispores a ir sem convite ao jantar?
- Como quiseres - tomou-lhe o outro.
- Segue-me, então - continuou Sócrates - e estraguemos o provérbio, alterando-o assim: “A festins de
bravos, bravos vão livremente.” Ora, Homero parece não só estragar mas até desrespeitar este provérbio;
pois tendo feito de Agamenão um homem excepcionalmente bravo na guerra, e de Menelau um “mole
lanceiro”,
no momento em que Agamenão fazia um sacrifício e se banqueteava, ele imaginou Menelau
chegado sem convite, um mais fraco ao festim de um mais bravo.
Ao ouvir isso o outro disse: - É provável, todavia, ó Sócrates, que não como tu dizes, mas como Homero,
eu esteja para ir como um vulgar ao festim de um sábio, sem convite. Vê então, se me levas, o que deves
dizer por mim, pois não concordarei em chegar sem convite, mas sim convidado por ti.
- Pondo-nos os dois a caminho - disse Sócrates - decidiremos o que dizer. Avante!
Após se entreterem em tais conversas, dizia Aristodemo, eles partem. Sócrates então, como que
ocupando o seu espírito consigo mesmo, caminhava atrasado, e como o outro se detivesse para
aguardá-lo, ele lhe pede que avance. Chegado à casa de Agatão, encontra a porta aberta e aí lhe ocorre,
dizia ele, um incidente cômico. Pois logo vem-lhe ao encontro, lá de dentro, um dos servos, que o leva
onde se reclinavam os outros, e assim ele os encontra no momento de se servirem; logo que o viu,
Agatão exclamou: - Aristodemo! Em boa hora chegas para jantares conosco! Se vieste por algum outro
motivo, deixa-o para depois, pois ontem eu te procurava para te convidar e não fui capaz de te ver. Mas...
e Sócrates, como é que não no-lo trazes?
- Voltando-me então - prosseguiu ele - em parte alguma vejo Sócrates a me seguir; disse-lhe eu então que
vinha com Sócrates, por ele convidado ao jantar.
- Muito bem fizeste - disse Agatão; - mas onde está esse homem?
- Há pouco ele vinha atrás de mim; eu próprio pergunto espantado onde estaria ele.
- Não vais procurar Sócrates e trazê-lo aqui, menino? - exclamou Agatão. - E tu, Aristodemo, reclina-
te
ao lado de Erixímaco.
Enquanto o servo lhe faz ablução para que se ponha à mesa, vem um outro anunciar: - Esse Sócrates
retirou-se em frente dos vizinhos e parou; por mais que eu o chame não quer entrar.
- É estranho o que dizes - exclamou Agatão; - vai chamá-lo! E não mo largues!
Disse então Aristodemo: Mas não! Deixai-o! É um hábito seu esse: às vezes retira-se onde quer que se
encontre, e fica parado. Virá logo porém, segundo creio. Não o incomodeis portanto,
mas deixai-o.
- Pois bem, que assim se faça, se é teu parecer - tornou Agatão. - E vocês, meninos, atendam aos
convivas. Vocês bem servem o que lhes apraz, quando ninguém os vigia, o que jamais fiz; agora
portanto, como se também eu fosse por vocês convidado ao jantar, como estes outros, sirvam-nos a fim
de que os louvemos.
- Depois disso - continuou Aristodemo - puseram-se a jantar, sem que Sócrates entrasse. Agatão muitas
vezes manda chamá-lo, mas o amigo não o deixa. Enfim ele chega, sem ter demorado muito como era
seu costume, mas exatamente quando estavam no meio da refeição. Agatão, que se encontrava reclinado
sozinho no último leito, exclama: — Aqui, Sócrates! Reclina-te ao meu lado, a fim de que ao teu contato
desfrute eu da sábia idéia que te ocorreu em frente de casa. Pois é evidente que a encontraste, e que a
tens, pois não terias desistido antes.
Sócrates então senta-se e diz: - Seria bom, Agatão, se de tal natureza fosse a sabedoria que do mais cheio
escorresse ao mais vazio, quando um ao outro nos tocássemos, como a água dos copos que pelo fio de lã
escorre do mais cheio ao mais vazio. Se é assim também a sabedoria, muito aprecio reclinar-me ao teu
lado, pois creio que de ti serei cumulado com uma vasta e bela sabedoria. A minha seria um tanto
ordinária, ou mesmo duvidosa como um sonho, enquanto que a tua é brilhante e muito desenvolvida, ela
que de tua mocidade tão intensamente brilhou, tornando-se anteontem manifesta a mais de trinta mil
gregos que a testemunharam.
- És um insolente, ó Sócrates - disse Agatão. - Quanto a isso, logo mais decidiremos eu e tu da nossa
sabedoria, tomando Dioniso por juiz; agora porém, primeiro apronta-te para o jantar.
- Depois disso - continuou Aristodemo - reclinou-se Sócrates e jantou como os outros; fizeram então
libações e, depois dos hinos ao deus e dos ritos de costume, voltam-se à bebida.
Pausânias então começa
a falar mais ou menos assim: - Bem, senhores, qual o modo mais cômodo de bebermos? Eu por mim
digo-vos que estou muito indisposto com a bebedeira de ontem, e preciso tomar fôlego - e creio que
também a maioria dos senhores, pois estáveis lá; vede então de que modo poderíamos beber o mais
comodamente possível.
Aristófanes disse então: - É bom o que dizes, Pausânias, que de qualquer modo arranjemos um meio de
facilitar a bebida, pois também eu sou dos que ontem nela se afogaram.
Ouviu-os Erixímaco, o filho de Acúmeno, e lhes disse: - Tendes razão! Mas de um de vós ainda preciso
ouvir como se sente para resistir à bebida; não é, Agatão?
- Absolutamente - disse este - também eu não me sinto capaz.
- Uma bela ocasião seria para nós, ao que parece - continuou Erixímaco - para mim, para Aristodemo,
Fedro e os outros, se vós os mais capazes
de beber desistis agora; nós, com efeito, somos sempre
incapazes; quanto a Sócrates, eu o excetuo do que digo, que é ele capaz de ambas as coisas e se
contentará com o que quer que fizermos. Ora, como nenhum dos presentes parece disposto a beber muito
vinho, talvez, se a respeito do que é a embriaguez eu dissesse o que ela é, seria menos desagradável. Pois
para mim eis uma evidência que me veio da prática da medicina: é esse um mal terrível para os homens,
a embriaguez; e nem eu próprio desejaria beber muito nem a outro eu o aconselharia, sobretudo a quem
está com ressaca da véspera.
- Na verdade - exclamou a seguir Fedro de Mirrinote - eu costumo dar-te atenção, principalmente em
tudo que dizes de medicina; e agora, se bem decidirem, também estes o farão. Ouvindo isso, concordam
todos em não passar a reunião embriagados, mas bebendo cada um a seu bel-prazer.
- Como então - continuou Erixímaco - é isso que se decide, beber cada um quanto quiser, sem que nada
seja forçado, o que sugiro então é que mandemos embora a flautista que acabou de chegar, que ela vá
flautear para si mesma, se quiser, ou para as mulheres lá dentro; quanto a nós, com discursos devemos
fazer nossa reunião hoje; e que discursos - eis o que, se vos apraz, desejo propor-vos.
Todos então declaram que lhes apraz e o convidam a fazer a proposição. Disse então Erixímaco: - O
exórdio de meu discurso é como a Melanipa de Eurípides; pois não é minha, mas aqui de Fedro a história
que vou dizer. Fedro, com efeito, freqüentemente me diz irritado: - Não é estranho, Erixímaco, que para
outros deuses haja hinos e peãs, feitos pelos poetas, enquanto que ao Amor todavia, um deus tão
venerável e tão grande, jamais um só dos poetas que tanto se engrandeceram fez sequer um encômio? Se
queres, observa também os bons sofistas: a Hércules e a outros eles compõem louvores em prosa, como o
excelente Pródico - e isso é menos de admirar, que eu já me deparei com o livro de um sábio em que o
sal recebe um admirável elogio, por sua utilidade; e outras coisas desse tipo em grande número poderiam
ser elogiadas; assim portanto, enquanto em tais ninharias despendem tanto esforço, ao Amor nenhum
homem até o dia de hoje teve a coragem de ce1ebrá-lo condignamente, a tal ponto é negligenciado um
tão grande deus! Ora, tais palavras parece que Fedro as diz com razão. Assim, não só eu desejo
apresentar-lhe a minha quota e satisfazê-lo como ao mesmo tempo, parece-me que nos convém, aqui
presentes, venerar o deus. Se então também a vós vos parece assim, poderíamos muito bem entreter
nosso tempo em discursos; acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso
de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, já que está na ponta e é o
pai da idéia.
- Ninguém contra ti votará, ó Erixímaco - disse Sócrates. - Pois nem certamente me recusaria eu, que
afirmo em nada mais ser entendido senão nas questões de amor, nem sem dúvida Agatão e Pausânias,
nem tampouco Aristófanes, cuja ocupação é toda em tomo de Dioniso e de Afrodite, nem qualquer outro
destes que estou vendo aqui. Contudo, não é igual a situação dos que ficamos nos últimos lugares;
todavia, se os que estão antes falarem de modo suficiente e belo, bastará. Vamos pois, que em boa sorte
comece Fedro e faça o seu elogio do Amor.
Estas palavras tiveram a aprovação de todos os outros, que também aderiram
às exortações de Sócrates.
Sem dúvida, de tudo que cada um deles disse, nem Aristodemo se lembrava bem, nem por minha vez eu
me lembro de tudo o que ele disse; mas o mais importante, e daqueles que me pareceu que valia a pena
lembrar, de cada um deles eu vos direi o seu discurso.
Primeiramente, tal como agora estou dizendo, disse ele que Fedro começou a falar mais ou menos desse
ponto, “que era um grande deus o Amor, e admirado entre homens e deuses, por muitos outros títulos e
sobretudo
por sua origem. Pois o ser entre os deuses o mais antigo é honroso, dizia ele, e a prova disso é
que genitores do Amor não os há, e Hesíodo afirma que primeiro nasceu o Caos -
... e só depois
Terra de largos seios, de tudo assento sempre certo, e Amor...
Diz ele então que, depois do Caos foram estes dois que nasceram, Terra e Amor. E Parmênides diz da sua
origem
bem antes de todos os deuses pensou em Amor.
E com Hesíodo também concorda Acusilau. Assim, de muitos lados se reconhece que Amor é entre os
deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens. Não sei eu, com efeito,
dizer que haja maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um amante, do
que o seu bem-amado. Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão
prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a
riqueza, nem nada mais, como o amor. A que é então que me refiro? À vergonha do que é feio e ao
apreço do que é belo. Não é com efeito possível, sem isso, nem cidade nem indivíduo produzir grandes e
belas obras. Afirmo eu então que todo homem que ama, se fosse descoberto a fazer um ato vergonhoso,
ou a sofrê-lo de outrem sem se defender por covardia, visto pelo pai não se envergonharia tanto, nem
pelos amigos nem por ninguém mais, como se fosse visto pelo bem-amado. E isso mesmo é o que
também no amado nós notamos, que é sobretudo diante dos amantes que ele se envergonha, quando
surpreendido em algum ato vergonhoso. Se por conseguinte algum meio ocorresse de se fazer uma
cidade ou uma expedição de amantes e de amados, não haveria melhor maneira de a constituírem senão
afastando-se eles de tudo que é feio e porfiando entre si no apreço à honra; e quando lutassem um ao lado
do outro, tais soldados venceriam,
por poucos que fossem, por assim dizer todos os homens. Pois um
homem que está amando, se deixou seu posto ou largou suas armas, aceitaria
menos sem dúvida a idéia
de ter sido visto pelo amado do que por todos os outros, e a isso preferiria muitas vezes morrer. E quanto
a abandonar o amado ou não socorrê-lo em perigo, ninguém há tão ruim que o próprio Amor não o torne
inspirado para a virtude, a ponto de ficar ele semelhante ao mais generoso de natureza; e sem mais
rodeios, o que disse Homero “do ardor que a alguns heróis inspira o deus”, eis o que o Amor dá aos
amantes, como um dom emanado de si mesmo.
E quanto a morrer por outro, só o consentem os que amam, não apenas os homens, mas também as
mulheres. E a esse respeito a filha de Pélias, Alceste, dá aos gregos uma prova cabal em favor dessa
afirmativa, ela que foi a única a consentir em morrer pelo marido, embora tivesse este pai e mãe, os quais
ela tanto excedeu na afeição do seu amor que os fez aparecer como estranhos ao filho, e parentes apenas
de nome; depois de praticar ela esse ato, tão belo pareceu ele não só aos homens mas até aos deuses que,
embora muitos tenham feito muitas ações belas, foi a um bem reduzido número que os deuses
concederam esta honra de fazer do Hades subir novamente
sua alma, ao passo que a dela eles fizeram
subir, admirados do seu gesto; é assim que até os deuses honram ao máximo o zelo e a virtude no amor.
A Orfeu, o filho de Eagro, eles o fizeram voltar sem o seu objetivo, pois foi um espectro o que eles lhe
mostraram
da mulher a que vinha, e não lha deram, por lhes parecer que ele se acovardava, citaredo que
era, e não ousava por seu amor morrer como Alceste, mas maquinava um meio de penetrar vivo no
Hades. Foi realmente
por isso que lhe fizeram justiça, e determinaram que sua morte ocorresse pelas
mulheres; não o honraram como a Aquiles, o filho de Tétis, nem o enviaram às ilhas dos
bem-aventurados; que aquele, informado pela mãe de que morreria se matasse Heitor, enquanto que se o
não matasse voltaria à pátria onde morreria velho, teve a coragem de preferir, ao socorrer seu amante
Pátroclo e vingá-lo, não apenas morrer por ele mas sucumbir à sua morte; assim é que, admirados a mais
não poder, os deuses excepcionalmente o honraram, porque em tanta conta ele tinha o amante. Que
Ésquilo sem dúvida fala à toa, quando afirma que Aquiles era amante de Pátroclo, ele que era mais belo
não somente do que este como evidentemente do que todos os heróis, e ainda imberbe, e além disso
muito mais novo, como diz Homero. Mas com efeito, o que realmente mais admiram e honram os deuses
é essa virtude que se forma em torno do amor, porém mais ainda admiram-na e apreciam e recompensam
quando é o amado que gosta do amante do que quando é este daquele. Eis por que a Aquiles eles
honraram mais do que a Alceste, enviando-o às ilhas dos bem-aventurados.
Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a
aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte.”
De Fedro foi mais ou menos este o discurso que pronunciou, no dizer de Aristodemo; depois de Fedro
houve alguns outros de que ele não se lembrava bem, os quais deixou de lado, passando a contar o de
Pausânias. Disse este: “Não me parece bela, ó Fedro, a maneira como nos foi proposto o discurso, essa
simples prescrição de um elogio ao Amor. Se, com efeito, um fosse o Amor, muito bem estaria; na
realidade porém, não é ele um só; e não sendo um só, é mais acertado primeiro dizer qual o que se deve
elogiar. Tentarei eu portanto corrigir este senão, e primeiro dizer qual o Amor que se deve elogiar, depois
fazer um elogio digno do deus. Todos, com efeito, sabemos que sem Amor não há Afrodite. Se portanto
uma só fosse esta, um só seria o Amor; como porém são duas, é forçoso que dois sejam também os
Amores. E como não são duas deusas? Uma, a mais velha sem dúvida, não tem mãe e é filha de Urano, e
a ela é que chamamos de Urânia, a Celestial; a mais nova, filha de Zeus e de Dione, chamamo-la de
Pandêmia, a Popular. É forçoso então que também o Amor, coadjuvante de uma, se chame corretamente
Pandêmio, o Popular, e o outro Urânio, o Celestial. Por conseguinte, é sem dúvida preciso louvar todos
os deuses, mas o dom que a um e a outro coube deve-se
procurar dizer. Toda ação, com efeito, é assim
que se apresenta: em si mesma, enquanto simplesmente praticada, nem é bela nem feia. Por exemplo, o
que agora nós fazemos, beber, cantar, conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira
como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio. Assim é
que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar
belamente.
Ora pois, o Amor de Afrodite Pandêmia é realmente popular e faz o que lhe ocorre; é a ele que os
homens vulgares amam. E amam tais pessoas, primeiramente não menos as mulheresque os jovens, e
depois o que neles amam é mais o corpo que a alma, e ainda dos mais desprovidos de inteligência, tendo
em mira apenas o efetuar o ato, sem se preocupar se é decentemente
ou não; daí resulta então que eles
fazem o que lhes ocorre, tanto o que é bom como o seu contrário. Trata-se com efeito do amor
proveniente da deusa que é mais jovem que a outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho.
O outro porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da fêmea mas só do macho - e é este o
amor aos jovens - e depois é a mais velha, isenta de violência; daí então é que se voltam ao que é
másculo os inspirados deste amor, afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais
inteligência. E ainda, no próprio amor aos jovens poder-se-iam reconhecer os que estão movidos
exclusivamente por esse tipo de amor;não amam eles, com efeito, os meninos, mas os que já começam a
ter juízo, o que se dá quando lhes vêm chegando as barbas. Estão dispostos, penso eu, os que começam
desse ponto, a amar para acompanhar toda a vida e viver em comum, e não a enganar e, depois de tomar
o jovem em sua inocência e ludibriá-lo, partir à procura de outro. Seria preciso haver uma lei proibindo
que se amassem os meninos, a fim de que não se perdesse na incerteza tanto esforço; pois é na verdade
incerto o destino dos meninos, a que ponto do vicio ou da virtude eles chegam em seu corpo e sua alma.
Ora, se os bons amantes a si mesmos se impõem voluntariamente esta lei, devia-
se também a estes
amantes populares obrigá-los a lei semelhante, assim como, com as mulheres de condição livre,
obrigamo-las na medida do possível a não manter relações amorosas. São estes, com efeito, os que
justamente
criaram o descrédito, a ponto de alguns ousarem dizer que é vergonhoso o aquiescer aos
amantes; e assim o dizem porque são estes os que eles consideram, vendo o seu despropósito e
desregramento, pois não é sem dúvida quando feito com moderação e norma que um ato, seja qual for,
incorreria em justa censura.
Aliás, a lei do amor nas demais cidades é fácil de entender, pois é simples a sua determinação; aqui
porém ela é complexa. Em Élida, com efeito, na Lacedemônia, na Beócia, e onde não se saiba falar,
simplesmente se estabeleceu que é belo aquiescer aos amantes, e ninguém, jovem ou velho, diria que é
feio, a fim de não terem dificuldades, creio eu, em tentativas de persuadir os jovens com a palavra,
incapazes que são de falar; na Jônia, porém, e em muitas outras partes é tido como feio, por quantos
habitam sob a influência dos bárbaros. Entre os bárbaros, com efeito, por causa das tiranias, é uma coisa
feia esse amor, justamente como o da sabedoria e da ginástica; é que, imagino, não aproveita aos seus
governantes que nasçam grandes idéias entre os governados, nem amizades e associações inabaláveis, o
que justamente, mais do que qualquer outra coisa, costuma o amor inspirar. Por experiência aprenderam
isto os tiranos desta cidade; pois foi o amor de Aristogitão e a amizade de Harmódio que, afirmando-se,
destruíram-lhes o poder. Assim, onde se estabeleceu que é feio o aquiescer aos amantes, é por defeito dos
que o estabeleceram que assim fica, graças à ambição dos governantes e à covardia dos governados; e
onde simplesmente se determinou que é belo, foi em conseqüência da inércia dos que assim
estabeleceram. Aqui porém, muito mais bela que estas é a norma que se instituiu e, como eu disse, não é
fácil de entender. A quem, com efeito, tenha considerado que se diz ser mais belo amar claramente que
às ocultas, e sobretudo os mais nobres e os melhores, embora mais feios que outros; que por outro lado o
encorajamento dado por todos aos amantes é extraordinário e não como se estivesse a fazer algum ato
feio, e se fez ele uma conquista parece belo o seu ato, se não, parece feio; e ainda, que em sua tentativa
de conquista deu a lei ao amante a possibilidade de ser louvado na prática de atos extravagantes, os quais
se alguém ousasse cometer em vista de qualquer outro objetivo e procurando fazer qualquer outra coisa
fora isso, colheria as maiores censuras da filosofia -- pois se, querendo de uma pessoa ou obter dinheiro
ou assumir um comando ou conseguir qualquer outro poder, consentisse alguém em fazer justamente
o
que fazem os amantes para com os amados, fazendo em seus pedidos
súplicas e prosternações, e em
suas juras protestando deitar-se às portas, e dispondo-se a subserviências a que se não sujeitaria nenhum
servo, seria impedido de agir desse modo, tanto pelos amigos como pelos inimigos, uns incriminando-o
de adulação e indignidade, outros admoestando-o e envergonhando-se de tais atos — ao amante porém
que faça tudo isso acresce-lhe a graça, e lhe é dado pela lei que ele o faça sem descrédito, como se
estivesse praticando uma ação belíssima; e o mais estranho é que, como diz o povo, quando ele jura, só
ele tem o perdão dos deuses se perjurar pois juramento de amor dizem que não é juramento, e assim tanto
os deuses como os homens deram toda liberdade ao amante, como diz a lei daqui - por esse lado então
poder-se-ia pensar que se considera inteiramente belo nesta cidade não só o fato de ser amante como
também o serem os amados amigos dos amantes. Quando porém, impondo-lhes um pedagogo, os pais
não permitem aos amados que conversem com os amantes, e ao pedagogo é prescrita essa ordem, e ainda
os camaradas e amigos injuriam se vêm que tal coisa está ocorrendo, sem que a esses injuriadores
detenham os mais velhos ou os censurem por estarem falando sem acerto, depois de por sua vez atentar a
tudo isso, poderia alguém julgar ao contrário que se considera muito feio aqui esse modo de agir. O que
há porém é, a meu ver, o seguinte: não é isso uma coisa simples, o que justamente
se disse desde o
começo, que não é em si e por si nem belo nem feio, mas se decentemente praticado é belo, se
indecentemente, feio. Ora, é indecentemente quando é a um mau e de modo mau que se aquiesce, e
decentemente
quando é a um bom e de um modo bom. E é mau aquele amante popular, que ama o corpo
mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante. Com efeito,
ao mesmo tempo que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava, “alça ele o seu vôo”, sem respeito a
muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a
vida, porque se fundiu com o que é constante. Ora, são esses dois tipos de amantes que pretende a nossa
lei provar bem e devidamente, e que a uns se aquiesça e dos outros se fuja. Por isso é que uns ela exorta a
perseguir e outros a evitar, arbitrando e aferindo qual é porventura o tipo do amante e qual o do amado.
Assim é que, por esse motivo, primeiramente o se deixar conquistar é tido como feio, a fim de que possa
haver tempo, que bem parece o mais das vezes ser uma excelente prova; e depois o deixar-se conquistar
pelo dinheiro e pelo prestigio político é tido como feio, quer a um mau trato nos assustemos sem reagir,
quer beneficiados em dinheiro ou em sucesso político não os desprezemos; nenhuma dessas vantagens,
com efeito, parece firme ou constante, afora o fato de que delas nem mesmo se pode derivar uma
amizade nobre. Um só caminho então resta à nossa norma, se deve o bem-amado decentemente aquiescer
ao amante. É com efeito norma entre nós que, assim como para os amantes, quando um deles se presta a
qualquer servidão ao amado, não é isso adulação nem um ato censurável, do mesmo modo também só
outra única servidão voluntária resta, não sujeita a censura: a que se aceita pela virtude. Na verdade,
estabeleceu-se entre nós que, se alguém quer servir a um outro por julgar que por ele se tornará melhor,
ou em sabedoria ou em qualquer outra espécie de virtude, também esta voluntária servidão não é feia
nem é uma adulação. É preciso então congraçar num mesmo objetivo essas duas normas, a do amor aos
jovens e a do amor ao saber e às demais virtudes, se deve dar-se o caso de ser belo o aquiescer o amado
ao amante. Quando com efeito ao mesmo porto chegam amante e amado, cada um com a sua norma, um
servindo ao amado que lhe aquiesce, em tudo que for justo servir, e o outro ajudando ao que o está
tornando sábio e bom, em tudo que for justo ajudar, o primeiro em condições de contribuir para a
sabedoria e demais virtudes, o segundo em precisão de adquirir para a sua educação e demais
competência, só então, quando ao mesmo objetivo convergem essas duas normas, só então é que coincide
ser belo o aquiescer o amado ao amante e em mais nenhuma outra ocasião. Nesse caso, mesmo o ser
enganado não é nada feio; em todos os outros casos porém é vergonhoso, quer se seja enganado, quer
não. Se alguém com efeito, depois de aquiescer a um amante, na suposição de ser este rico e em vista de
sua riqueza, fosse a seguir enganado e não obtivesse vantagens pecuniárias, por se ter revelado pobre o
amante, nem por isso seria menos vergonhoso; pois parece tal tipo revelar justamente o que tem de seu,
que pelo dinheiro ele serviria em qualquer negócio a qualquer um, e isso não é belo. Pela mesma razão,
também se alguém, tendo aquiescido a um amante considerado bom, e para se tornar ele próprio melhor
através da amizade do amante, fosse a seguir enganado, revelada a maldade daquele e sua carência de
virtude, mesmo assim belo seria o engano; pois também nesse caso parece
este ter deixado presente sua
própria tendência: pela virtude e por se tornar melhor, a tudo ele se disporia em favor de qualquer um, e
isso é ao contrário o mais belo de tudo; assim, em tudo por tudo é belo aquiescer em vista da virtude.
Este é o amor da deusa celeste, ele mesmo celeste e de muito valor para a cidade e os cidadãos, porque
muito esforço ele obriga a fazer pela virtude tanto ao próprio amante como ao amado; os outros porém
são todos da outra deusa, da popular. É essa, ó Fedro, concluiu ele, a contribuição que, como de
improviso, eu te apresento sobre o Amor”.
Na pausa de Pausânias - pois assim me ensinam os sábios a falar, em termos iguais - disse Aristodemo
que devia falar Aristófanes, mas tendo-lhe ocorrido, por empanturramento ou por algum outro motivo,
um acesso de soluço, não podia ele falar; mas disse ele ao médico Erixímaco, que se reclinava logo
abaixo dele: - Ó Erixímaco, és indicado para ou fazer parar o meu soluço ou falar em meu lugar, até que
eu possa parar com ele. E Erixímaco respondeu-lhe:
- Farei as duas coisas: falarei em teu lugar e tu, quando acabares com isso, no meu. E enquanto eu estiver
falando, vejamos se, relendo tu o fôlego por muito tempo, quer parar o teu soluço; serão, gargareja com
água. Se então ele é muito forte, toma algo com que possas coçar o nariz e espirra; se fizeres isso duas ou
três vezes, por mais forte que seja, ele cessará. - Não começarás primeiro o teu discurso, disse
Aristófanes; que eu por mim é o que farei.
Disse então Erixímaco: “Parece-me em verdade ser necessário, uma vez que Pausânias, apesar de se ter
lançado bem ao seu discurso, não o rematou convenientemente, que eu deva tentar pôr-lhe um remate.
Com efeito, quanto a ser duplo o Amor, parece-me que foi uma bela distinção; que porém não está ele
apenas nas almas dos homens, e para com os belos jovens, mas também nas outras partes, e para com
muitos outros objetos, nos corpos de todos os outros animais, nas plantas da terra e por assim dizer em
todos os seres é o que creio ter constatado pela prática da medicina, a nossa arte; grande e admirável é o
deus, e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coisas humanas como entre as divinas. Ora, eu
começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arte. A natureza dos
corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um
estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante. Um portanto é o amor
no que é sadio, e outro no que é mórbido. E então, assim como há pouco Pausânias dizia que aos homens
bons é belo aquiescer, e aos intemperantes é feio, também nos próprios corpos, aos elementos bons de
cada corpo e sadios é belo o aquiescer e se deve, e a isso é que se o nome de medicina, enquanto que aos
maus e mórbidos é feio e se deve contrariar, se se vai ser um técnico. É com efeito a medicina, para falar
em resumo, a ciência dos fenômenos de amor, próprios ao corpo, no que se refere à repleção e à
evacuação, e o que nestes fenômenos reconhece o belo amor e o feio é o melhor médico; igualmente,
aquele que faz com que eles se transformem, de modo a que se adquira um em vez do outro, e que sabe
tanto suscitar amor onde não há mas deve haver, como eliminar quando há, seria um bom profissional. É
de fato preciso ser capaz de fazer com que os elementos mais hostis no corpo fiquem amigos e se amem
mutuamente. Ora, os mais hostis são os mais opostos, como o frio ao quente, o amargo ao doce, o seco
ao úmido, e todas as coisas desse tipo; foi por ter entre elas suscitado amor e concórdia que o nosso
ancestral Asclépio, como dizem estes poetas aqui e eu acredito, constituiu a nossa arte. A medicina
portanto, como estou dizendo, é toda ela dirigida nos traços deste deus, assim como também a ginástica e
a agricultura; e quanto à música, é a todos evidente, por pouco que se lhe preste atenção, que ela se
comporta segundo esses mesmos princípios, como provavelmente parece querer dizer Heráclito, que aliás
em sua expressão não é feliz. O um, diz ele com efeito, “discordando em si mesmo, consigo mesmo
concorda, como numa harmonia de arco e lira”. Ora, é grande absurdo dizer que uma harmonia está
discordando ou resulta do que ainda está discordando. Mas talvez o que ele queria dizer era o seguinte,
que do agudo e do grave, antes discordantes e posteriormente
combinados, ela resultou, graças à arte
musical. Pois não é sem dúvida do agudo e do grave ainda em discordância que pode resultar a harmonia;
a harmonia é consonância, consonância é uma certa combinação — e combinação de discordantes,
enquanto discordam, é impossível, e inversamente o que discorda e não combina é impossível
harmonizar —assim como também o ritmo, que resulta do rápido e do certo, antes dissociados e depois
combinados. A combinação em todos esses casos, assim como lá foi a medicina, aqui é a música que
estabelece, suscitando amor e concórdia entre uns e outros; e assim, também a música, no tocante à
harmonia e ao ritmo, é ciência dos fenômenos amorosos. Aliás, na própria constituição de uma harmonia
e de um ritmo não é nada difícil reconhecer os sinais do amor, nem de algum modo há então o duplo
amor; quando porém for preciso utilizar para o homem uma harmonia ou um ritmo, ou fazendo-os, o que
chamam composição, ou usando corretamente da melodia e dos metros já constituídos, o que se chamou
educação, então é que é difícil e que se requer um bom profissional. Pois de novo revém a mesma idéia,
que aos homens moderados, e para que mais moderados se tornem os que ainda não sejam, deve-se
aquiescer e conservar o seu amor, que é o belo, o celestial, o Amor da musa Urânia; o outro, o de
Polímnia, é o popular, que com precaução se deve trazer àqueles a quem se traz, a fim de que se colha o
seu prazer sem que nenhuma intemperança ele suscite, tal como em nossa arte é uma importante tarefa o
servir-se convenientemente dos apetites da arte culinária, de modo a que sem doença se colha o seu
prazer. Tanto na música então, como na medicina e em todas as outras artes, humanas e divinas, na
medida do possível, deve-se conservar um e outro amor; ambos com efeito nelas se encontram. De fato,
até a constituição das estações do ano está repleta desses dois amores, e quando se tomam de um
moderado amor um pelo outro os contrários de que há pouco eu falava, o quente e o frio, o seco e o
úmido, e adquirem uma harmonia e uma mistura razoável, chegam trazendo bonança e saúde aos
homens, aos outros animais e às plantas, e nenhuma ofensa fazem; quando porém é o Amor casado com a
violência que se torna mais forte nas estações do ano, muitos estragos ele faz, e ofensas. Tanto as pestes,
com efeito, costumam resultar de tais causas, como também muitas e várias doenças nos animais como
nas plantas; geadas, granizos e alforras resultam, com efeito, do excesso e da intemperança mútua de tais
manifestações do amor, cujo conhecimento nas translações dos astros e nas estações do ano chama-se
astronomia. E ainda mais, não só todos os sacrifícios, como também os casos a que preside a arte
divinatória — e estes são os que constituem o comércio recíproco dos deuses e dos homens — sobre
nada mais versam senão sobre a conservação e a cura do Amor. Toda impiedade, com efeito, costuma
advir, se ao Amor moderado não se aquiesce nem se lhe tributa honra e respeito em toda ação, e sim ao
outro, tanto no tocante aos pais, vivos e mortos, quanto aos deuses; e foi nisso que se assinou à arte
divinatória o exame dos amores e sua cura, e assim é que por sua vez é a arte divinatória produtora de
amizade entre deuses e homens, graças ao conhecimento
de todas as manifestações de amor que, entre
os homens, se orientam para a justiça divina e a piedade.
Assim, múltiplo e grande, ou melhor, universal é o poder que em geral tem todo o Amor, mas aquele que
em torno do que é bom se consuma com sabedoria e justiça, entre nós como entre os deuses, é o que tem
o máximo poder e toda felicidade nos prepara, pondo-nos em condições de não só entre nós mantermos
convívio e amizade, como também com os que são mais poderosos que nós, os deuses. Em conclusão,
talvez também eu, louvando o Amor, muita coisa estou deixando de lado, não todavia por minha vontade.
Mas se algo omiti, é tua tarefa, ó Aristófanes, completar; ou se um outro modo tens em mente de elogiar
o deus, elogia-o, uma vez que o teu soluço já o fizeste cessar.”
Tendo então tomado a palavra, continuou Aristodemo, disse Aristófanes: - Bem que cessou! Não todavia,
é verdade, antes de lhe ter eu aplicado o espirro, a ponto de me admirar que a boa ordem do corpo
requeira tais ruídos e comichões como é o espirro; pois logo o soluço parou, quando lhe apliquei o
espirro.
E Erixímaco lhe disse: - Meu bom Aristófanes, vê o que fazes. Estás a fazer graça, quando vais falar, e
me forças a vigiar o teu discurso, se porventura
vais dizer algo risível, quando te é permitido falar em
paz.
Aristófanes riu e retomou: - Tens razão, Erixímaco! Fique-me o dito pelo não dito. Mas não me vigies,
que eu receio, a respeito do que vai ser dito, que seja não engraçado o que vou dizer - pois isso seria
proveitoso e próprio da nossa musa - mas ridículo.
- Pois sim! - disse o outro - lançada a tua seta, Aristófanes, pensas em fugir; mas toma cuidado e fala
como se fosses prestar contas. Talvez todavia, se bem me parecer, eu te largarei.
“Na verdade, Erixímaco, disse Aristófanes, é de outro modo que tenho a intenção de falar, diferente do
teu e do de Pausânias. Com efeito, parece-me os homens absolutamente não terem percebido o poder do
amor, que se o percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam, e os maiores sacrifícios lhe
fariam, não como agora que nada disso há em sua honra, quando mais que tudo deve haver. É ele com
efeito o deus mais amigo do homem, protetor e médico desses males, de cuja cura dependeria sem dúvida
a maior felicidade para o gênero humano. Tentarei eu portanto iniciar-vos em seu poder, e vós o
ensinareis aos outros. Mas é preciso primeiro aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes. Com
efeito, nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três
eram os gêneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a
mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era
então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino,
enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra. Depois, inteiriça era a forma de cada
homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto
das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois
rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos
se poderia supor. E quanto ao seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções
que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as
pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros de então,
rapidamente eles se locomoviam em círculo. Eis por que eram três os gêneros, e tal a sua constituição,
porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da
lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção,
por terem semelhantes genitores. Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma
grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses, e o que diz Homero de Efialtes e de
Otes é a eles que se refere, a tentativa de fazer uma escalada ao céu, para investir contra os deuses. Zeus
então e os demais
deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e embaraçavam-se;
não podiam nem matá-los e, após fulminá-los como aos gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça - pois as
honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam — nem permitir-lhes que continuassem
na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que tenho um meio de fazer com que os
homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito,
continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais
úteis para nós, pelo fato de se terem tomado mais numerosos; e andarão eretos, sobre duas pernas. Se
ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse ele, eu os cortarei em dois, e
assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando.” Logo que o disse pôs-se a contar os homens em dois,
como os que cortam as sorvas para a conserva, ou como os que cortam ovos com cabelo; a cada um que
cortava mandava Apolo voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do corte, a fim de que,
contemplando a própria mutilação, fosse mais moderado o homem, e quanto ao mais ele também
mandava curar. Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se
chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente
no
meio do ventre, que é o que chamam umbigo. As outras pregas, numerosas, ele se pôs a polir, e a
articular os peitos, com um instrumento semelhante ao dos sapateiros quando estão polindo na forma as
pregas dos sapatos; umas poucas ele deixou, as que estão à volta do próprio ventre e do umbigo, para
lembrança da antiga condição. Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava
cada um por sua própria metade
e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao
outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer
longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e
com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher - o que agora chamamos
mulher — quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo. Tomado de compaixão, Zeus consegue
outro expediente, e lhes muda o sexo para a frente - pois até então eles o tinham para fora, e geravam e
reproduziam não um no outro, mas na terra, como as cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez
com que através dele se processasse a geração um no outro, o macho na fêmea, pelo seguinte, para que
no enlace, se fosse um homem a encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerassem e se fosse
constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, que pelo menos houvesse saciedade em
seu convívio e pudessem repousar, voltar ao trabalho e ocupar-
se do resto da vida. E então de há tanto
tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza,
em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós portanto é uma
téssera complementar de um homem, porque cortado como os linguados, de um só em dois; e procura
então cada um o seu próprio complemento. Por conseguinte, todos os homens que são um corte do tipo
comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulheres, e a maioria dos adultérios provém deste
tipo, assim como também todas as mulheres que gostam de homens e são adúlteras, é deste tipo que
provêm. Todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirige muito sua atenção aos homens,
mas antes estão voltadas para as mulheres e as amiguinhas provêm deste tipo. E todos os que são corte de
um macho perseguem o macho, e enquanto são crianças, como cortículos do macho, gostam dos homens
e se comprazem em deitar-se com os homens e a eles se enlaçar, e são estes os melhores meninos e
adolescentes, os de natural mais corajoso. Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas
estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade,
porque acolhem o que lhes é semelhante. Uma prova disso é que, uma vez amadurecidos, são os únicos
que chegam a ser homens para a política, os que são desse tipo. E quando se tornam homens, são os
jovens que eles amam, e a casamentos e procriação naturalmente eles não lhes dão atenção, embora por
lei a isso sejam forçados, mas se contentam em passar a vida um com o outro, solteiros. Assim é que, em
geral, tal tipo torna-se amante e amigo do amante, porque
está sempre acolhendo o que lhe é aparentado.
Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como
qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto
de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno
momento. E os que
continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberiam dizer o que querem que lhes
venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual, e que é
porventura em vista disso que um gosta da companhia do outro assim com tanto interesse; ao contrário,
que uma coisa quer a alma de cada um, é evidente, a qual coisa ela não pode dizer, mas adivinha o que
quer e o indica
por enigmas. Se diante deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e com seus
instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um do outro?, e se, diante do seu
embaraço, de novo lhes perguntasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais
possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso
que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos tomeis um só
e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá
no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso
amor, e se vos contentais se conseguirdes isso. Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só
diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito
estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. O motivo disso é
que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se
dá o nome de amor. Anteriormente, como estou dizendo, nós éramos um só, e agora é que, por causa da
nossa injustiça, fomos separados pelo deus, e como o foram os árcades pelos lacedemônios; é de temer
então, se não formos
moderados para com os deuses, que de novo sejamos fendidos em dois, e
perambulemos tais quais os que nas estelas estão talhados de perfil, serrados
na linha do nariz, como os
ossos que se fendem. Pois bem, em vista dessas eventualidades todo homem deve a todos exortar à
piedade para com os deuses, a fim de que evitemos uma e alcancemos a outra, na medida em que o Amor
nos dirige e comanda. Que ninguém em sua ação se lhe oponha - e se opõe todo aquele que aos deuses se
torna odioso - pois amigos do deus e com ele reconciliados descobriremos e conseguiremos o nosso
próprio amado, o que agora poucos fazem. E que não me suspeite Erixímaco, fazendo comédia de meu
discurso, que é a Pausânias e Agatão que me estou referindo talvez também estes se encontrem no
número desses e são ambos de natureza máscula mas eu no entanto estou dizendo a respeito de todos,
homens e mulheres, que é assim que nossa raça se tornaria feliz, se plenamente realizássemos o amor, e o
seu próprio amado cada um encontrasse, tornado à sua primitiva natureza. E se isso é o melhor, é forçoso
que dos casos atuais o que mais se lhe avizinha é o melhor, e é este o conseguir um bem amado de
natureza conforme ao seu gosto; e se disso fôssemos glorificar o deus responsável, merecidamente
glorificaríamos o Amor, que agora nos é de máxima utilidade, levando-nos ao que nos é familiar, e que
para o futuro nos dá as maiores esperanças, se formos piedosos para com os deuses, de restabelecer-nos
em nossa primitiva natureza e, depois de nos curar, fazer-nos bem aventurados e felizes.
Eis, Erixímaco, disse ele, o meu discurso sobre o Amor, diferente do teu. Conforme eu te pedi, não faças
comédia dele, a fim de que possamos ouvir também os restantes, que dirá cada um deles, ou antes cada
um dos dois; pois restam Agatão e Sócrates."
- Bem, eu te obedecerei - tornou-lhe Erixímaco; - e com efeito teu discurso foi para mim de um agradável
teor. E se por mim mesmo eu não soubesse que Sócrates e Agatão são terríveis nas questões do amor,
muito temeria que sentissem falta de argumentos, pelo muito e variado que se disse; de fato porém eu
confio neles.
Sócrates então disse: - É que foi bela, ó Erixímaco, tua competição! Se porém ficasses na situação em
que agora estou, ou melhor, em que estarei, depois que Agatão tiver falado, bem grande seria o teu
temor, e em tudo por tudo estarias como eu agora.
- Enfeitiçar é o que me queres, ó Sócrates, disse-lhe Agatão, a fim de que eu me alvoroce com a idéia de
que o público está em grande expectativa de que eu vá falar bem.
- Desmemoriado eu seria, Agatão - tornou-lhe Sócrates - se depois de ver tua coragem e sobranceria,
quando subias no estrado com os atores e encaraste de frente uma tão numerosa platéia, no momento em
que ias apresentar uma peça tua, sem de modo algum te teres abalado, fosse eu agora imaginar que tu te
alvoroçarias por causa de nós, tão poucos.
- O quê, Sócrates! - exclamou Agatão; - não me julgas sem dúvida tão cheio de teatro que ignore que, a
quem tem juízo, poucos sensatos são mais temíveis que uma multidão insensata!
- Realmente eu não faria bem, Agatão - tornou-lhe Sócrates - se a teu respeito pensasse eu em alguma
deselegância; ao contrário, bem sei que, se te encontrasses com pessoas que considerasses sábias, mais te
preocuparias com elas do que com a multidão. No entanto, é de temer que estas não sejamos nós - pois
nós estávamos lá e éramos da multidão - mas se fosse com outros que te encontrasses, com sábios, sem
dúvida tu te envergonharias deles, se pensasses estar talvez cometendo algum ato que fosse vergonhoso;
senão, que dizes?
- É verdade o que dizes - respondeu-lhe.
- E da multidão não te envergonharias, se pensasses estar fazendo algo vergonhoso?
E eis que Fedro, disse Aristodemo, interrompeu e exclamou: - Meu caro Agatão, se responderes a
Sócrates, nada mais lhe importará do programa, como quer que ande e o que quer que resulte, contanto
que ele tenha com quem dialogue, sobretudo se é com um belo. Eu por mim é sem dúvida com prazer
que ouço Sócrates a conversar, mas é me forçoso cuidar do elogio ao Amor e recolher de cada um de vós
o seu discurso; pague então cada um o que deve ao deus e assim já pode conversar.
- Muito bem, Fedro! exclamou Agatão - nada me impede de falar, pois com Sócrates depois eu poderei
ainda conversar muitas vezes.
“Eu então quero primeiro dizer como devo falar, e depois falar. Parece-me com efeito que todos os que
antes falaram, não era o deus que elogiavam, mas os homens que felicitavam pelos bens de que o deus
lhes é causador; qual porém é a sua natureza, em virtude da qual ele fez tais dons, ninguém o disse. Ora,
a única maneira correta de qualquer elogio a qualquer um é, no discurso, explicar em virtude de que
natureza vem a ser causa de tais efeitos aquele de quem se estiver falando. Assim então com o Amor, é
justo que também nós primeiro o louvemos em sua natureza. tal qual ele é, e depois os seus dons. Digo
eu então que de todos os deuses, que são felizes, é o Amor, se é lícito dizê-lo sem incorrer em vingança,
o mais feliz, porque é o mais belo deles e o melhor. Ora, ele é o mais belo por ser tal como se segue.
Primeiramente, é o mais jovem dos deuses, ó Fedro. E uma grande prova do que digo ele próprio fornece,
quando em fuga foge da velhice, que é rápida evidentemente, e que em todo caso, mais rápida do que
devia, para nós se encaminha. De sua natureza Amor a odeia e nem de longe se lhe aproxima. Com os
jovens ele está sempre em seu convívio e ao seu lado; está certo, com efeito, o antigo ditado, que o
semelhante sempre do semelhante se aproxima. Ora, eu, embora com Fedro concorde em muitos outros
pontos, nisso não concordo, em que Amor seja mais antigo que Crono e Jápeto, mas ao contrário afirmo
ser ele o mais novo dos deuses e sempre jovem, e que as questões entre os deuses, de que falam Hesíodo
e Parmênides, foi por Necessidadee não por Amor que ocorreram, se é verdade o que aqueles diziam; não
haveria, com efeito, mutilações nem prisões de uns pelos outros, e muitas outras violências, se Amor
estivesse entre eles, mas amizade e paz, como agora, desde que Amor entre os deuses reina. Por
conseguinte, jovem ele é, mas além de jovem ele é delicado; falta-lhe porém um poeta como era Homero
para mostrar sua delicadeza de deus. Homero afirma. com efeito, que Ate é uma deusa, e delicada - que
os seus pés em todo caso são delicados quando diz:
seus pés são delicados; pois não sobre o solo
se move, mas sobre as cabeças dos homens ela anda.
Assim, bela me parece a prova com que Homero revela a delicadeza da deusa: não anda ela sobre o que é
duro, mas sobre o que é mole. Pois a mesma prova também nós utilizaremos a respeito do Amor, de que
ele é delicado. Não é com efeito sobre a terra que ele anda, nem sobre cabeças, que não são lá tão moles,
mas no que há de mais brando entre os seres é onde ele anda e reside. Nos costumes, nas almas de deuses
e de homens ele fez sua morada, e ainda, não indistintamente
em todas as almas, mas da que encontre
com um costume rude ele se afasta, e na que o tenha delicado ele habita. Estando assim sempre em
contato, nos pés como em tudo, com os que, entre os seres mais brandos, são os mais brandos,
necessariamente é ele o que há de mais delicado. É então o mais jovem, o mais delicado, e além dessas
qualidades, sua constituição é úmida. Pois não seria ele capaz de se amoldar de todo jeito, nem de por
toda alma primeiramente entrar, despercebido, e depois sair, se fosse ele seco. De sua constituição
acomodada e úmida é uma grande prova sua bela compleição, o que excepcionalmente todos reconhecem
ter o Amor; é que entre deformidade e amor sempre de parte a parte há guerra. Quanto à beleza da sua
tez, o seu viver entre flores bem o atesta; pois no que não floresce, como no que já floresceu, corpo, alma
ou o que quer que seja, não se assenta o Amor, mas onde houver lugar bem florido e bem perfumado, ai
ele se assenta e fica.
Sobre a beleza do deus já é isso bastante, e no entanto ainda muita coisa resta; sobre a virtude de Amor
devo depois disso falar, principalmente que Amor não comete nem sofre injustiça, nem de um deus ou
contra um deus, nem de um homem ou contra um homem. À força, com efeito, nem ele cede, se algo
cede - pois violência não toca em Amor - nem, quando age, age, pois todo homem de bom grado serve
em tudo ao Amor, e o que de bom grado reconhece uma parte a outra, dizem “as leis, rainhas da cidade",
é justo. Além da justiça, da máxima temperança ele compartilha. É com efeito a temperança,
reconhecidamente,
o domínio sobre prazeres e desejos; ora, o Amor, nenhum prazer lhe é predominante;
e se inferiores, seriam
dominados por Amor, e ele os dominaria, e dominando prazeres e desejos seria o
Amor excepcionalmente
temperante. E também quanto à coragem, ao Amor “nem Ares se lhe opõe”.
Com efeito, a Amor não pega Ares, mas Amor a Ares - o de Afrodite,
segundo a lenda - e é mais forte o
que pega do que é pegado: dominando assim o mais corajoso de todos, seria então ele o mais corajoso.
Da justiça portanto, da temperança e da coragem do deus, está dito; da sua sabedoria porém resta dizer; o
quanto possível então deve-se procurar não ser omisso. E em primeiro lugar, para que também eu por
minha vez honre a minha arte como Erixímaco a dele, é um poeta o deus, e sábio, tanto que também a
outro ele o faz; qualquer um em todo caso torna-se poeta, “mesmo que antes seja estranho às Musas”,
desde que lhe toque o Amor. E o que nos cabe utilizar como testemunho de que é um bom poeta o Amor,
em geral em toda criação artísticapois o que não se tem ou o que não se sabe, também a outro não se
poderia dar ou ensinar. E em verdade, a criação dos animais todos, quem contestará que não é sabedoria
do Amor, pela qual nascem e crescem todos os animais? Mas, no exercício das artes, não sabemos
que
aquele de quem este deus se toma mestre acaba cé1ebre e ilustre, enquanto aquele em quem Amor não
toque, acaba obscuro? E quanto à arte do arqueiro, à medicina, à adivinhação, inventou-as Apolo guiado
pelo desejo e pelo amor, de modo que também Apolo seria discípulo do Amor. Assim como também as
Musas nas belas-artes, Hefesto na metalurgia, Atena na tecelagem, e Zeus na arte “de governar os deuses
e os homens”. E dai é que até as questões dos deuses foram regradas,
quando entre eles surgiu Amor,
evidentemente da beleza - pois no feio não se firma Amor -, enquanto que antes, como a princípio disse,
muitos casos terríveis se davam entre os deuses, ao que se diz, porque entre eles a Necessidade reinava;
desde porém que este deus existiu, de se amarem as belas coisas toda espécie de bem surgiu para deuses
e homens.
Assim é que me parece, ó Fedro, que o Amor, primeiramente por ser em si mesmo o mais belo e o
melhor, depois é que é para os outros a causa de outros tantos bens. Mas ocorre-me agora também em
verso dizer alguma coisa, que é ele o que produz
paz entre os homens, e no mar
bonança,
repouso tranqüilo de ventos e
sono na dor.
É ele que nos tira o sentimento de estranheza e nos enche de familiaridade, promovendo todas as
reuniões deste tipo, para mutuamente nos encontrarmos, tornando-se nosso guia nas festas, nos coros, nos
sacrifícios; incutindo brandura e excluindo rudeza; pródigo de bem-querer e incapaz de mal-querer;
propício e bom; contemplado pelos sábios e admirado pelos deuses; invejado pelos desafortunados e
conquistado pelos afortunados; do luxo, do requinte, do brilho, das graças, do ardor e da paixão, pai;
diligente com o que é bom e negligente com o que é mau; no labor, no temor, no ardor da paixão, no teor
da expressão, piloto e combatente, protetor e salvador supremo, adorno de todos os deuses e homens,
guia belíssimo e excelente, que todo homem deve seguir, celebrando-o em belos hinos, e compartilhando
do canto com ele encanta o pensamento de todos os deuses e homens.
Este, ó Fedro, rematou ele, o discurso que de minha parte quero que seja ao deus oferecido, em parte
jocoso, em parte, tanto quanto posso, discretamente sério.”
Depois que falou Agatão, continuou Aristodemo, todos os presentes aplaudiram, por ter o jovem falado à
altura do seu talento e da dignidade do deus. Sócrates então olhou para Erixímaco e lhe disse: -
Porventura, ó filho de Acúmeno, parece-te que não tem nada de temível o temor que de há muito sinto, e
que não foi profético o que há pouco eu dizia, que Agatão falaria maravilhosamente, enquanto que eu me
havia de embaraçar?
- Em parte - respondeu-lhe Erixímaco - parece-me profético o que disseste, que Agatão falaria bem; mas
quanto a te embaraçares, não creio.
- E como, ditoso amigo - disse Sócrates - não vou embaraçar-me, eu e qualquer outro, quando devo falar
depois de proferido um tão belo e colorido
discurso? Não é que as suas demais
partes não sejam
igualmente admiráveis; mas o que está no fim, pela beleza dos termos e das frases, quem não se teria
perturbado ao ouvi-
lo? Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto
proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito,
vinha-me à mente o discurso de Górgias, a porto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que,
concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim
mesmo me fizesse uma pedra, sem voz. Refleti então que estava evidentemente sendo ridículo, quando
convosco concordava em fazer na minha vez, depois de vós, o elogio ao Amor, dizendo ser terrível nas
questões de amor, quando na verdade nada sabia do que se tratava, de como se devia fazer qualquer
elogio. Pois eu achava, por ingenuidade, que se devia dizer a verdade sobre tudo que está sendo elogiado,
e que isso era fundamental, da própria verdade se escolhendo as mais belas manifestações para dispô-las
o mais decentemente
possível; e muito me orgulhava então, como se eu fosse falar bem, como se
soubesse a verdade em qualquer
elogio. No entanto, está aí, não era esse o belo elogio ao que quer que
seja, mas o acrescentam o máximo é coisa, e o mais belamente possível, quer ela seja assim quer não;
quanto a ser falso, não tinha nenhuma importância. Foi com efeito combinado como cada um de nós
entenderia elogiar o Amor, não como cada um o elogiaria. Eis por que, pondo em ação todo argumento,
vós o aplicais ao Amor, e dizeis que ele é tal e causa de tantos bens, a fim de aparecer ele como o mais
belo e o melhor possível, evidentemente aos que o não conhecem - pois não é aos que o conhecem - e eis
que fica belo, sim, e nobre o elogio. Mas é que eu não sabia então o modo de elogiar, e sem saber
concordei, também eu, em elogiá-lo na minha vez: “a língua jurou, mas o meu peito não”; que ela se vá
então. Não vou mais elogiar desse modo, que não o poderia, é certo, mas a verdade sim, se vos apraz,
quero dizer à minha maneira, e não em competição com os vossos discursos, para não me prestar ao riso.
Vê então, Fedro, se por acaso há ainda precisão de um tal discurso, de ouvir sobre o Amor dizer a
verdade, mas com nomes e com a disposição de frases que por acaso me tiver ocorrido.
Fedro então, disse Aristodemo, e os demais presentes pediram-lhe que, como ele próprio entendesse que
devia falar, assim o fizesse.
- Permite-me ainda, Fedro - retornou
Sócrates - fazer umas perguntinhas a Agatão, a fim de que tendo
obtido o seu acordo, eu já possa assim falar.
- Mas sim, permito - disse Fedro. - Pergunta! - E então, disse Aristodemo, Sócrates começou mais ou
menos por esse ponto:
- Realmente, caro Agatão, bem me pareceste iniciar teu discurso, quando dizias que primeiro se devia
mostrar o próprio Amor, qual a sua natureza, e depois as suas obras. Esse começo, muito o admiro.
Vamos então, a respeito do Amor, já que em geral explicaste bem e magnificamente qual é a sua
natureza, dize-me também o seguinte: é de tal natureza o Amor que é amor de algo ou de nada? Estou
perguntando, não se é de uma mãe ou de um pai - pois ridícula seria essa pergunta, se Amor é amor de
um pai ou ele uma mãe - mas é como se, a respeito disso mesmo, de “pai”, eu perguntasse: “Porventura o
pai é pai de algo ou não? Ter-me-ias sem dúvida respondido, se me quisesses dar uma bela resposta, que
é de um filho ou de uma filha que o pai é pai ou não?”
- Exatamente - disse Agatão.
- E também a mãe não é assim?
- Também - admitiu ele.
- Responde-me ainda, continuou Sócrates, mais um pouco, a fim de melhor compreenderes o que quero.
Se eu te perguntasse: “E irmão, enquanto é justamente isso mesmo que é, é irmão de algo ou não?”
- É, sim, disse ele.
- De um irmão ou ele uma irmã, não é? Concordou.
- Tenta então, continuou Sócrates, também a respeito do Amor dizer-me: o Amor é amor de nada ou de
algo?
- De algo, sim.
- Isso então, continuou ele, guarda contigo, lembrando-te de que é que ele é amor; agora dize-me apenas
o seguinte: Será que o Amor, aquilo de que é amor, ele o deseja ou não?
- Perfeitamente - respondeu o outro.
- E é quando tem isso mesmo que deseja e ama que ele então deseja e ama, ou quando não tem?
- Quando não tem, como é bem provável - disse Agatão.
- Observa bem, continuou Sócrates, se em vez de uma probabilidade não é uma necessidade que seja
assim, o que deseja deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente. É espantoso
como me parece, Agatão, ser uma necessidade; e a ti?
- Também a mim - disse ele.
Tens razão. Pois porventura desejaria quem já é grande ser grande, ou quem já é forte ser forte?
- Impossível, pelo que foi admitido.
- Com efeito, não seria carente disso o que justamente é isso.
- É verdade o que dizes.
- Se, com efeito, mesmo o forte quisesse ser forte, continuou Sócrates, e o rápido ser rápido, e o sadio ser
sadio - pois talvez alguém pensasse que nesses e em todos os casos semelhantes os que são tais e têm
essas qualidades desejam o que justamente têm, e é para não nos enganarmos que estou dizendo isso -
ora, para estes, Agatão, se atinas bem, é forçoso que tenham no momento tudo aquilo que tem, quer
queiram, quer não, e isso mesmo, sim, quem é que poderia desejá-lo? Mas quando alguém diz: “Eu,
mesmo sadio, desejo ser sadio, e mesmo rico, ser rico, e desejo isso mesmo que tenho”, poderíamos
dizer-
lhe: “O homem, tu que possuis riqueza, saúde e fortaleza, o que queres é também no futuro possuir
esses bens, pois no momento, quer queiras quer não, tu os tens; observa então se, quando dizes “desejo o
que tenho comigo”, queres dizer outra coisa senão isso: “quero que o que tenho agora comigo, também
no futuro eu o tenha.” Deixaria ele de admitir?
Agatão, dizia Aristodemo, estava de acordo.
Disse então Sócrates: - Não é isso então amar o que ainda não está à mão nem se tem, o querer que, para
o futuro, seja isso que se tem conservado consigo e presente?
- Perfeitamente - disse Agatão.
- Esse então, como qualquer outro que deseja, deseja o que não está a mão nem consigo, o que não tem, o
que não é ele próprio e o de que é carente; tais são mais ou menos as coisas de que há desejo e amor, não
é?
- Perfeitamente - disse Agatão.
- Vamos então, continuou Sócrates, recapitulemos o que foi dito. Não é certo que é o Amor, primeiro de
certas coisas, e depois, daquelas de que ele tem precisão?
- Sim - disse o outro.
- Depois disso então, lembra-te de que é que em teu discurso disseste ser o Amor; se preferes, eu te
lembrarei. Creio, com efeito, que foi mais ou menos assim que disseste, que aos deuses foram arranjadas
suas questões através do amor do que é belo, pois do que é feio não havia amor. Não era mais ou menos
assim que dizias?
- Sim, com efeito - disse Agatão.
- E acertadamente o dizes, amigo, declarou Sócrates; e se é assim, não é certo que o Amor seria da
beleza, mas não da feiúra? Concordou.
- Não está então admitido que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?
- Sim - disse ele.
- Carece então de beleza o Amor, e não a tem?
- É forçoso.
- E então? O que carece de beleza e de modo algum a possui, porventura dizes tu que é belo?
- Não, sem dúvida.
- Ainda admites por conseguinte que o Amor é belo, se isso é assim?
E Agatão: - É bem provável, ó Sócrates, que nada sei do que então disse?
- E no entanto, prosseguiu Sócrates, bem que foi belo o que disseste, Agatão. Mas dize-me ainda uma
pequena coisa: o que é bom não te parece que também é belo?
- Parece-me, sim.
- Se portanto o Amor é carente do que é belo, e o que é bom é belo, também do que é bom seria ele
carente.
- Eu não poderia, ó Sócrates, disse Agatão, contradizer-te; mas seja assim como tu dizes.
- É a verdade, querido Agatão, que não podes contradizer, pois a Sócrates não é nada difícil.
E a ti eu te deixarei agora; mas o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de
Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros — foi ela que uma vez, porque
os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos recuar a doença, e era ela que
me instruía nas questões de amor — o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir—vos,
a partir do que foi admitido por mim e por Agatão, com meus próprios recursos e como eu puder. É de
fato preciso, Agatão, como tu indicaste, primeiro discorrer sobre o próprio Amor, quem é ele e qual a sua
natureza e depois sobre as suas obras. Parece—me então que o mais fácil é proceder como outrora a
estrangeira, que discorria interrogando—me, pois também eu quase que lhe dizia outras tantas coisas tais
quais agora me diz Agatão, que era o Amor um grande deus, e era do que é belo; e ela me refutava,
exatamente
com estas palavras, com que eu estou refutando a este, que nem era belo segundo minha
palavra, nem bom.
E eu então: - Que dizes, ó Diotima? É feio então o Amor, e mau?
E ela: - Não vais te calar? Acaso pensas que o que não for belo, é forçoso ser feio?
- Exatamente.
- E também se não for sábio é ignorante? Ou não percebeste que existe algo entre sabedoria e ignorância?
- Que é?
- O opinar certo, mesmo sem poder dar razão, não sabes, dizia-me ela, que nem é saber - pois o que é
sem razão, como seria ciência? - nem é ignorância - pois o que atinge o ser, como seria ignorância? - e
que é sem dúvida alguma coisa desse tipo a opinião certa, um intermediário entre entendimento e
ignorância.
- É verdade o que dizes, tornei-lhe.
- Não fiques, portanto, forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não é bom a ser mau. Assim
também o Amor, porque tu mesmo admites que não é bom nem belo, nem por isso vás imaginar que ele
deve ser feio e mau, mas sim algo que está, dizia ela, entre esses dois extremos.
- E todavia é por todos reconhecido que ele é um grande deus.
- Todos os que não sabem, é o que estás dizendo, ou também os que sabem?
- Todos eles, sem dúvida.
E ela sorriu e disse: - E como, ó Sócrates, admitiriam ser um grande deus aqueles que afirmam que nem
deus ele e?
- Quem são estes? Perguntei-lhe.
- Um és tu - respondeu-me - E eu, outra.
E eu: - Que queres dizer com isso?
E ela: - É simples. Dize-me, com efeito, todos os deuses não os afirmas felizes e belos? Ou terias a
audácia de dizer que algum deles não é belo e feliz?
- Por Zeus, não eu - retornei-lhe.
- E os felizes então, não dizes que são os que possuem o que é bom e o que é belo?
- Perfeitamente.
- Mas no entanto, o Amor, tu reconheceste que, por carência do que é bom e do que é belo, deseja isso
mesmo de que é carente.
- Reconheci, com efeito.
- Como então seria deus o que justamente é desprovido do que é belo e bom?
- De modo algum, pelo menos ao que parece.
- Estás vendo então - disse - que também tu não julgas o Amor um deus?
- Que seria então o Amor? - perguntei-lhe. - Um mortal?
- Absolutamente.
- Mas o quê, ao cento, ó Diotima?
- Como nos casos anteriores - disse-me ela - algo entre mortal e imortal.
- O quê, então, ó Diotima?
- Um grande gênio, ó Sócrates; e com efeito, tudo o que é gênio está entre um deus e um mortal.
- E com que poder? Perguntei-lhe.
- O de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de
uns as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no
meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. Por seu intermédio
é que procede não só toda arte divinatória, como também a dos sacerdotes que se ocupam dos sacrifícios,
das iniciações e dos encantamentos, e enfim de toda adivinhação e magia. Um deus com um homem não
se mistura, mas é através desse ser que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto
quando despertos como quando dormindo; e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio,
enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou oficio, é um artesão. E esses gênios, é certo, são muitos
e diversos, e um deles é justamente o Amor.
- E quem é seu pai - perguntei-lhe - e sua mãe?
- É um tanto longo de explicar, disse ela; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se
os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram
de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o
néctar - pois vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então,
tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o
Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo
tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de
Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente
ele é sempre pobre, e longe
está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por
terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe,
sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e
corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio
ele recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza
nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita,
graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem
enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá.
Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio - pois já é -, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa.
Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da
ignorância, no pensar, quem não é um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não
deseja portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso.
- Quais então, Diotima - perguntei-lhe - os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes?
- É o que é evidente desde já - respondeu-me - até a uma criança: são os que estão entre esses dois
extremos, e um deles seria o Amor. Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é
amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o
ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico e de uma mãe
que não é sábia, e pobre. É essa então, ó Sócrates, a natureza desse gênio; quanto ao que pensaste ser o
Amor, não é nada de espantar o que tiveste. Pois pensaste, ao que me parece a tirar pelo que dizes, que
Amor era o amado e não o amante; eis por que, segundo penso, parecia-te todo belo o Amor. E de fato o
que é amável é que é realmente belo, delicado, perfeito
e bem-aventurado; o amante, porém é outro o
seu caráter, tal qual eu expliquei.
E eu lhe disse: - Muito bem, estrangeira! É belo o que dizes! Sendo porém tal a natureza do Amor, que
proveito ele tem para os homens?
- Eis o que depois disso - respondeu-me - tentarei ensinar-te. Tal é de fato a sua natureza e tal a sua
origem; e é do que é belo, como dizes. Ora, se alguém nos perguntasse: Em que é que é amor do que é
belo o Amor, ó Sócrates e Diotima? ou mais claramente: Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?
- Tê-lo consigo - respondi-lhe.
- Mas essa resposta - dizia-me ela - ainda requer uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com
o que é belo?
- Absolutamente - expliquei-lhe - eu não podia mais responder-lhe de pronto a essa pergunta.
- Mas é, disse ela, como se alguém tivesse mudado a questão e, usando o bom em vez do belo,
perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; que é que ele ama?
- Tê-lo consigo - respondi-lhe.
- E que terá aquele que ficar com o que é bom?
- Isso eu posso - disse-lhe - mais facilmente responder: ele será feliz.
- É com efeito pela aquisição do que é bom, disse ela, que os felizes são felizes, e não mais é preciso
ainda perguntar: E para que quer ser feliz aquele que o quer? Ao contrário, completa parece a resposta.
- É verdade o que dizes - tornei-lhe.
- E essa vontade então e esse amor, achas que é comum a todos os homens, e que todos querem ter
sempre consigo o que é bom, ou que dizes?
- Isso - respondi-lhe - é comum a todos.
- E por que então, ó Sócrates, não são todos que dizemos que amam, se é que todos desejam a mesma
coisa e sempre, mas sim que uns amam e outros não?
- Também eu - respondi-lhe - admiro-me.
- Mas não! Não te admires! - retrucou ela; - pois é porque destacamos
do amor um certo aspecto e,
aplicando-lhe o nome do todo, chamamo-
lo de amor, enquanto para os outros aspectos servimo-nos de
outros nomes.
- Como, por exemplo? Perguntei-lhe.
- Como o seguinte. Sabes que "poesia" é algo de múltiplo; pois toda causa de qualquer coisa passar do
não-ser ao ser é “poesia”, de modo que as confecções de todas as artes são “poesias”, e todos os seus
artesãos poetas.
- É verdade o que dizes.
- Todavia continuou ela - tu sabes que estes não são denominados poetas, mas tem outros nomes,
enquanto que de toda a “poesia” uma única parcela foi destacada, a que se refere à música e aos versos, e
com o nome do todo é denominada. Poesia é com efeito só isso que se chama, e os que têm essa parte da
poesia, poetas.
- É verdade - disse-lhe.
- Pois assim também é com o amor. Em geral, todo esse desejo do que é bom e de ser feliz, eis o que é “o
supremo e insidioso amor, para todo homem”, no entanto, enquanto uns, porque se voltam para ele por
vários outros caminhos, ou pela riqueza ou pelo amor à ginástica ou à sabedoria, nem se diz que amam
nem que são amantes, outros ao contrário, procedendo e empenhando-se numa só forma, detêm o nome
do todo, de amor, de amar e de amantes.
- É bem provável que estejas dizendo a verdade - disse-lhe eu.
- E de fato corre um dito, continuou ela, segundo o qual são os que procuram a sua própria metade os que
amam; o que eu digo porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo; pelo menos, meu amigo, se
não se encontra este em bom estado, pois até os seus próprios pés e mãos querem os homens cortar, se
lhes parece que o que é seu está ruim. Não é com efeito o que é seu, penso, que cada um estima, a não ser
que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens serão
o bem; ou te parece que amam?
- Não, por Zeus - respondi-lhe.
- Será então - continuou - que é tão simples assim, dizer que os homens amam o bem?
- Sim - disse-lhe.
- E então? Não se deve acrescentar que é ter consigo o bem que eles amam?
- Deve-se.
- E sem dúvida - continuou - não apenas ter, mas sempre ter?
- Também isso se deve acrescentar.
- Em resumo então - disse ela - é o amor amor de consigo ter sempre o bem.
- Certíssimo - afirmei-lhe - o que dizes.
- Quando então - continuou ela - é sempre isso o amor, de que modo, nos que o perseguem, e em que
ação, o seu zelo e esforço se chamaria amor? Que vem a ser essa atividade? Podes dizer-me?
- Eu não te admiraria então, ó Diotima, por tua sabedoria, nem te freqüentaria para aprender isso mesmo.
- Mas eu te direi - tornou-me. -É isso, com efeito, um parto em beleza, tanto no corpo como na alma.
- É um adivinho - disse-lhe eu - que requer o que estás dizendo: não entendo.
- Pois eu te falarei mais claramente,
Sócrates, disse-me ela. Com efeito, todos os homens concebem, não
só no corpo como também na alma, e quando chegam a certa idade, é dar à luz que deseja a nossa
natureza. Mas ocorrer isso no que é inadequado é impossível. E o feio é inadequado a tudo o que é
divino, enquanto o belo é adequado. Moira então e Ilitia do nascimento é a Beleza. Por isso, quando do
belo se aproxima o que está em concepção, acalma-se, e de júbilo transborda, e dá à luz e gera; quando
porém é do feio que se aproxima, sombrio
e aflito contrai-se, afasta-se, recolhe-se e não gera, mas,
retendo o que concebeu, penosamente o carrega. Daí é que ao que está prenhe e já intumescido é grande
o alvoroço que lhe vem à vista do belo, que de uma grande dor liberta o que está prenhe. É com efeito,
Sócrates, dizia-me ela, não do belo o amor, como pensas.
- Mas de que é enfim?
- Da geração e da parturição no belo.
- Seja - disse-lhe eu.
- Perfeitamente - continuou. - E por que assim da geração? Porque é algo de perpétuo e mortal para um
mortal, a geração. E é a imortalidade que, com o bem, necessariamente se deseja, pelo que foi admitido,
se é que o amor é amor de sempre ter consigo o bem. É de fato forçoso por esse argumento que também
da imortalidade seja o amor.
Tudo isso ela me ensinava, quando sobre as questões de amor discorria, e uma vez ela me perguntou: -
Que pensas, ó Sócrates, ser o motivo desse amor e desse desejo? Porventura não percebes como é
estranho o comportamento de todos os animais quando desejam gerar, tanto dos que andam quanto dos
que voam, adoecendo todos em sua disposição amorosa, primeiro no que concerne à união de um com o
outro, depois no que diz respeito à criação do que nasceu? E como em vista disso estão prontos para lutar
os mais fracos contra os mais fortes, E mesmo morrer, não só se torturando pela fome a fim de
alimentá-los como tudo o mais fazendo? Ora, os homens, continuou ela, poder-se-ia pensar que é pelo
raciocínio que eles agem assim; mas os animais, qual a causa desse seu comportamento amoroso? Podes
dizer-me?
De novo eu lhe disse que não sabia; e ela me tornou: - Imaginas então algum dia te tornares temível nas
questões do amor, se não refletires nesses fatos?
- Mas é por isso mesmo, Diotima - como há pouco eu te dizia - que vim a ti, porque reconheci que
precisava de mestres. Dize-me então não só a causa disso, como de tudo o mais que concerne ao amor.
- Se de fato - continuou - crês que o amor é por natureza amor daquilo que muitas vezes admitimos, não
fiques admirado. Pois aqui, segundo o mesmo argumento que lá, a natureza mortal procura, na medida do
possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um
outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma -
assim como de criança o homem se diz o mesmo até se tornar velho; este na verdade, apesar de jamais ter
em si as mesmas coisas, diz-se todavia que é o mesmo, embora sempre se renovando e perdendo alguma
coisa, nos cabelos, nas carnes, nos ossos, no sangue e em todo o corpo. E não é que é só no corpo, mas
também na alma os modos, os costumes, as opiniões, desejos, prazeres, aflições, temores, cada um desses
afetos jamais permanece o mesmo em cada um de nós, mas uns nascem, outros morrem. Mas ainda mais
estranho do que isso é que até as ciências não é só que umas nascem e outras morrem para nós, e jamais
somos os mesmos nas ciências, mas ainda cada uma delas sofre a mesma contingência. O que, com
efeito, se chama exercitar é como se de nós estivesse saindo a ciência; esquecimento é escape de ciência,
e o exercício, introduzindo uma nova lembrança em lugar da que está saindo, salva a ciência, de modo a
parecer ela ser a mesma. É desse modo que tudo o que é mortal se conserva, E não pelo fato de
absolutamente ser sempre o mesmo, como o que é divino, mas pelo fato de deixar o que parte e
envelhece um outro ser novo, tal qual ele mesmo era. É por esse meio, ó Sócrates, que o mortal participa
da imortalidade, no corpo como em tudo mais o imortal porém é de outro modo. Não te admires portanto
de que o seu próprio rebento, todo ser por natureza o aprecie: é em virtude da imortalidade que a todo ser
esse zelo e esse amor acompanham.
Depois de ouvir o seu discurso, admirado disse-lhe: - Bem, ó doutíssima Diotima, essas coisas é
verdadeiramente assim que se passam?
E ela, como os sofistas consumados, tornou-me: - Podes estar certo, ó Sócrates; o caso é que, mesmo
entre os homens, se queres atentar à sua ambição, admirar-te-ias do seu desarrazoamento, a menos que, a
respeito do que te falei, não reflitas, depois de considerares quão estranhamente eles se comportam
com
o amor de se tornarem renomados e de “para sempre uma g1ória imortal se preservarem”, e como por
isso estão prontos a arrostar todos os perigos, ainda mais do que pelos filhos, a gastar fortuna, a sofrer
privações, quaisquer que elas sejam, e até a sacrificar-se. Pois pensas tu, continuou ela, que Alceste
morreria por Admeto, que Aquiles morreria depois de Pátroclo, ou o vosso Codromorreria antes, em
favor da realeza dos filhos, se não imaginassem que eterna seria a memória da sua própria virtude, que
agora nós conservamos? Longe disso, disse ela; ao contrário, é, segundo penso, por uma virtude imortal e
por tal renome e glória que todos tudo fazem, e quanto melhores tanto mais; pois é o imortal que eles
amam. Por conseguinte, continuou ela, aqueles que estão fecundados em seu corpo voltam-se de
preferência para as mulheres, e é desse modo que são amorosos, pela procriação conseguindo para si
imortalidade, memória e bem-aventurança por todos os séculos seguintes, ao que pensam; aqueles porém
que é em sua alma - pois há os que concebem na alma mais do que no corpo, o que convém à alma
conceber e gerar; e o que é que lhes convém senão o pensamento e o mais da virtude? Entre estes estão
todos os poetas criadores e todos aqueles artesãos que se diz serem inventivos; mas a mais importante,
disse ela, e a mais bela forma de pensamento
é a que trata da organização dos negócios da cidade e da
família, e cujo nome é prudência e justiça - destes por sua vez quando alguém, desde cedo fecundado em
sua alma, ser divino que é, e chegada a idade oportuna, já está desejando dar à luz e gerar, procura
então
também este, penso eu, à sua volta o belo em que possa gerar; pois no que é feio ele jamais o fará. Assim
é que os corpos belos mais que os feios ele os acolhe, por estar em concepção; e se encontra uma alma
bela, nobre e bem dotada, é total o seu acolhimento a ambos, e para um homem desses logo ele se
enriquece de discursos sobre a virtude, sobre o que deve ser o homem bom e o que deve tratar, e tenta
educá-lo. Pois ao contato sem dúvida do que é belo e em sua companhia, o que de há muito ele concebia
ei-lo que dá à luz e gera, sem o esquecer tanto em sua presença quanto ausente, e o que foi gerado, ele o
alimenta justamente com esse belo, de modo que uma comunidade muito maior que a dos filhos ficam
tais indivíduos mantendo entre si, e uma amizade mais firme, por serem mais belos e mais imortais os
filhos que têm em comum. E qualquer um aceitaria obter tais filhos mais que os humanos, depois
de
considerar Homero e Hesíodo, e admirando com inveja os demais bons poetas, pelo tipo de descendentes
que deixam de si, e que uma imortal glória e mem6ria lhes garantem, sendo eles mesmos o que são; ou se
preferes, continuou ela, pelos filhos que Licurgo deixou na Lacedemônia, salvadores da Lacedemônia e
por assim dizer da Grécia. E honrado entre vós é também Sólon pelas leis que criou, e outros muitos em
muitas outras partes, tanto entre os gregos como entre os bárbaros, por terem dado à luz muitas obras
belas e gerado toda espécie de virtudes; deles é que já se fizeram muitos
cultos por causa de tais filhos,
enquanto que por causa dos humanos ainda não se fez nenhum.
São esses então os casos de amor em que talvez, ó Sócrates, também tu pudesses ser iniciado; mas,
quanto à sua perfeita contemplação, em vista da qual é que esses graus existem, quando se procede
corretamente, não sei se serias capaz; em todo caso, eu te direi, continuou, e nenhum esforço pouparei;
tenta então seguir-me se fores capaz: deve com efeito, começou ela, o que corretamente se encaminha a
esse fim, começar quando jovem por dirigir-se aos belos corpos, e em primeiro lugar, se corretamente o
dirige o seu dirigente, deve ele amar um só corpo e então gerar belos discursos; depois deve ele
compreender que a beleza em qualquer corpo é irmã da que está em qualquer outro, e que, se se deve
procurar o belo na forma, muita tolice seria não considerar uma só e a mesma a beleza em todos os
corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor
violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho; depois disso a beleza que está nas almas
deve ele considerar mais preciosa que a do corpo, de modo que, mesmo se alguém de uma alma gentil
tenha todavia um escasso encanto, contente-se ele, ame e se interesse, e produza e procure discursos tais
que tornem melhores os jovens; para que então seja obrigado a contemplar o belo nos ofícios e nas leis, e
a ver assim que todo ele tem um parentesco comum, e julgue enfim de pouca monta o belo no corpo;
depois dos ofícios é para as ciências que é preciso transportá-lo, a fim de que veja também a beleza das
ciências, e olhando para o belo já muito, sem mais amar como um doméstico a beleza individual de um
criançola, de um homem ou de um só costume, não seja ele, nessa escravidão, miserável e um mesquinho
discursador, mas voltado ao vasto oceano do belo e, contemplando-o, muitos discursos belos e
magníficos ele produza, e reflexões, em inesgotável amor à sabedoria, até que aí robustecido e crescido
contemple ele uma certa ciência, única, tal que o seu objeto é o belo seguinte. Tenta agora, disse-me ela,
prestar-me a máxima
atenção possível. Aquele, pois, que até esse ponto tiver sido orientado para as
coisas do amor, contemplando seguida e corretamente o que é belo, já chegando ao ápice dos graus do
amor, súbito perceberá algo de maravilhosamente
belo em sua natureza, aquilo mesmo, ó Sócrates, a
que tendiam todas as penas anteriores, primeiramente sempre sendo, sem nascer nem perecer, sem
crescer nem decrescer, e depois, não de um jeito belo e de outro feio, nem ora sim ora não, nem quanto a
isso belo e quanto àquilo feio, nem aqui belo ali feio, como se a uns fosse belo e a outros feio; nem por
outro lado aparecer-lhe-á o belo como um rosto ou mãos, nem como nada que o corpo tem consigo, nem
como algum discurso ou alguma ciência, nem certamente
como a existir em algo mais, como, por
exemplo, em animal da terra ou do céu, ou em qualquer outra coisa; ao contrário, aparecer-lhe-á ele
mesmo, por si mesmo, consigo mesmo, sendo sempre uniforme, enquanto tudo mais que é belo dele
participa, de um modo tal que, enquanto nasce e perece tudo mais que é belo, em nada ele fica maior ou
menor, nem nada sofre. Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo, através do correto
amor aos jovens, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com
efeito, em que consiste o proceder corretamente
nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir:
em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus,
de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos
ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão
daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo. Nesse ponto da vida, meu caro Sócrates,
continuou a estrangeira de Mantinéia, se é que em outro mais, poderia o homem viver, a contemplar o
próprio belo. Se algum dia o vires, não é como ouroou como roupa que ele te parecerá ser, ou como os
belos jovens adolescentes, a cuja vista ficas agora aturdido e disposto, tu como outros muitos, contanto
que vejam seus amados e sempre estejam com eles, a nem comer nem beber, se de algum modo fosse
possível, mas a só contemplar e estar ao seu lado. Que pensamos
então que aconteceria, disse ela, se a
alguém ocorresse contemplar o próprio belo, nítido, puro, simples, e não repleto de carnes, humanas, de
cores e outras muitas ninharias mortais,
mas o próprio divino belo pudesse ele em sua forma única
contemplar? Porventura pensas, disse, que é vida vã a de um homem a olhar naquela direção e aquele
objeto, com aquilo com que deve, quando o contempla e com ele convive? Ou não consideras, disse ela,
que somente então, quando vir o belo com aquilo com que este pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir não
sombras de virtude, porque não é em sombra que estará tocando, mas reais virtudes, porque é no real que
estará tocando?
Eis o que me dizia Diotima, ó Fedro e demais presentes, e do que estou convencido; e porque estou
convencido, tento convencer também os outros de que para essa aquisição, um colaborador da natureza
humana melhor que o Amor não se encontraria facilmente. Eis por que eu afirmo que deve todo homem
honrar o Amor, e que eu próprio prezo o que lhe concerne e particularmente o cultivo, e aos outros
exorto, e agora e sempre elogio o poder e a virilidade do Amor na medida em que sou capaz. Este
discurso, ó Fedro, se queres, considera-o proferido como um encômioao Amor; se não, o que quer que e
como quer que te apraza chamá-lo, assim deves fazê-lo.
Depois que Sócrates assim falou, enquanto que uns se põem a louvá-lo, Aristófanes tenta dizer alguma
coisa, que era a ele que aludira Sócrates, quando falava de um certo dito; e súbito a porta do pátio,
percutida, produz um grande barulho, como de foliões, e ouve-se a voz de uma flautista. Agatão exclama:
“Servos! Não ireis ver? Se for algum conhecido, chamai-o; se não, dizei que não estamos bebendo, mas
já repousamos”.
Não muito depois ouve-se a voz de Alcibíades no pátio, bastante embriagado, e a gritar alto, perguntando
onde estava Agatão, pedindo que o levassem para junto de Agatão. Levam-no então até os convivas a
flautista, que o tomou sobre si, e alguns outros acompanhantes, e ele se detém à porta, cingido de uma
espécie de coroa tufada de hera e violetas, coberta a cabeça de fitas em profusão, e exclama: “Senhores!
Salve! Um homem em completa embriaguez vós o recebereis como companheiro de bebida, ou devemos
partir, tendo apenas coroado Agatão, pelo qual viemos? Pois eu, na verdade, continuou, ontem mesmo
não fui capaz de vir; agora porém eis-me aqui, com estas fitas sobre a cabeça, a fim de passá-las da
minha para a cabeça do mais sábio e do mais belo, se assim devo dizer. Porventura ireis zombar de mim,
de minha embriaguez? Ora, eu, por mais que zombeis, bem sei portanto
que estou dizendo a verdade.
Mas dizei-me daí mesmo: com o que disse, devo entrar ou não? Bebereis comigo ou não?
Todos então o aclamam e convidam a entrar e a recostar-se, e Agatão o chama. Vai ele conduzido pelos
homens, e como ao mesmo tempo colhia as fitas para coroar, tendo-as diante dos olhos não viu Sócrates,
e todavia senta-se ao pé de Agatão, entre este e Sócrates, que se afastara de modo a que ele se
acomodasse. Sentando-se ao lado de Agatão ele o abraça e o coroa.
Disse então Agatão: - Descalçai Alcibíades, servos, a fim de que seja o terceiro em nosso leito.
- Perfeitamente - tornou Alcibíades; - mas quem é este nosso terceiro companheiro de bebida? E
enquanto se volta avista Sócrates, e mal o viu recua em sobressalto e exclama: Por Hércu1es! Isso aqui
que e? Tu, ó Sócrates? Espreitando-me de novo aí te deitaste, de súbito aparecendo assim como era teu
costume, onde eu menos esperava que haverias de estar? E agora, a que vieste? E ainda por que foi que
aqui te recostaste? Pois não foi junto de Aristófanes, ou de qualquer
outro que seja ou pretenda ser
engraçado, mas junto do mais belo dos que estão aqui dentro que maquinaste te deitar.
E Sócrates: - Agatão, vê se me defendes! Que o amor deste homem se me tornou um não pequeno
problema. Desde aquele tempo, com efeito, em que o amei, não mais me é permitido dirigir nem o olhar
nem a palavra a nenhum belo jovem, serão este homem, enciumado e invejoso, faz coisas
extraordinárias, insulta-me e mal retém suas mãos da violência. Vê então se também agora não vai ele
fazer alguma coisa, e reconcilia-nos; ou se ele tentar a violência, defende-
me, pois eu da sua fúria e da
sua paixão amorosa muito me arreceio.
- Não! - disse Alcibíades - entre mim e ti não há reconciliação. Mas pelo que disseste depois eu te
castigarei; agora porém, Agatão, exclamou
ele, passa-me das tuas fitas, a fim de que eu cinja também
esta aqui, a admirável cabeça deste homem, e não me censure ele de que a ti eu te coroei, mas a ele, que
vence em argumentos todos os homens, não só ontem como tu, mas sempre, nem por isso eu o coroei. - E
ao mesmo tempo ele toma das fitas, coroa Sócrates e recosta-se.
Depois que se recostou, disse ele: - Bem, senhores! Vós me pareceis em plena sobriedade. É o que não se
deve permitir entre vós, mas beber; pois foi o que foi combinado entre nós. Como chefe então da
bebedeira, até que tiverdes suficientemente bebido, eu me elejo a mim mesmo. Eia, Agatão, que a tragam
logo, se houver aí alguma grande taça. Melhor ainda, não há nenhuma precisão: vamos, servo, traze-me
aquele porta-gelo! exclamou ele, quando viu um com capacidade de mais de oito “cótilas”. Depois de
enchê-lo, primeiro ele bebeu, depois mandou Sócrates entornar, ao mesmo tempo que dizia: - Para
Sócrates, senhores, meu ardil não é nada: quanto se lhe mandar, tanto ele beberá, sem que por isso jamais
se embriague.
Sócrates então, tendo-lhe entornado o servo, pôs-se a beber; mas eis que Erixímaco exclama: - Que é
então que fazemos, Alcibíades? Assim nem dizemos nada nem cantamos de taça à mão, mas
simplesmente iremos beber, como os que têm sede?
Alcibíades então exclamou: Excelente filho de um excelente e sapientíssimo pai, salve!
- Também tu, salve! - respondeu-lhe Erixímaco; - mas que devemos
fazer?
- O que ordenares! É preciso com efeito te obedecer:
pois um homem que é médico
va1e
muitos outros;
ordena então o que queres.
- Ouve então - disse Erixímaco. - Entre nós, antes de chegares, decidimos que devia cada um à direita
proferir
em seu turno um discurso sobre o Amor, o mais belo que pudesse, e lhe fazer o elogio. Ora,
todos nós já falamos;
tu porém como não o fizeste e bebeste tudo, é justo que fales, e que depois do teu
discurso ordenes a Sócrates o que quiseres, e este ao da direita,
e assim aos demais.
- Mas, Erixímaco! - tornou-lhe Alcibíades - é sem dúvida bonito o que dizes, mas um homem
embriagado proferir um discurso em confronto com os de quem está com sua razão, é de se esperar que
não seja de igual para igual. E ao mesmo tempo, ditoso amigo, convence-te Sócrates em algo do que há
pouco disse? Ou sabes que é o contrário de tudo o que afirmou? É ele ao contrário que, se em sua
presença eu louvar alguém, ou um deus ou um outro homem fora ele, não tirará suas mãos de mim.
- Não vais te calar? - disse Sócrates.
- Sim, por Posidão - respondeu-lhe Alcibíades; nada digas quanto a isso, que eu nenhum outro mais
louvaria em tua presença.
- Pois faze isso então - disse-lhe Erixímaco - se te apraz; louva Sócrates.
- Que dizes? - tornou-lhe Alcibíades; - parece-te necessário, Erixímaco? Devo então atacar-me ao
homem e castigá-1o diante de vós?
- Eh! tu! - disse-lhe Sócrates - que tens em mente? Não é para carregarno ridículo que vais elogiar-me?
Ou que farás?
- A verdade eu direi. Vê se aceitas!
- Mas sem dúvida! - respondeu-lhe - a verdade sim, eu aceito, e mesmo peço que a digas.
- Imediatamente - tornou-lhe Alcibíades. - Todavia faze o seguinte. Se eu disser algo inverídico,
interrompe-
me incontinenti, se quiseres, e dize que nisso eu estou falseando; pois de minha vontade eu
nada falsearei. Se porém a lembrança de uma coisa me faz dizer outra, não te admires; não é fácil, a
quem está neste estado, da tua singularidade dar uma conta bem feita e seguida.
“Louvar Sócrates, senhores, é assim que eu tentarei, através de imagens. Ele certamente pensará talvez
que é para carregar no ridículo, mas será a imagem em vista da verdade, não do ridículo. Afirmo eu então
que é ele muito semelhante a esses silenos colocados
nas oficinas dos estatuários, que os artistas
representam com um pifre ou uma flauta, os quais, abertos ao meio, vê-se que têm em seu interior
estatuetas
de deuses. Por outro lado, digo também que ele se assemelha ao sátiro Mársias. Que na
verdade, em teu aspecto pelo menos és semelhante a esses dois seres, ó Sócrates, nem mesmo tu sem
dúvida poderias contestar; que porém também no mais tu te assemelhas, é o que depois disso tens de
ouvir. És insolente! Não? Pois se não admitires, apresentarei testemunhas. Mas não és flautista? Sim! E
muito mais maravilhoso que o sátiro. Este, pelo menos, era através de instrumentos que, com o poder de
sua boca, encantava os homens como ainda agora o que toca as suas melodias —pois as que Olimpo
tocava são de Mársias, digo eu, por este ensinadas - as dele então, quer as toque um bom flautista quer
uma flautista ordinárias, são as únicas que nos fazem possessos e revelam os que sentem falta dos deuses
e das iniciações, porque são divinas. Tu porém dele diferes apenas nesse pequeno ponto, que sem
instrumentos, com simples palavras, fazes o mesmo. Nós pelo menos, quando algum outro ouvimos
mesmo que seja um perfeito orador, a falar de outros assuntos, absolutamente por assim dizer ninguém se
interessa; quando porém é a ti que alguém ouve, ou palavras tuas referidas por outro, ainda que seja
inteiramente vulgar o que está falando, mulher, homem ou adolescente, ficamos aturdidos e somos
empolgados. Eu pelo menos, senhores, se não fosse de todo parecer que estou embriagado, eu vos
contaria, sob juramento,
o que é que eu sofri sob o efeito dos discursos deste homem, e sofro ainda
agora. Quando com efeito os escuto, muito mais do que aos coribantes em seus transportes bate-me o
coração, e lágrimas me escorrem sob o efeito dos seus discursos, enquanto que outros muitíssimos eu
vejo que experimentam o mesmo sentimento; ao ouvir Péricles porém, e outros bons oradores, eu achava
que falavam bem sem dúvida, mas nada de semelhante eu sentia, nem minha alma ficava perturbada nem
se irritava, como se se encontrasse em condição servil; mas com este Mársias aqui, muitas foram as vezes
em que de tal modo me sentia que me parecia não ser possível viver em condições como as minhas. E
isso, ó Sócrates, não irás dizer que não é verdade. Ainda agora tenho certeza de que, se eu quisesse
prestar ouvidos, não resistiria, mas experimentaria os mesmos sentimentos. Pois me força ele a admitir
que, embora sendo eu mesmo deficiente em muitos pontos ainda, de mim mesmo me descuido, mas trato
dos negócios de Atenas. A custo então, como se me afastasse das sereias, eu cerro os ouvidos e me retiro
em fuga, a fim de não ficar sentado lá e aos seus pés envelhecer. E senti diante deste homem, somente
diante dele, o que ninguém imaginaria haver em mim, o envergonhar-me de quem quer que seja; ora, eu,
é diante deste homem somente que me envergonho. Com efeito, tenho certeza de que não posso
contestar-lhe que não se deve fazer o que ele manda, mas quando me retiro sou vencido pelo apreço em
que me tem o público. Safo-me então de sua presença e fujo, e quando o vejo envergonho-me pelo que
admiti. E muitas vezes sem dúvida com prazer o veria não existir entre os homens; mas se por outro lado
tal coisa ocorresse, bem sei que muito maior seria a minha dor, de modo que não sei o que fazer com esse
homem.
De seus flauteios então, tais foram as reações que eu e muitos outros tivemos
deste sátiro; mas ouvi-me
como ele é semelhante àque1es a quem o comparei, que poder maravilhoso ele tem. Pois ficai sabendo
que ninguém o conhece; mas eu a revelarei, já que comecei. Estais vendo, com efeito, como Sócrates
amorosamente se comporta
com os belos jovens, está sempre ao redor deles, fica aturdido e como
também ignora tudo e nada sabe. Que esta sua atitude não é conforme à dos silenos? E muito mesmo.
Pois é aquela com que por fora ele se reveste, como o sileno esculpido; mas lá dentro, uma vez aberto, de
quanta sabedoria imaginais, companheiros de bebida, estar ele cheio? Sabei que nem a quem é belo tem
ele a mínima consideração, antes despreza tanto quanto ninguém poderia imaginar, nem tampouco a
quem é rico, nem a quem tenha qualquer
outro titulo de honra, dos que são enaltecidas pelo grande
número; todos esses bens ele julga que nada valem, e que nós nada somos - a que vos digo - e é
ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida. Uma vez porém que fica sério e se
abre, não sei se alguém já viu as estátuas lá dentro; eu por mim já uma vez as vi, e tão divinas me
pareceram elas, com tanto aura, com uma beleza tão completa e tão extraordinária que eu só tinha que
fazer imediatamente a que me mandasse Sócrates. Julgando porém que ele estava interessado em minha
beleza, considerei um achado e um maravilhoso lance da fortuna, como se me estivesse ao alcance,
depois
de aquiescer a Sócrates, ouvir tudo a que ele sabia; o que, com efeito, eu presumia da beleza de
minha juventude era extraordinário! Com tais idéias em meu espírito, eu que até então não costumava
sem um acompanhante ficar só com ele, dessa vez, despachando o acompanhante, encontrei-me a sós - é
preciso, com efeito, dizer-vos toda a verdade; - prestai atenção, e se eu estou mentindo, Sócrates, prova -
pois encontrei-me, senhores, a sós com ele, e pensava que logo ele iria tratar comigo a que um amante
em segredo trataria com o bem-amado, e me rejubilava. Mas não, nada disso absolutamente aconteceu;
ao contrário, como costumava, se por acaso comigo conversasse e passasse o dia, ele retirou-se e foi-se
embora. Depois disso convidei-o a fazer ginástica comigo e entreguei-me aos exercícios, como se
houvesse então de conseguir algo. Exercitou-se ele comigo e comigo lutou muitas vezes sem que
ninguém nos presenciasse; e que devo dizer? Nada me adiantava. Como por nenhum desses caminhos eu
tivesse resultado, decidi que devia atacar-me ao homem à força e não largá-lo, uma vez que eu estava
com a mão na obra, mas logo saber de que é que se tratava. Convido-o então a jantar comigo, exatamente
como um amante armando cilada ao bem-amado. E nem nisso também ele me atendeu logo, mas na
verdade com o tempo deixou-se convencer. Quando porém veio à primeira vez, depois do jantar queria
partir. Eu então, envergonhado, larguei-o; mas repeti a cilada, e depois que ele estava jantado eu me pus
a conversar com ele noite adentro, ininterruptamente, e quando quis partir, observando-lhe que era tarde,
obriguei-o a ficar. Ele descansava então no leito vizinho ao meu, no mesmo em que jantara, e ninguém
mais no compartimento ia dormir senão nós. Bem, até esse ponto do meu discurso ficaria bem fazê-lo a
quem quer que seja; mas o que a partir daqui se segue, vós não me teríeis ouvido dizer se, primeiramente,
como diz o ditado, no vinho, sem as crianças ou com elas, não estivesse a verdade; e depois, obscurecer
um ato excepcionalmente
brilhante de Sócrates, quando se saiu a elogiá-lo, parece-me injusto. E ainda
mais, o estado do que foi mordido pela víbora é também o meu. Com efeito, dizem que quem sofreu tal
acidente não quer dizer como foi senão aos que foram mordidos, por serem os únicos, dizem eles, que a
compreendem e desculpam de tudo que ousou fazer e dizer sob o efeito da dor. Eu então, mordido por
algo mais doloroso,
e no ponto mais doloroso em que se passa ser mordido — pois foi no coração ou na
alma, ou no que quer que se deva chamá-lo que fui golpeado e mordido pelos discursos filosóficos, que
têm mais virulência que a víbora, quando pegam de um jovem espírito, não sem dotes, e que tudo fazem
cometer e dizer tudo - e vendo por outro lado os Fedros, Agatãos, Erixímacos, os Pausânias, os
Aristodemos e os Aristófanes; e o próprio Sócrates, é preciso mencioná-lo? E quantos mais... Todos vós,
com efeito, participastes em comum do delírio filosófico e dos seus transportes báquicos e por isso todos
ireis ouvir-me; pois haveis de desculpar-me do que então fiz e do que agora digo. Os domésticos, e se
mais alguém há profano e inculto, que apliquem aos seus ouvidos portas bem espessas.
Como com efeito, senhores, a lâmpada se apagara e os servos estavam fora, decidi que não devia fazer
nenhum floreado com ele, mas francamente
dizer-lhe o que eu pensava; e assim o interpelei, depois de
sacudi-lo: - Sócrates, estás dormindo?
- Absolutamente - respondeu-me.
- Sabes então qual é a minha decisão?
- Qual é exatamente? - tornou-me.
- Tu me pareces - disse-lhe eu - ser um amante digno de mim, o único, e te mostras hesitante em
declarar-me. Eu porém é assim que me sinto: inteiramente estúpido eu acho não te aquiescer não só nisso
como também em algum caso em que precisasses ou de minha fortuna ou dos meus amigos. A mim, com
efeito, nada me é mais digno de respeito do que o tornar-me eu o melhor possível, e para isso creio que
nenhum auxiliar me é mais importante do que tu. Assim é que eu, a um tal homem recusando meus
favores, muito mais me envergonharia diante da gente ajuizada do que se os concedesse, diante da
multidão irrefletida.
E este homem, depois de ouvir-me, com a perfeita ironia que é bem sua e do seu hábito, retrucou-me: -
Caro Alcibíades, é bem provável que realmente
não sejas um vulgar, se chega a ser verdade a que dizes
a meu respeito, e se há em mim algum poder pelo qual tu te poderias tornar melhor; sim, uma irresistível
beleza verias em mim, e totalmente diferente da formosura que há em ti. Se então, ao contemplá-la,
tentas compartilhá-la comigo e trocar beleza por beleza, não é em pouco que pensas me levar vantagens,
mas ao contrário, em lugar da aparência é a realidade do que é belo que tentas adquirir, e realmente é
“ouro por cobre” que pensas trocar. No entanto, ditoso amigo, examina melhor; não te passe
despercebido que nada sou. Em verdade, a visão do pensamento
começa a enxergar com agudeza
quando a dos olhos tende a perder sua força; tu porém estás ainda longe disso.
E eu, depois de ouvi-lo: - Quanto ao que é de minha parte, eis aí; nada do que está dito é diferente do que
penso; tu porém decide de acordo com o que julgares ser o melhor para ti e para mim.
- Bem, tomou ele, nisso sim, tens razão; daqui por diante, com efeito, decidiremos fazer, a respeito disso
como do mais, o que a nós dois nos parecer melhor.
Eu, então, depois do que vi e disse, e que como flechas deixei escapar, imaginei-o ferido; e assim que eu
me ergui sem ter-lhe permitido dizer-me nada mais, vesti esta minha túnica - pois era inverno -
estendi-me por sob a manta deste homem, e abraçado com estas duas mãos a este ser verdadeiramente
divino e admirável fiquei deitado
a noite toda. Nem também isso, ó Sócrates, irás dizer que estou
falseando. Ora, não obstante tais esforços meus, tanto mais este homem cresceu e desprezou minha
juventude, ludibriou-a,
insultou-a e justamente naquilo é que eu pensava ser alguma coisa, senhores
juízes; sois com efeito juízes da sobranceria de Sócrates - pois ficai sabendo, pelos deuses e pelas deusas,
quando me levantei com Sócrates, foi após um sono em nada mais extraordinário do que se eu tivesse
dormido com meu pai ou um irmão mais velho.
Ora bem, depois disso, que disposição de espírito pensais que eu tinha, a julgar-me vilipendiado, a
admirar o caráter deste homem, sua temperança e coragem, eu que tinha encontrado um homem tal como
jamais julgava poderia encontrar em sabedoria e fortaleza? Assim, nem eu podia irritar-me e privar-me
de sua companhia, nem sabia como atrai-lo. Bem sabia eu, com efeito, que ao dinheiro era ele de
qualquer modo muito mais invulnerável do que Ájax ao ferro, e na única coisa em que eu imaginava ele
se deixaria prender, ei-lo que me havia escapado. Embaraçava-me então, e escravizado pelo homem
como ninguém mais por nenhum outro, eu rodava à toa. Tudo isso tinha-se sucedido anteriormente;
depois, ocorreu-nos fazer em comum uma expedição em Potidéia, e éramos ali companheiros de mesa.
Antes de tudo, nas fadigas, não só a mim me superava mas a todos os outros - quando isolados em algum
ponto, como é comum numa expedição, éramos forçados a jejuar, nada eram os outros para resistir - e
por outro lado nas fartas refeições, era o único a ser capaz de aproveitá-las em tudo mais, sobretudo
quando, embora se recusasse, era forçado a beber, que a todos vencia; e o que é mais espantoso de tudo é
que Sócrates embriagado nenhum homem há que o tenha visto. E disso, parece-me, logo teremos a prova.
Também quanto à resistência ao inverno - terríveis são os invernos ali - entre outras façanhas
extraordinárias que fazia, uma vez, durante uma geada das mais terríveis, quando todos ou evitavam sair
ou, se alguém saía, era envolto em quanta roupagem estranha, e amarrados os pés em feltros e peles de
carneiro, este homem, em tais circunstâncias, saía com um manta do mesmo tipo que antes costumava
trazer, e descalço sobre o gelo marchava mais à vontade que os outros calçados, enquanto que os
soldados o olhavam de soslaio, como se o suspeitassem de estar troçando deles. Quanto a estes fatos,
ei-los aí:
mas também o seguinte, como o fez
e suportou um bravo
lá na expedição, certa vez, merece ser ouvido. Concentrado numa reflexão, logo se detivera desde a
madrugada a examinar uma idéia, e como esta não lhe vinha, sem se aborrecer ele se conservara de pé, a
procurá-la. Já era meio-dia, os homens estavam observando, e cheios de admiração diziam uns aos
outros: Sócrates desde a madrugada está de pé ocupado em suas reflexões! Por fim, alguns dos jônicos,
quando já era de tarde, depois
de terem jantado - pois era então o estio - trouxeram para fora os seus
leitos e ao mesmo tempo que iam dormir na fresca, observavam-no a ver se também a noite ele passaria
de pé. E ele ficou de pé, até que veia a aurora e o sol se ergueu; a seguir foi embora, depois de fazer uma
prece ao sol. Se quereis saber nos combates - pois isto é bem justo que se lhe leve em conta - quando se
deu a batalha pela qual chegaram mesmo a me condecorar os generais, nenhum outro homem me salvou
senão este, que não quis abandonar-me ferido, e até minhas armas salvou comigo. Eu então, ó Sócrates,
insisti com os generaispara que te conferissem essa honra, e isso não vais me censurar nem irás dizer que
estou falseando; todavia, quando já os generais consideravam minha posição e desejavam conceder-me a
insigne honra, tu mesmo foste mais solícito que os generais para que fosse eu e não tu que a recebesse. E
também, ó senhores, valia a pena observar Sócrates, quando de Delião batia em retirada o exército; por
acaso fiquei ao seu lado, a cavalo, enquanto ele ia com suas armas de hoplita. Ora, ele se retirava, quando
já tinham debandado os nossos homens, ao lado de Laques: acerco-me deles e logo que os veja exorto-os
à coragem, dizendo-lhes que os não abandonaria. Foi aí que, melhor que em Potidéia, eu observei
Sócrates - pois o meu perigo era menor, por estar eu a cavalo - primeiramente quanto ele superava a
Laques, em domínio de si; e depois, parecia-me, ó Aristófanes, segundo aquela tua expressão,
que
também lá como aqui ele se locomovia “impondo-se e olhando de través”, calmamente examinando de
um lado e de outro os amigos e os inimigos, deixando bem claro a todos, mesma a distância, que se
alguém tocasse nesse homem, bem vigorosamente ele se defenderia. Eis por que com segurança se
retirava, ele e o seu companheiro; pois quase que, nos que assim se comportam na guerra, nem se toca,
mas é aos que fogem em desordem que se persegue.
Muitas outras virtudes certamente poderia alguém louvar em Sócrates, e admiráveis; todavia, das demais
atividades, talvez também a respeito de alguns outros se pudesse dizer outro tanto; o fato porém de a
nenhum homem assemelhar-se ele, antigo ou moderno, eis o que é digno de toda admiração. Com efeito,
qual foi Aquiles, tal poder-se-ia imaginar Brasidas e outros, e inversamente, qual foi Péricles, tal Nestor e
Antenor - sem falar de outros - e todos os demais por esses exemplos se poderia comparar; o que porém é
este homem aqui, o que há de desconcertante em sua pessoa e em suas palavras, nem de perto se poderia
encontrar um semelhante, quer se procure entre os modernos, quer entre os antigos, a não ser que se lhe
faça a comparação com os que eu estou dizendo, não com nenhum homem, mas com os silenos e os
sátiros, e não só de sua pessoa como de suas palavras.
Na verdade, foi este sem dúvida um ponto em que em minhas palavras eu deixei passar, que também os
seus discursos são muito semelhantes aos silenos que se entreabrem. A quem quisesse ouvir os discursos
de Sócrates pareceriam eles inteiramente ridículos à primeira vez: tais são os nomes e frases de que por
fora se revestem eles, como de uma pele de sátiro insolente! Pois ele fala de bestas de carga, de ferreiros,
de sapateiros, de correeiros, e sempre parece com as mesmas palavras dizer as mesmas coisas, a ponto de
qualquer inexperiente ou imbecil zombar de seus discursos. Quem porém os viu entreabrir-se e em seu
interior penetra, primeiramente descobrirá que, no fundo, são os únicos que têm inteligência, e depois,
que são o quanto possível divinos, e os que o maior número contêm de imagens de virtude, e o mais
possível se orientam, ou melhor, em tudo se orientam para o que convém ter em mira, quando se procura
ser um distinto e honrado
cidadão.
Eis aí, senhores, o que em Sócrates eu louvo; quanto ao que, pelo contrário, lhe recrimino, eu o pus de
permeio e disse os insultos que me fez. E na verdade não foi só comigo que ele os fez, mas com
Cármides, o filho de Glauco, com Eutidemo, de Díocles, e com muitíssimos outros, os quais ele engana
fazendo-se de amoroso, enquanto é antes na posição de bem-amado
que ele mesmo fica, em vez de
amante. E é nisso que te previno, ó Agatão, para não te deixares enganar por este homem e, por nossas
experiências ensinado, te preservares e não fazeres como o bobo do provérbio, que “só depois de sofrer
aprende”.
Depois destas palavras de Alcibíades houve risos por sua franqueza, que parecia ele ainda estar amoroso
de Sócrates. Sócrates então disse-lhe: - Tu me pareces, ó Alcibíades, estar em teu domínio. Pois de outro
modo não te porias, assim tão destramente fazendo rodeios, a dissimular o motivo por que falaste; como
que falando acessoriamente tu o deixaste para o fim, coma se tudo o que disseste não tivesse sido em
vista disso, de me indispor com Agatão, na idéia de que eu devo amar-te e a nenhum outro, e que Agatão
é por ti que deve ser amado, e por nenhum outro. Mas não me escapaste! Ao contrário, esse teu drama de
sátiros e de silenos ficou transparente. Pois bem, caro Agatão, que nada mais haja para ele, e faze com
que comigo ninguém te indisponha.
Agatão respondeu: - De fato, ó Sócrates, é muito provável que estejas dizendo a verdade. E a prova é a
maneira como justamente ele se recostou aqui no meio, entre mim e ti, para nos afastar um do outro.
Nada mais ele terá então; eu virei para o teu lado e me recostarei.
- Muito bem - disse Sócrates - reclina-te aqui, logo abaixo de mim.
- Ó Zeus, que tratamento recebo ainda desse homem! Acha ele que em tudo deve levar-me a melhor. Mas
pelo menos, extraordinária criatura, permite que entre nós se acomode Agatão.
- Impossível! - tornou-lhe Sócrates. - Pois se tu me elogiaste, devo eu por minha vez elogiar o que está à
minha direita. Ora, se abaixo de ti ficar Agatão, não irá ele por acaso fazer-me um novo elogio, antes de,
pelo contrário, ser por mim elogiado? Deixa, divino amigo, e não invejes ao jovem o meu elogio, pois é
grande o meu desejo de elogiá-lo.
- Evoé! - exclamou Agatão; - Alcibíades, não há meio de aqui eu ficar; ao contrário, antes de tudo, eu
mudarei de lugar, a fim de ser por Sócrates elogiado.
- Eis aí - comentou Alcibíades - a cena de costume: Sócrates presente, impossível a um outro conquistar
os belos! Ainda agora, como ele soube facilmente encontrar uma palavra persuasiva, com o que este belo
se vai pôr ao seu lado.
Agatão levanta-se assim para ir deitar-se ao lado de Sócrates; súbito porém uns foliões, em numeroso
grupo, chegam à porta e, tendo-a encontrado aberta com a saída de alguém, irrompem eles pela frente em
direção dos convivas, tomando assento nos leitos; um tumulto enche todo o recinto e, sem mais nenhuma
ordem, é-se forçado a beber vinho em demasia. Erixímaco, Fedro e alguns outros, disse Aristodemo,
retiram-se e partem; a ele porém o sono o pegou, e dormiu muitíssimo, que estavam longas as noites;
acordou de dia, quando já cantavam os galos, e acordado viu que os outros ou dormiam ou estavam
ausentes; Agatão porém, Aristófanes e Sócrates eram os únicos que ainda estavam despertos, e bebiam
de uma grande taça que passavam da esquerda para a direita. Sócrates conversava com eles; dos
pormenores da conversa disse Aristodemo que não se lembrava - pois não assistira ao começo e ainda
estava sonolento - em resumo porém, disse ele, forçava-os Sócrates a admitir que é de um mesmo
homem o saber fazer uma comédia e uma tragédia, e que aquele que com arte é um poeta trágico é
também um poeta cômico. Forçados a isso e sem o seguir com muito rigor eles cochilavam, e primeiro
adormeceu Aristófanes e, quando já se fazia dia, Agatão. Sócrates então, depois de acomodá-los ao leito,
levantou-se e partiu; Aristodemo, como costumava, acompanhou-o; chegado ao Liceu ele asseou-se e,
como em qualquer outra ocasião, passou o dia inteiro, depois do que, à tarde, foi repousar em casa.
APOLODORO
- Creio que a respeito do que quereis saber não estou sem preparo. Com efeito, subia eu há pouco à
cidade, vindo de minha casa em Falero, quando um conhecido atrás de mim avistou-me e de longe me
chamou, exclamando em tom de brincadeira: “Falerino! Eh, tu, Apolodoro! Não me esperas?” Parei e
esperei. E ele disse-me: “Apolodoro, há pouco mesmo eu te procurava, desejando informarme
do
encontro de Agatão, Sócrates, Alcibíades, e dos demais que então assistiram ao banquete, e saber dos
seus discursos sobre o amor, como foram eles. Contou-mos uma outra pessoa que os tinha ouvido de
Fênix, o filho de Filipe, e que disse que também tu sabias. Ele porém nada tinha de claro a dizer.
Conta-me então, pois és o mais apontado a relatar as palavras do teu companheiro. E antes de tudo,
continuou, dize-me se tu mesmo estiveste presente àquele encontro ou não.” E eu respondi-lhe: “É
muitíssimo prováve1 que nada de claro te contou o teu narrador, se presumes que foi há pouco que se
realizou esse encontro de que me falas, de modo a também eu estar presente. Presumo, sim, disse ele. De
onde, ó Glauco?, tornei-lhe. Não sabes que há muitos anos Agatão não está na terra, e desde que eu
freqüento Sócrates e tenho o cuidado de cada dia saber o que ele diz ou faz, ainda não se passaram três
anos? Anteriormente, rodando ao acaso e pensando que fazia alguma coisa, eu era mais miseráve1 que
qualquer outro, e não menos que tu agora, se crês que tudo se deve fazer de preferência à filosofia”. “Não
fiques zombando, tornou ele, mas antes dize-me quando se deu esse encontro”. “Quando éramos crianças
ainda, respondi-lhe, e com sua primeira tragédia Agatão vencera o concurso, um dia depois de ter
sacrificado pela vitória, ele e os coristas. Faz muito tempo então, ao que parece, disse ele. Mas quem te
contou? O próprio Sócrates? Não, por Zeus, respondi-lhe, mas o que justamente contou a Fênix. Foi um
certo Aristodemo, de Cidateneão, pequeno, sempre descalço; ele assistira à reunião, amante de Sócrates
que era, dos mais fervorosos a meu ver. Não deixei todavia de interrogar o próprio Sócrates sobre a
narração que lhe ouvi, e este me confirmou o que o outro me contara. Por que então não me contaste?
tornou-me ele; perfeitamente apropriado é o caminho da cidade a que falem e ouçam os que nele
transitam.”
E assim é que, enquanto caminhávamos, fazíamos nossa conversa girar sobre isso, de modo que, como
disse ao início, não me encontro sem preparo. Se portanto é preciso que também a vós vos conte, devo
fazê-1o. Eu, aliás, quando sobre filosofia digo eu mesmo algumas palavras ou as ouço de outro, afora o
proveito que creio tirar, alegro-me ao extremo; quando, porém, se trata de outros assuntos, sobretudo dos
vossos, de homens ricos e negociantes, a mim mesmo me irrito e de vós me apiedo, os meus
companheiros, que pensais fazer algo quando nada fazeis. Talvez também vós me considereis infeliz, e
creio que é verdade o que presumis; eu, todavia, quanto a vós, não presumo, mas bem sei.
COMPANHEIRO
- És sempre o mesmo, Apolodoro! Sempre te estás maldizendo, assim como aos outros; e me pareces que
assim sem mais consideras a todos os outros infelizes, salvo Sócrates, e a começar por ti mesmo. Donde
é que pegaste este apelido de mole, não sei eu; pois em tuas conversas és sempre assim, contigo e com os
outros esbravejas, exceto com Sócrates.
APOLODORO
- Caríssimo, e é assim tão evidente que, pensando desse modo tanto de mim como de ti, estou eu
delirando e desatinando?
COMPANHEIRO
- Não vale a pena, Apolodoro, brigar por isso agora; ao contrário, o que eu te pedia, não deixes de
fazê-lo; conta quais foram os discursos.
APOLODORO
- Foram eles em verdade mais ou menos assim... Mas antes é do começo, conforme me ia contando
Aristodemo, que também eu tentarei contar-vos.
Disse ele que o encontrara Sócrates, banhado e calçado com as sandálias, o que poucas vezes fazia;
perguntou-lhe então onde ia assim tão bonito.
Respondeu-lhe Sócrates: - Ao jantar em casa de Agatão. Ontem eu o evitei, nas cerimônias da vitória, por
medo da multidão; mas concordei em comparecer hoje. E eis por que me embelezei assim, a fim de ir
belo à casa de um belo. E tu - disse ele - que tal te dispores a ir sem convite ao jantar?
- Como quiseres - tomou-lhe o outro.
- Segue-me, então - continuou Sócrates - e estraguemos o provérbio, alterando-o assim: “A festins de
bravos, bravos vão livremente.” Ora, Homero parece não só estragar mas até desrespeitar este provérbio;
pois tendo feito de Agamenão um homem excepcionalmente bravo na guerra, e de Menelau um “mole
lanceiro”,
no momento em que Agamenão fazia um sacrifício e se banqueteava, ele imaginou Menelau
chegado sem convite, um mais fraco ao festim de um mais bravo.
Ao ouvir isso o outro disse: - É provável, todavia, ó Sócrates, que não como tu dizes, mas como Homero,
eu esteja para ir como um vulgar ao festim de um sábio, sem convite. Vê então, se me levas, o que deves
dizer por mim, pois não concordarei em chegar sem convite, mas sim convidado por ti.
- Pondo-nos os dois a caminho - disse Sócrates - decidiremos o que dizer. Avante!
Após se entreterem em tais conversas, dizia Aristodemo, eles partem. Sócrates então, como que
ocupando o seu espírito consigo mesmo, caminhava atrasado, e como o outro se detivesse para
aguardá-lo, ele lhe pede que avance. Chegado à casa de Agatão, encontra a porta aberta e aí lhe ocorre,
dizia ele, um incidente cômico. Pois logo vem-lhe ao encontro, lá de dentro, um dos servos, que o leva
onde se reclinavam os outros, e assim ele os encontra no momento de se servirem; logo que o viu,
Agatão exclamou: - Aristodemo! Em boa hora chegas para jantares conosco! Se vieste por algum outro
motivo, deixa-o para depois, pois ontem eu te procurava para te convidar e não fui capaz de te ver. Mas...
e Sócrates, como é que não no-lo trazes?
- Voltando-me então - prosseguiu ele - em parte alguma vejo Sócrates a me seguir; disse-lhe eu então que
vinha com Sócrates, por ele convidado ao jantar.
- Muito bem fizeste - disse Agatão; - mas onde está esse homem?
- Há pouco ele vinha atrás de mim; eu próprio pergunto espantado onde estaria ele.
- Não vais procurar Sócrates e trazê-lo aqui, menino? - exclamou Agatão. - E tu, Aristodemo, reclina-
te
ao lado de Erixímaco.
Enquanto o servo lhe faz ablução para que se ponha à mesa, vem um outro anunciar: - Esse Sócrates
retirou-se em frente dos vizinhos e parou; por mais que eu o chame não quer entrar.
- É estranho o que dizes - exclamou Agatão; - vai chamá-lo! E não mo largues!
Disse então Aristodemo: Mas não! Deixai-o! É um hábito seu esse: às vezes retira-se onde quer que se
encontre, e fica parado. Virá logo porém, segundo creio. Não o incomodeis portanto,
mas deixai-o.
- Pois bem, que assim se faça, se é teu parecer - tornou Agatão. - E vocês, meninos, atendam aos
convivas. Vocês bem servem o que lhes apraz, quando ninguém os vigia, o que jamais fiz; agora
portanto, como se também eu fosse por vocês convidado ao jantar, como estes outros, sirvam-nos a fim
de que os louvemos.
- Depois disso - continuou Aristodemo - puseram-se a jantar, sem que Sócrates entrasse. Agatão muitas
vezes manda chamá-lo, mas o amigo não o deixa. Enfim ele chega, sem ter demorado muito como era
seu costume, mas exatamente quando estavam no meio da refeição. Agatão, que se encontrava reclinado
sozinho no último leito, exclama: — Aqui, Sócrates! Reclina-te ao meu lado, a fim de que ao teu contato
desfrute eu da sábia idéia que te ocorreu em frente de casa. Pois é evidente que a encontraste, e que a
tens, pois não terias desistido antes.
Sócrates então senta-se e diz: - Seria bom, Agatão, se de tal natureza fosse a sabedoria que do mais cheio
escorresse ao mais vazio, quando um ao outro nos tocássemos, como a água dos copos que pelo fio de lã
escorre do mais cheio ao mais vazio. Se é assim também a sabedoria, muito aprecio reclinar-me ao teu
lado, pois creio que de ti serei cumulado com uma vasta e bela sabedoria. A minha seria um tanto
ordinária, ou mesmo duvidosa como um sonho, enquanto que a tua é brilhante e muito desenvolvida, ela
que de tua mocidade tão intensamente brilhou, tornando-se anteontem manifesta a mais de trinta mil
gregos que a testemunharam.
- És um insolente, ó Sócrates - disse Agatão. - Quanto a isso, logo mais decidiremos eu e tu da nossa
sabedoria, tomando Dioniso por juiz; agora porém, primeiro apronta-te para o jantar.
- Depois disso - continuou Aristodemo - reclinou-se Sócrates e jantou como os outros; fizeram então
libações e, depois dos hinos ao deus e dos ritos de costume, voltam-se à bebida.
Pausânias então começa
a falar mais ou menos assim: - Bem, senhores, qual o modo mais cômodo de bebermos? Eu por mim
digo-vos que estou muito indisposto com a bebedeira de ontem, e preciso tomar fôlego - e creio que
também a maioria dos senhores, pois estáveis lá; vede então de que modo poderíamos beber o mais
comodamente possível.
Aristófanes disse então: - É bom o que dizes, Pausânias, que de qualquer modo arranjemos um meio de
facilitar a bebida, pois também eu sou dos que ontem nela se afogaram.
Ouviu-os Erixímaco, o filho de Acúmeno, e lhes disse: - Tendes razão! Mas de um de vós ainda preciso
ouvir como se sente para resistir à bebida; não é, Agatão?
- Absolutamente - disse este - também eu não me sinto capaz.
- Uma bela ocasião seria para nós, ao que parece - continuou Erixímaco - para mim, para Aristodemo,
Fedro e os outros, se vós os mais capazes
de beber desistis agora; nós, com efeito, somos sempre
incapazes; quanto a Sócrates, eu o excetuo do que digo, que é ele capaz de ambas as coisas e se
contentará com o que quer que fizermos. Ora, como nenhum dos presentes parece disposto a beber muito
vinho, talvez, se a respeito do que é a embriaguez eu dissesse o que ela é, seria menos desagradável. Pois
para mim eis uma evidência que me veio da prática da medicina: é esse um mal terrível para os homens,
a embriaguez; e nem eu próprio desejaria beber muito nem a outro eu o aconselharia, sobretudo a quem
está com ressaca da véspera.
- Na verdade - exclamou a seguir Fedro de Mirrinote - eu costumo dar-te atenção, principalmente em
tudo que dizes de medicina; e agora, se bem decidirem, também estes o farão. Ouvindo isso, concordam
todos em não passar a reunião embriagados, mas bebendo cada um a seu bel-prazer.
- Como então - continuou Erixímaco - é isso que se decide, beber cada um quanto quiser, sem que nada
seja forçado, o que sugiro então é que mandemos embora a flautista que acabou de chegar, que ela vá
flautear para si mesma, se quiser, ou para as mulheres lá dentro; quanto a nós, com discursos devemos
fazer nossa reunião hoje; e que discursos - eis o que, se vos apraz, desejo propor-vos.
Todos então declaram que lhes apraz e o convidam a fazer a proposição. Disse então Erixímaco: - O
exórdio de meu discurso é como a Melanipa de Eurípides; pois não é minha, mas aqui de Fedro a história
que vou dizer. Fedro, com efeito, freqüentemente me diz irritado: - Não é estranho, Erixímaco, que para
outros deuses haja hinos e peãs, feitos pelos poetas, enquanto que ao Amor todavia, um deus tão
venerável e tão grande, jamais um só dos poetas que tanto se engrandeceram fez sequer um encômio? Se
queres, observa também os bons sofistas: a Hércules e a outros eles compõem louvores em prosa, como o
excelente Pródico - e isso é menos de admirar, que eu já me deparei com o livro de um sábio em que o
sal recebe um admirável elogio, por sua utilidade; e outras coisas desse tipo em grande número poderiam
ser elogiadas; assim portanto, enquanto em tais ninharias despendem tanto esforço, ao Amor nenhum
homem até o dia de hoje teve a coragem de ce1ebrá-lo condignamente, a tal ponto é negligenciado um
tão grande deus! Ora, tais palavras parece que Fedro as diz com razão. Assim, não só eu desejo
apresentar-lhe a minha quota e satisfazê-lo como ao mesmo tempo, parece-me que nos convém, aqui
presentes, venerar o deus. Se então também a vós vos parece assim, poderíamos muito bem entreter
nosso tempo em discursos; acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso
de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, já que está na ponta e é o
pai da idéia.
- Ninguém contra ti votará, ó Erixímaco - disse Sócrates. - Pois nem certamente me recusaria eu, que
afirmo em nada mais ser entendido senão nas questões de amor, nem sem dúvida Agatão e Pausânias,
nem tampouco Aristófanes, cuja ocupação é toda em tomo de Dioniso e de Afrodite, nem qualquer outro
destes que estou vendo aqui. Contudo, não é igual a situação dos que ficamos nos últimos lugares;
todavia, se os que estão antes falarem de modo suficiente e belo, bastará. Vamos pois, que em boa sorte
comece Fedro e faça o seu elogio do Amor.
Estas palavras tiveram a aprovação de todos os outros, que também aderiram
às exortações de Sócrates.
Sem dúvida, de tudo que cada um deles disse, nem Aristodemo se lembrava bem, nem por minha vez eu
me lembro de tudo o que ele disse; mas o mais importante, e daqueles que me pareceu que valia a pena
lembrar, de cada um deles eu vos direi o seu discurso.
Primeiramente, tal como agora estou dizendo, disse ele que Fedro começou a falar mais ou menos desse
ponto, “que era um grande deus o Amor, e admirado entre homens e deuses, por muitos outros títulos e
sobretudo
por sua origem. Pois o ser entre os deuses o mais antigo é honroso, dizia ele, e a prova disso é
que genitores do Amor não os há, e Hesíodo afirma que primeiro nasceu o Caos -
... e só depois
Terra de largos seios, de tudo assento sempre certo, e Amor...
Diz ele então que, depois do Caos foram estes dois que nasceram, Terra e Amor. E Parmênides diz da sua
origem
bem antes de todos os deuses pensou em Amor.
E com Hesíodo também concorda Acusilau. Assim, de muitos lados se reconhece que Amor é entre os
deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens. Não sei eu, com efeito,
dizer que haja maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um amante, do
que o seu bem-amado. Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão
prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a
riqueza, nem nada mais, como o amor. A que é então que me refiro? À vergonha do que é feio e ao
apreço do que é belo. Não é com efeito possível, sem isso, nem cidade nem indivíduo produzir grandes e
belas obras. Afirmo eu então que todo homem que ama, se fosse descoberto a fazer um ato vergonhoso,
ou a sofrê-lo de outrem sem se defender por covardia, visto pelo pai não se envergonharia tanto, nem
pelos amigos nem por ninguém mais, como se fosse visto pelo bem-amado. E isso mesmo é o que
também no amado nós notamos, que é sobretudo diante dos amantes que ele se envergonha, quando
surpreendido em algum ato vergonhoso. Se por conseguinte algum meio ocorresse de se fazer uma
cidade ou uma expedição de amantes e de amados, não haveria melhor maneira de a constituírem senão
afastando-se eles de tudo que é feio e porfiando entre si no apreço à honra; e quando lutassem um ao lado
do outro, tais soldados venceriam,
por poucos que fossem, por assim dizer todos os homens. Pois um
homem que está amando, se deixou seu posto ou largou suas armas, aceitaria
menos sem dúvida a idéia
de ter sido visto pelo amado do que por todos os outros, e a isso preferiria muitas vezes morrer. E quanto
a abandonar o amado ou não socorrê-lo em perigo, ninguém há tão ruim que o próprio Amor não o torne
inspirado para a virtude, a ponto de ficar ele semelhante ao mais generoso de natureza; e sem mais
rodeios, o que disse Homero “do ardor que a alguns heróis inspira o deus”, eis o que o Amor dá aos
amantes, como um dom emanado de si mesmo.
E quanto a morrer por outro, só o consentem os que amam, não apenas os homens, mas também as
mulheres. E a esse respeito a filha de Pélias, Alceste, dá aos gregos uma prova cabal em favor dessa
afirmativa, ela que foi a única a consentir em morrer pelo marido, embora tivesse este pai e mãe, os quais
ela tanto excedeu na afeição do seu amor que os fez aparecer como estranhos ao filho, e parentes apenas
de nome; depois de praticar ela esse ato, tão belo pareceu ele não só aos homens mas até aos deuses que,
embora muitos tenham feito muitas ações belas, foi a um bem reduzido número que os deuses
concederam esta honra de fazer do Hades subir novamente
sua alma, ao passo que a dela eles fizeram
subir, admirados do seu gesto; é assim que até os deuses honram ao máximo o zelo e a virtude no amor.
A Orfeu, o filho de Eagro, eles o fizeram voltar sem o seu objetivo, pois foi um espectro o que eles lhe
mostraram
da mulher a que vinha, e não lha deram, por lhes parecer que ele se acovardava, citaredo que
era, e não ousava por seu amor morrer como Alceste, mas maquinava um meio de penetrar vivo no
Hades. Foi realmente
por isso que lhe fizeram justiça, e determinaram que sua morte ocorresse pelas
mulheres; não o honraram como a Aquiles, o filho de Tétis, nem o enviaram às ilhas dos
bem-aventurados; que aquele, informado pela mãe de que morreria se matasse Heitor, enquanto que se o
não matasse voltaria à pátria onde morreria velho, teve a coragem de preferir, ao socorrer seu amante
Pátroclo e vingá-lo, não apenas morrer por ele mas sucumbir à sua morte; assim é que, admirados a mais
não poder, os deuses excepcionalmente o honraram, porque em tanta conta ele tinha o amante. Que
Ésquilo sem dúvida fala à toa, quando afirma que Aquiles era amante de Pátroclo, ele que era mais belo
não somente do que este como evidentemente do que todos os heróis, e ainda imberbe, e além disso
muito mais novo, como diz Homero. Mas com efeito, o que realmente mais admiram e honram os deuses
é essa virtude que se forma em torno do amor, porém mais ainda admiram-na e apreciam e recompensam
quando é o amado que gosta do amante do que quando é este daquele. Eis por que a Aquiles eles
honraram mais do que a Alceste, enviando-o às ilhas dos bem-aventurados.
Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a
aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte.”
De Fedro foi mais ou menos este o discurso que pronunciou, no dizer de Aristodemo; depois de Fedro
houve alguns outros de que ele não se lembrava bem, os quais deixou de lado, passando a contar o de
Pausânias. Disse este: “Não me parece bela, ó Fedro, a maneira como nos foi proposto o discurso, essa
simples prescrição de um elogio ao Amor. Se, com efeito, um fosse o Amor, muito bem estaria; na
realidade porém, não é ele um só; e não sendo um só, é mais acertado primeiro dizer qual o que se deve
elogiar. Tentarei eu portanto corrigir este senão, e primeiro dizer qual o Amor que se deve elogiar, depois
fazer um elogio digno do deus. Todos, com efeito, sabemos que sem Amor não há Afrodite. Se portanto
uma só fosse esta, um só seria o Amor; como porém são duas, é forçoso que dois sejam também os
Amores. E como não são duas deusas? Uma, a mais velha sem dúvida, não tem mãe e é filha de Urano, e
a ela é que chamamos de Urânia, a Celestial; a mais nova, filha de Zeus e de Dione, chamamo-la de
Pandêmia, a Popular. É forçoso então que também o Amor, coadjuvante de uma, se chame corretamente
Pandêmio, o Popular, e o outro Urânio, o Celestial. Por conseguinte, é sem dúvida preciso louvar todos
os deuses, mas o dom que a um e a outro coube deve-se
procurar dizer. Toda ação, com efeito, é assim
que se apresenta: em si mesma, enquanto simplesmente praticada, nem é bela nem feia. Por exemplo, o
que agora nós fazemos, beber, cantar, conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira
como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio. Assim é
que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar
belamente.
Ora pois, o Amor de Afrodite Pandêmia é realmente popular e faz o que lhe ocorre; é a ele que os
homens vulgares amam. E amam tais pessoas, primeiramente não menos as mulheresque os jovens, e
depois o que neles amam é mais o corpo que a alma, e ainda dos mais desprovidos de inteligência, tendo
em mira apenas o efetuar o ato, sem se preocupar se é decentemente
ou não; daí resulta então que eles
fazem o que lhes ocorre, tanto o que é bom como o seu contrário. Trata-se com efeito do amor
proveniente da deusa que é mais jovem que a outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho.
O outro porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da fêmea mas só do macho - e é este o
amor aos jovens - e depois é a mais velha, isenta de violência; daí então é que se voltam ao que é
másculo os inspirados deste amor, afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais
inteligência. E ainda, no próprio amor aos jovens poder-se-iam reconhecer os que estão movidos
exclusivamente por esse tipo de amor;não amam eles, com efeito, os meninos, mas os que já começam a
ter juízo, o que se dá quando lhes vêm chegando as barbas. Estão dispostos, penso eu, os que começam
desse ponto, a amar para acompanhar toda a vida e viver em comum, e não a enganar e, depois de tomar
o jovem em sua inocência e ludibriá-lo, partir à procura de outro. Seria preciso haver uma lei proibindo
que se amassem os meninos, a fim de que não se perdesse na incerteza tanto esforço; pois é na verdade
incerto o destino dos meninos, a que ponto do vicio ou da virtude eles chegam em seu corpo e sua alma.
Ora, se os bons amantes a si mesmos se impõem voluntariamente esta lei, devia-
se também a estes
amantes populares obrigá-los a lei semelhante, assim como, com as mulheres de condição livre,
obrigamo-las na medida do possível a não manter relações amorosas. São estes, com efeito, os que
justamente
criaram o descrédito, a ponto de alguns ousarem dizer que é vergonhoso o aquiescer aos
amantes; e assim o dizem porque são estes os que eles consideram, vendo o seu despropósito e
desregramento, pois não é sem dúvida quando feito com moderação e norma que um ato, seja qual for,
incorreria em justa censura.
Aliás, a lei do amor nas demais cidades é fácil de entender, pois é simples a sua determinação; aqui
porém ela é complexa. Em Élida, com efeito, na Lacedemônia, na Beócia, e onde não se saiba falar,
simplesmente se estabeleceu que é belo aquiescer aos amantes, e ninguém, jovem ou velho, diria que é
feio, a fim de não terem dificuldades, creio eu, em tentativas de persuadir os jovens com a palavra,
incapazes que são de falar; na Jônia, porém, e em muitas outras partes é tido como feio, por quantos
habitam sob a influência dos bárbaros. Entre os bárbaros, com efeito, por causa das tiranias, é uma coisa
feia esse amor, justamente como o da sabedoria e da ginástica; é que, imagino, não aproveita aos seus
governantes que nasçam grandes idéias entre os governados, nem amizades e associações inabaláveis, o
que justamente, mais do que qualquer outra coisa, costuma o amor inspirar. Por experiência aprenderam
isto os tiranos desta cidade; pois foi o amor de Aristogitão e a amizade de Harmódio que, afirmando-se,
destruíram-lhes o poder. Assim, onde se estabeleceu que é feio o aquiescer aos amantes, é por defeito dos
que o estabeleceram que assim fica, graças à ambição dos governantes e à covardia dos governados; e
onde simplesmente se determinou que é belo, foi em conseqüência da inércia dos que assim
estabeleceram. Aqui porém, muito mais bela que estas é a norma que se instituiu e, como eu disse, não é
fácil de entender. A quem, com efeito, tenha considerado que se diz ser mais belo amar claramente que
às ocultas, e sobretudo os mais nobres e os melhores, embora mais feios que outros; que por outro lado o
encorajamento dado por todos aos amantes é extraordinário e não como se estivesse a fazer algum ato
feio, e se fez ele uma conquista parece belo o seu ato, se não, parece feio; e ainda, que em sua tentativa
de conquista deu a lei ao amante a possibilidade de ser louvado na prática de atos extravagantes, os quais
se alguém ousasse cometer em vista de qualquer outro objetivo e procurando fazer qualquer outra coisa
fora isso, colheria as maiores censuras da filosofia -- pois se, querendo de uma pessoa ou obter dinheiro
ou assumir um comando ou conseguir qualquer outro poder, consentisse alguém em fazer justamente
o
que fazem os amantes para com os amados, fazendo em seus pedidos
súplicas e prosternações, e em
suas juras protestando deitar-se às portas, e dispondo-se a subserviências a que se não sujeitaria nenhum
servo, seria impedido de agir desse modo, tanto pelos amigos como pelos inimigos, uns incriminando-o
de adulação e indignidade, outros admoestando-o e envergonhando-se de tais atos — ao amante porém
que faça tudo isso acresce-lhe a graça, e lhe é dado pela lei que ele o faça sem descrédito, como se
estivesse praticando uma ação belíssima; e o mais estranho é que, como diz o povo, quando ele jura, só
ele tem o perdão dos deuses se perjurar pois juramento de amor dizem que não é juramento, e assim tanto
os deuses como os homens deram toda liberdade ao amante, como diz a lei daqui - por esse lado então
poder-se-ia pensar que se considera inteiramente belo nesta cidade não só o fato de ser amante como
também o serem os amados amigos dos amantes. Quando porém, impondo-lhes um pedagogo, os pais
não permitem aos amados que conversem com os amantes, e ao pedagogo é prescrita essa ordem, e ainda
os camaradas e amigos injuriam se vêm que tal coisa está ocorrendo, sem que a esses injuriadores
detenham os mais velhos ou os censurem por estarem falando sem acerto, depois de por sua vez atentar a
tudo isso, poderia alguém julgar ao contrário que se considera muito feio aqui esse modo de agir. O que
há porém é, a meu ver, o seguinte: não é isso uma coisa simples, o que justamente
se disse desde o
começo, que não é em si e por si nem belo nem feio, mas se decentemente praticado é belo, se
indecentemente, feio. Ora, é indecentemente quando é a um mau e de modo mau que se aquiesce, e
decentemente
quando é a um bom e de um modo bom. E é mau aquele amante popular, que ama o corpo
mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante. Com efeito,
ao mesmo tempo que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava, “alça ele o seu vôo”, sem respeito a
muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a
vida, porque se fundiu com o que é constante. Ora, são esses dois tipos de amantes que pretende a nossa
lei provar bem e devidamente, e que a uns se aquiesça e dos outros se fuja. Por isso é que uns ela exorta a
perseguir e outros a evitar, arbitrando e aferindo qual é porventura o tipo do amante e qual o do amado.
Assim é que, por esse motivo, primeiramente o se deixar conquistar é tido como feio, a fim de que possa
haver tempo, que bem parece o mais das vezes ser uma excelente prova; e depois o deixar-se conquistar
pelo dinheiro e pelo prestigio político é tido como feio, quer a um mau trato nos assustemos sem reagir,
quer beneficiados em dinheiro ou em sucesso político não os desprezemos; nenhuma dessas vantagens,
com efeito, parece firme ou constante, afora o fato de que delas nem mesmo se pode derivar uma
amizade nobre. Um só caminho então resta à nossa norma, se deve o bem-amado decentemente aquiescer
ao amante. É com efeito norma entre nós que, assim como para os amantes, quando um deles se presta a
qualquer servidão ao amado, não é isso adulação nem um ato censurável, do mesmo modo também só
outra única servidão voluntária resta, não sujeita a censura: a que se aceita pela virtude. Na verdade,
estabeleceu-se entre nós que, se alguém quer servir a um outro por julgar que por ele se tornará melhor,
ou em sabedoria ou em qualquer outra espécie de virtude, também esta voluntária servidão não é feia
nem é uma adulação. É preciso então congraçar num mesmo objetivo essas duas normas, a do amor aos
jovens e a do amor ao saber e às demais virtudes, se deve dar-se o caso de ser belo o aquiescer o amado
ao amante. Quando com efeito ao mesmo porto chegam amante e amado, cada um com a sua norma, um
servindo ao amado que lhe aquiesce, em tudo que for justo servir, e o outro ajudando ao que o está
tornando sábio e bom, em tudo que for justo ajudar, o primeiro em condições de contribuir para a
sabedoria e demais virtudes, o segundo em precisão de adquirir para a sua educação e demais
competência, só então, quando ao mesmo objetivo convergem essas duas normas, só então é que coincide
ser belo o aquiescer o amado ao amante e em mais nenhuma outra ocasião. Nesse caso, mesmo o ser
enganado não é nada feio; em todos os outros casos porém é vergonhoso, quer se seja enganado, quer
não. Se alguém com efeito, depois de aquiescer a um amante, na suposição de ser este rico e em vista de
sua riqueza, fosse a seguir enganado e não obtivesse vantagens pecuniárias, por se ter revelado pobre o
amante, nem por isso seria menos vergonhoso; pois parece tal tipo revelar justamente o que tem de seu,
que pelo dinheiro ele serviria em qualquer negócio a qualquer um, e isso não é belo. Pela mesma razão,
também se alguém, tendo aquiescido a um amante considerado bom, e para se tornar ele próprio melhor
através da amizade do amante, fosse a seguir enganado, revelada a maldade daquele e sua carência de
virtude, mesmo assim belo seria o engano; pois também nesse caso parece
este ter deixado presente sua
própria tendência: pela virtude e por se tornar melhor, a tudo ele se disporia em favor de qualquer um, e
isso é ao contrário o mais belo de tudo; assim, em tudo por tudo é belo aquiescer em vista da virtude.
Este é o amor da deusa celeste, ele mesmo celeste e de muito valor para a cidade e os cidadãos, porque
muito esforço ele obriga a fazer pela virtude tanto ao próprio amante como ao amado; os outros porém
são todos da outra deusa, da popular. É essa, ó Fedro, concluiu ele, a contribuição que, como de
improviso, eu te apresento sobre o Amor”.
Na pausa de Pausânias - pois assim me ensinam os sábios a falar, em termos iguais - disse Aristodemo
que devia falar Aristófanes, mas tendo-lhe ocorrido, por empanturramento ou por algum outro motivo,
um acesso de soluço, não podia ele falar; mas disse ele ao médico Erixímaco, que se reclinava logo
abaixo dele: - Ó Erixímaco, és indicado para ou fazer parar o meu soluço ou falar em meu lugar, até que
eu possa parar com ele. E Erixímaco respondeu-lhe:
- Farei as duas coisas: falarei em teu lugar e tu, quando acabares com isso, no meu. E enquanto eu estiver
falando, vejamos se, relendo tu o fôlego por muito tempo, quer parar o teu soluço; serão, gargareja com
água. Se então ele é muito forte, toma algo com que possas coçar o nariz e espirra; se fizeres isso duas ou
três vezes, por mais forte que seja, ele cessará. - Não começarás primeiro o teu discurso, disse
Aristófanes; que eu por mim é o que farei.
Disse então Erixímaco: “Parece-me em verdade ser necessário, uma vez que Pausânias, apesar de se ter
lançado bem ao seu discurso, não o rematou convenientemente, que eu deva tentar pôr-lhe um remate.
Com efeito, quanto a ser duplo o Amor, parece-me que foi uma bela distinção; que porém não está ele
apenas nas almas dos homens, e para com os belos jovens, mas também nas outras partes, e para com
muitos outros objetos, nos corpos de todos os outros animais, nas plantas da terra e por assim dizer em
todos os seres é o que creio ter constatado pela prática da medicina, a nossa arte; grande e admirável é o
deus, e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coisas humanas como entre as divinas. Ora, eu
começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arte. A natureza dos
corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um
estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante. Um portanto é o amor
no que é sadio, e outro no que é mórbido. E então, assim como há pouco Pausânias dizia que aos homens
bons é belo aquiescer, e aos intemperantes é feio, também nos próprios corpos, aos elementos bons de
cada corpo e sadios é belo o aquiescer e se deve, e a isso é que se o nome de medicina, enquanto que aos
maus e mórbidos é feio e se deve contrariar, se se vai ser um técnico. É com efeito a medicina, para falar
em resumo, a ciência dos fenômenos de amor, próprios ao corpo, no que se refere à repleção e à
evacuação, e o que nestes fenômenos reconhece o belo amor e o feio é o melhor médico; igualmente,
aquele que faz com que eles se transformem, de modo a que se adquira um em vez do outro, e que sabe
tanto suscitar amor onde não há mas deve haver, como eliminar quando há, seria um bom profissional. É
de fato preciso ser capaz de fazer com que os elementos mais hostis no corpo fiquem amigos e se amem
mutuamente. Ora, os mais hostis são os mais opostos, como o frio ao quente, o amargo ao doce, o seco
ao úmido, e todas as coisas desse tipo; foi por ter entre elas suscitado amor e concórdia que o nosso
ancestral Asclépio, como dizem estes poetas aqui e eu acredito, constituiu a nossa arte. A medicina
portanto, como estou dizendo, é toda ela dirigida nos traços deste deus, assim como também a ginástica e
a agricultura; e quanto à música, é a todos evidente, por pouco que se lhe preste atenção, que ela se
comporta segundo esses mesmos princípios, como provavelmente parece querer dizer Heráclito, que aliás
em sua expressão não é feliz. O um, diz ele com efeito, “discordando em si mesmo, consigo mesmo
concorda, como numa harmonia de arco e lira”. Ora, é grande absurdo dizer que uma harmonia está
discordando ou resulta do que ainda está discordando. Mas talvez o que ele queria dizer era o seguinte,
que do agudo e do grave, antes discordantes e posteriormente
combinados, ela resultou, graças à arte
musical. Pois não é sem dúvida do agudo e do grave ainda em discordância que pode resultar a harmonia;
a harmonia é consonância, consonância é uma certa combinação — e combinação de discordantes,
enquanto discordam, é impossível, e inversamente o que discorda e não combina é impossível
harmonizar —assim como também o ritmo, que resulta do rápido e do certo, antes dissociados e depois
combinados. A combinação em todos esses casos, assim como lá foi a medicina, aqui é a música que
estabelece, suscitando amor e concórdia entre uns e outros; e assim, também a música, no tocante à
harmonia e ao ritmo, é ciência dos fenômenos amorosos. Aliás, na própria constituição de uma harmonia
e de um ritmo não é nada difícil reconhecer os sinais do amor, nem de algum modo há então o duplo
amor; quando porém for preciso utilizar para o homem uma harmonia ou um ritmo, ou fazendo-os, o que
chamam composição, ou usando corretamente da melodia e dos metros já constituídos, o que se chamou
educação, então é que é difícil e que se requer um bom profissional. Pois de novo revém a mesma idéia,
que aos homens moderados, e para que mais moderados se tornem os que ainda não sejam, deve-se
aquiescer e conservar o seu amor, que é o belo, o celestial, o Amor da musa Urânia; o outro, o de
Polímnia, é o popular, que com precaução se deve trazer àqueles a quem se traz, a fim de que se colha o
seu prazer sem que nenhuma intemperança ele suscite, tal como em nossa arte é uma importante tarefa o
servir-se convenientemente dos apetites da arte culinária, de modo a que sem doença se colha o seu
prazer. Tanto na música então, como na medicina e em todas as outras artes, humanas e divinas, na
medida do possível, deve-se conservar um e outro amor; ambos com efeito nelas se encontram. De fato,
até a constituição das estações do ano está repleta desses dois amores, e quando se tomam de um
moderado amor um pelo outro os contrários de que há pouco eu falava, o quente e o frio, o seco e o
úmido, e adquirem uma harmonia e uma mistura razoável, chegam trazendo bonança e saúde aos
homens, aos outros animais e às plantas, e nenhuma ofensa fazem; quando porém é o Amor casado com a
violência que se torna mais forte nas estações do ano, muitos estragos ele faz, e ofensas. Tanto as pestes,
com efeito, costumam resultar de tais causas, como também muitas e várias doenças nos animais como
nas plantas; geadas, granizos e alforras resultam, com efeito, do excesso e da intemperança mútua de tais
manifestações do amor, cujo conhecimento nas translações dos astros e nas estações do ano chama-se
astronomia. E ainda mais, não só todos os sacrifícios, como também os casos a que preside a arte
divinatória — e estes são os que constituem o comércio recíproco dos deuses e dos homens — sobre
nada mais versam senão sobre a conservação e a cura do Amor. Toda impiedade, com efeito, costuma
advir, se ao Amor moderado não se aquiesce nem se lhe tributa honra e respeito em toda ação, e sim ao
outro, tanto no tocante aos pais, vivos e mortos, quanto aos deuses; e foi nisso que se assinou à arte
divinatória o exame dos amores e sua cura, e assim é que por sua vez é a arte divinatória produtora de
amizade entre deuses e homens, graças ao conhecimento
de todas as manifestações de amor que, entre
os homens, se orientam para a justiça divina e a piedade.
Assim, múltiplo e grande, ou melhor, universal é o poder que em geral tem todo o Amor, mas aquele que
em torno do que é bom se consuma com sabedoria e justiça, entre nós como entre os deuses, é o que tem
o máximo poder e toda felicidade nos prepara, pondo-nos em condições de não só entre nós mantermos
convívio e amizade, como também com os que são mais poderosos que nós, os deuses. Em conclusão,
talvez também eu, louvando o Amor, muita coisa estou deixando de lado, não todavia por minha vontade.
Mas se algo omiti, é tua tarefa, ó Aristófanes, completar; ou se um outro modo tens em mente de elogiar
o deus, elogia-o, uma vez que o teu soluço já o fizeste cessar.”
Tendo então tomado a palavra, continuou Aristodemo, disse Aristófanes: - Bem que cessou! Não todavia,
é verdade, antes de lhe ter eu aplicado o espirro, a ponto de me admirar que a boa ordem do corpo
requeira tais ruídos e comichões como é o espirro; pois logo o soluço parou, quando lhe apliquei o
espirro.
E Erixímaco lhe disse: - Meu bom Aristófanes, vê o que fazes. Estás a fazer graça, quando vais falar, e
me forças a vigiar o teu discurso, se porventura
vais dizer algo risível, quando te é permitido falar em
paz.
Aristófanes riu e retomou: - Tens razão, Erixímaco! Fique-me o dito pelo não dito. Mas não me vigies,
que eu receio, a respeito do que vai ser dito, que seja não engraçado o que vou dizer - pois isso seria
proveitoso e próprio da nossa musa - mas ridículo.
- Pois sim! - disse o outro - lançada a tua seta, Aristófanes, pensas em fugir; mas toma cuidado e fala
como se fosses prestar contas. Talvez todavia, se bem me parecer, eu te largarei.
“Na verdade, Erixímaco, disse Aristófanes, é de outro modo que tenho a intenção de falar, diferente do
teu e do de Pausânias. Com efeito, parece-me os homens absolutamente não terem percebido o poder do
amor, que se o percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam, e os maiores sacrifícios lhe
fariam, não como agora que nada disso há em sua honra, quando mais que tudo deve haver. É ele com
efeito o deus mais amigo do homem, protetor e médico desses males, de cuja cura dependeria sem dúvida
a maior felicidade para o gênero humano. Tentarei eu portanto iniciar-vos em seu poder, e vós o
ensinareis aos outros. Mas é preciso primeiro aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes. Com
efeito, nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três
eram os gêneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a
mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era
então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino,
enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra. Depois, inteiriça era a forma de cada
homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto
das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois
rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos
se poderia supor. E quanto ao seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções
que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as
pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros de então,
rapidamente eles se locomoviam em círculo. Eis por que eram três os gêneros, e tal a sua constituição,
porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da
lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção,
por terem semelhantes genitores. Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma
grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses, e o que diz Homero de Efialtes e de
Otes é a eles que se refere, a tentativa de fazer uma escalada ao céu, para investir contra os deuses. Zeus
então e os demais
deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e embaraçavam-se;
não podiam nem matá-los e, após fulminá-los como aos gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça - pois as
honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam — nem permitir-lhes que continuassem
na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que tenho um meio de fazer com que os
homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito,
continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais
úteis para nós, pelo fato de se terem tomado mais numerosos; e andarão eretos, sobre duas pernas. Se
ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse ele, eu os cortarei em dois, e
assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando.” Logo que o disse pôs-se a contar os homens em dois,
como os que cortam as sorvas para a conserva, ou como os que cortam ovos com cabelo; a cada um que
cortava mandava Apolo voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do corte, a fim de que,
contemplando a própria mutilação, fosse mais moderado o homem, e quanto ao mais ele também
mandava curar. Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se
chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente
no
meio do ventre, que é o que chamam umbigo. As outras pregas, numerosas, ele se pôs a polir, e a
articular os peitos, com um instrumento semelhante ao dos sapateiros quando estão polindo na forma as
pregas dos sapatos; umas poucas ele deixou, as que estão à volta do próprio ventre e do umbigo, para
lembrança da antiga condição. Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava
cada um por sua própria metade
e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao
outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer
longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e
com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher - o que agora chamamos
mulher — quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo. Tomado de compaixão, Zeus consegue
outro expediente, e lhes muda o sexo para a frente - pois até então eles o tinham para fora, e geravam e
reproduziam não um no outro, mas na terra, como as cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez
com que através dele se processasse a geração um no outro, o macho na fêmea, pelo seguinte, para que
no enlace, se fosse um homem a encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerassem e se fosse
constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, que pelo menos houvesse saciedade em
seu convívio e pudessem repousar, voltar ao trabalho e ocupar-
se do resto da vida. E então de há tanto
tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza,
em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós portanto é uma
téssera complementar de um homem, porque cortado como os linguados, de um só em dois; e procura
então cada um o seu próprio complemento. Por conseguinte, todos os homens que são um corte do tipo
comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulheres, e a maioria dos adultérios provém deste
tipo, assim como também todas as mulheres que gostam de homens e são adúlteras, é deste tipo que
provêm. Todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirige muito sua atenção aos homens,
mas antes estão voltadas para as mulheres e as amiguinhas provêm deste tipo. E todos os que são corte de
um macho perseguem o macho, e enquanto são crianças, como cortículos do macho, gostam dos homens
e se comprazem em deitar-se com os homens e a eles se enlaçar, e são estes os melhores meninos e
adolescentes, os de natural mais corajoso. Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas
estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade,
porque acolhem o que lhes é semelhante. Uma prova disso é que, uma vez amadurecidos, são os únicos
que chegam a ser homens para a política, os que são desse tipo. E quando se tornam homens, são os
jovens que eles amam, e a casamentos e procriação naturalmente eles não lhes dão atenção, embora por
lei a isso sejam forçados, mas se contentam em passar a vida um com o outro, solteiros. Assim é que, em
geral, tal tipo torna-se amante e amigo do amante, porque
está sempre acolhendo o que lhe é aparentado.
Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como
qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto
de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno
momento. E os que
continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberiam dizer o que querem que lhes
venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual, e que é
porventura em vista disso que um gosta da companhia do outro assim com tanto interesse; ao contrário,
que uma coisa quer a alma de cada um, é evidente, a qual coisa ela não pode dizer, mas adivinha o que
quer e o indica
por enigmas. Se diante deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e com seus
instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um do outro?, e se, diante do seu
embaraço, de novo lhes perguntasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais
possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso
que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos tomeis um só
e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá
no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso
amor, e se vos contentais se conseguirdes isso. Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só
diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito
estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. O motivo disso é
que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se
dá o nome de amor. Anteriormente, como estou dizendo, nós éramos um só, e agora é que, por causa da
nossa injustiça, fomos separados pelo deus, e como o foram os árcades pelos lacedemônios; é de temer
então, se não formos
moderados para com os deuses, que de novo sejamos fendidos em dois, e
perambulemos tais quais os que nas estelas estão talhados de perfil, serrados
na linha do nariz, como os
ossos que se fendem. Pois bem, em vista dessas eventualidades todo homem deve a todos exortar à
piedade para com os deuses, a fim de que evitemos uma e alcancemos a outra, na medida em que o Amor
nos dirige e comanda. Que ninguém em sua ação se lhe oponha - e se opõe todo aquele que aos deuses se
torna odioso - pois amigos do deus e com ele reconciliados descobriremos e conseguiremos o nosso
próprio amado, o que agora poucos fazem. E que não me suspeite Erixímaco, fazendo comédia de meu
discurso, que é a Pausânias e Agatão que me estou referindo talvez também estes se encontrem no
número desses e são ambos de natureza máscula mas eu no entanto estou dizendo a respeito de todos,
homens e mulheres, que é assim que nossa raça se tornaria feliz, se plenamente realizássemos o amor, e o
seu próprio amado cada um encontrasse, tornado à sua primitiva natureza. E se isso é o melhor, é forçoso
que dos casos atuais o que mais se lhe avizinha é o melhor, e é este o conseguir um bem amado de
natureza conforme ao seu gosto; e se disso fôssemos glorificar o deus responsável, merecidamente
glorificaríamos o Amor, que agora nos é de máxima utilidade, levando-nos ao que nos é familiar, e que
para o futuro nos dá as maiores esperanças, se formos piedosos para com os deuses, de restabelecer-nos
em nossa primitiva natureza e, depois de nos curar, fazer-nos bem aventurados e felizes.
Eis, Erixímaco, disse ele, o meu discurso sobre o Amor, diferente do teu. Conforme eu te pedi, não faças
comédia dele, a fim de que possamos ouvir também os restantes, que dirá cada um deles, ou antes cada
um dos dois; pois restam Agatão e Sócrates."
- Bem, eu te obedecerei - tornou-lhe Erixímaco; - e com efeito teu discurso foi para mim de um agradável
teor. E se por mim mesmo eu não soubesse que Sócrates e Agatão são terríveis nas questões do amor,
muito temeria que sentissem falta de argumentos, pelo muito e variado que se disse; de fato porém eu
confio neles.
Sócrates então disse: - É que foi bela, ó Erixímaco, tua competição! Se porém ficasses na situação em
que agora estou, ou melhor, em que estarei, depois que Agatão tiver falado, bem grande seria o teu
temor, e em tudo por tudo estarias como eu agora.
- Enfeitiçar é o que me queres, ó Sócrates, disse-lhe Agatão, a fim de que eu me alvoroce com a idéia de
que o público está em grande expectativa de que eu vá falar bem.
- Desmemoriado eu seria, Agatão - tornou-lhe Sócrates - se depois de ver tua coragem e sobranceria,
quando subias no estrado com os atores e encaraste de frente uma tão numerosa platéia, no momento em
que ias apresentar uma peça tua, sem de modo algum te teres abalado, fosse eu agora imaginar que tu te
alvoroçarias por causa de nós, tão poucos.
- O quê, Sócrates! - exclamou Agatão; - não me julgas sem dúvida tão cheio de teatro que ignore que, a
quem tem juízo, poucos sensatos são mais temíveis que uma multidão insensata!
- Realmente eu não faria bem, Agatão - tornou-lhe Sócrates - se a teu respeito pensasse eu em alguma
deselegância; ao contrário, bem sei que, se te encontrasses com pessoas que considerasses sábias, mais te
preocuparias com elas do que com a multidão. No entanto, é de temer que estas não sejamos nós - pois
nós estávamos lá e éramos da multidão - mas se fosse com outros que te encontrasses, com sábios, sem
dúvida tu te envergonharias deles, se pensasses estar talvez cometendo algum ato que fosse vergonhoso;
senão, que dizes?
- É verdade o que dizes - respondeu-lhe.
- E da multidão não te envergonharias, se pensasses estar fazendo algo vergonhoso?
E eis que Fedro, disse Aristodemo, interrompeu e exclamou: - Meu caro Agatão, se responderes a
Sócrates, nada mais lhe importará do programa, como quer que ande e o que quer que resulte, contanto
que ele tenha com quem dialogue, sobretudo se é com um belo. Eu por mim é sem dúvida com prazer
que ouço Sócrates a conversar, mas é me forçoso cuidar do elogio ao Amor e recolher de cada um de vós
o seu discurso; pague então cada um o que deve ao deus e assim já pode conversar.
- Muito bem, Fedro! exclamou Agatão - nada me impede de falar, pois com Sócrates depois eu poderei
ainda conversar muitas vezes.
“Eu então quero primeiro dizer como devo falar, e depois falar. Parece-me com efeito que todos os que
antes falaram, não era o deus que elogiavam, mas os homens que felicitavam pelos bens de que o deus
lhes é causador; qual porém é a sua natureza, em virtude da qual ele fez tais dons, ninguém o disse. Ora,
a única maneira correta de qualquer elogio a qualquer um é, no discurso, explicar em virtude de que
natureza vem a ser causa de tais efeitos aquele de quem se estiver falando. Assim então com o Amor, é
justo que também nós primeiro o louvemos em sua natureza. tal qual ele é, e depois os seus dons. Digo
eu então que de todos os deuses, que são felizes, é o Amor, se é lícito dizê-lo sem incorrer em vingança,
o mais feliz, porque é o mais belo deles e o melhor. Ora, ele é o mais belo por ser tal como se segue.
Primeiramente, é o mais jovem dos deuses, ó Fedro. E uma grande prova do que digo ele próprio fornece,
quando em fuga foge da velhice, que é rápida evidentemente, e que em todo caso, mais rápida do que
devia, para nós se encaminha. De sua natureza Amor a odeia e nem de longe se lhe aproxima. Com os
jovens ele está sempre em seu convívio e ao seu lado; está certo, com efeito, o antigo ditado, que o
semelhante sempre do semelhante se aproxima. Ora, eu, embora com Fedro concorde em muitos outros
pontos, nisso não concordo, em que Amor seja mais antigo que Crono e Jápeto, mas ao contrário afirmo
ser ele o mais novo dos deuses e sempre jovem, e que as questões entre os deuses, de que falam Hesíodo
e Parmênides, foi por Necessidadee não por Amor que ocorreram, se é verdade o que aqueles diziam; não
haveria, com efeito, mutilações nem prisões de uns pelos outros, e muitas outras violências, se Amor
estivesse entre eles, mas amizade e paz, como agora, desde que Amor entre os deuses reina. Por
conseguinte, jovem ele é, mas além de jovem ele é delicado; falta-lhe porém um poeta como era Homero
para mostrar sua delicadeza de deus. Homero afirma. com efeito, que Ate é uma deusa, e delicada - que
os seus pés em todo caso são delicados quando diz:
seus pés são delicados; pois não sobre o solo
se move, mas sobre as cabeças dos homens ela anda.
Assim, bela me parece a prova com que Homero revela a delicadeza da deusa: não anda ela sobre o que é
duro, mas sobre o que é mole. Pois a mesma prova também nós utilizaremos a respeito do Amor, de que
ele é delicado. Não é com efeito sobre a terra que ele anda, nem sobre cabeças, que não são lá tão moles,
mas no que há de mais brando entre os seres é onde ele anda e reside. Nos costumes, nas almas de deuses
e de homens ele fez sua morada, e ainda, não indistintamente
em todas as almas, mas da que encontre
com um costume rude ele se afasta, e na que o tenha delicado ele habita. Estando assim sempre em
contato, nos pés como em tudo, com os que, entre os seres mais brandos, são os mais brandos,
necessariamente é ele o que há de mais delicado. É então o mais jovem, o mais delicado, e além dessas
qualidades, sua constituição é úmida. Pois não seria ele capaz de se amoldar de todo jeito, nem de por
toda alma primeiramente entrar, despercebido, e depois sair, se fosse ele seco. De sua constituição
acomodada e úmida é uma grande prova sua bela compleição, o que excepcionalmente todos reconhecem
ter o Amor; é que entre deformidade e amor sempre de parte a parte há guerra. Quanto à beleza da sua
tez, o seu viver entre flores bem o atesta; pois no que não floresce, como no que já floresceu, corpo, alma
ou o que quer que seja, não se assenta o Amor, mas onde houver lugar bem florido e bem perfumado, ai
ele se assenta e fica.
Sobre a beleza do deus já é isso bastante, e no entanto ainda muita coisa resta; sobre a virtude de Amor
devo depois disso falar, principalmente que Amor não comete nem sofre injustiça, nem de um deus ou
contra um deus, nem de um homem ou contra um homem. À força, com efeito, nem ele cede, se algo
cede - pois violência não toca em Amor - nem, quando age, age, pois todo homem de bom grado serve
em tudo ao Amor, e o que de bom grado reconhece uma parte a outra, dizem “as leis, rainhas da cidade",
é justo. Além da justiça, da máxima temperança ele compartilha. É com efeito a temperança,
reconhecidamente,
o domínio sobre prazeres e desejos; ora, o Amor, nenhum prazer lhe é predominante;
e se inferiores, seriam
dominados por Amor, e ele os dominaria, e dominando prazeres e desejos seria o
Amor excepcionalmente
temperante. E também quanto à coragem, ao Amor “nem Ares se lhe opõe”.
Com efeito, a Amor não pega Ares, mas Amor a Ares - o de Afrodite,
segundo a lenda - e é mais forte o
que pega do que é pegado: dominando assim o mais corajoso de todos, seria então ele o mais corajoso.
Da justiça portanto, da temperança e da coragem do deus, está dito; da sua sabedoria porém resta dizer; o
quanto possível então deve-se procurar não ser omisso. E em primeiro lugar, para que também eu por
minha vez honre a minha arte como Erixímaco a dele, é um poeta o deus, e sábio, tanto que também a
outro ele o faz; qualquer um em todo caso torna-se poeta, “mesmo que antes seja estranho às Musas”,
desde que lhe toque o Amor. E o que nos cabe utilizar como testemunho de que é um bom poeta o Amor,
em geral em toda criação artísticapois o que não se tem ou o que não se sabe, também a outro não se
poderia dar ou ensinar. E em verdade, a criação dos animais todos, quem contestará que não é sabedoria
do Amor, pela qual nascem e crescem todos os animais? Mas, no exercício das artes, não sabemos
que
aquele de quem este deus se toma mestre acaba cé1ebre e ilustre, enquanto aquele em quem Amor não
toque, acaba obscuro? E quanto à arte do arqueiro, à medicina, à adivinhação, inventou-as Apolo guiado
pelo desejo e pelo amor, de modo que também Apolo seria discípulo do Amor. Assim como também as
Musas nas belas-artes, Hefesto na metalurgia, Atena na tecelagem, e Zeus na arte “de governar os deuses
e os homens”. E dai é que até as questões dos deuses foram regradas,
quando entre eles surgiu Amor,
evidentemente da beleza - pois no feio não se firma Amor -, enquanto que antes, como a princípio disse,
muitos casos terríveis se davam entre os deuses, ao que se diz, porque entre eles a Necessidade reinava;
desde porém que este deus existiu, de se amarem as belas coisas toda espécie de bem surgiu para deuses
e homens.
Assim é que me parece, ó Fedro, que o Amor, primeiramente por ser em si mesmo o mais belo e o
melhor, depois é que é para os outros a causa de outros tantos bens. Mas ocorre-me agora também em
verso dizer alguma coisa, que é ele o que produz
paz entre os homens, e no mar
bonança,
repouso tranqüilo de ventos e
sono na dor.
É ele que nos tira o sentimento de estranheza e nos enche de familiaridade, promovendo todas as
reuniões deste tipo, para mutuamente nos encontrarmos, tornando-se nosso guia nas festas, nos coros, nos
sacrifícios; incutindo brandura e excluindo rudeza; pródigo de bem-querer e incapaz de mal-querer;
propício e bom; contemplado pelos sábios e admirado pelos deuses; invejado pelos desafortunados e
conquistado pelos afortunados; do luxo, do requinte, do brilho, das graças, do ardor e da paixão, pai;
diligente com o que é bom e negligente com o que é mau; no labor, no temor, no ardor da paixão, no teor
da expressão, piloto e combatente, protetor e salvador supremo, adorno de todos os deuses e homens,
guia belíssimo e excelente, que todo homem deve seguir, celebrando-o em belos hinos, e compartilhando
do canto com ele encanta o pensamento de todos os deuses e homens.
Este, ó Fedro, rematou ele, o discurso que de minha parte quero que seja ao deus oferecido, em parte
jocoso, em parte, tanto quanto posso, discretamente sério.”
Depois que falou Agatão, continuou Aristodemo, todos os presentes aplaudiram, por ter o jovem falado à
altura do seu talento e da dignidade do deus. Sócrates então olhou para Erixímaco e lhe disse: -
Porventura, ó filho de Acúmeno, parece-te que não tem nada de temível o temor que de há muito sinto, e
que não foi profético o que há pouco eu dizia, que Agatão falaria maravilhosamente, enquanto que eu me
havia de embaraçar?
- Em parte - respondeu-lhe Erixímaco - parece-me profético o que disseste, que Agatão falaria bem; mas
quanto a te embaraçares, não creio.
- E como, ditoso amigo - disse Sócrates - não vou embaraçar-me, eu e qualquer outro, quando devo falar
depois de proferido um tão belo e colorido
discurso? Não é que as suas demais
partes não sejam
igualmente admiráveis; mas o que está no fim, pela beleza dos termos e das frases, quem não se teria
perturbado ao ouvi-
lo? Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto
proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito,
vinha-me à mente o discurso de Górgias, a porto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que,
concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim
mesmo me fizesse uma pedra, sem voz. Refleti então que estava evidentemente sendo ridículo, quando
convosco concordava em fazer na minha vez, depois de vós, o elogio ao Amor, dizendo ser terrível nas
questões de amor, quando na verdade nada sabia do que se tratava, de como se devia fazer qualquer
elogio. Pois eu achava, por ingenuidade, que se devia dizer a verdade sobre tudo que está sendo elogiado,
e que isso era fundamental, da própria verdade se escolhendo as mais belas manifestações para dispô-las
o mais decentemente
possível; e muito me orgulhava então, como se eu fosse falar bem, como se
soubesse a verdade em qualquer
elogio. No entanto, está aí, não era esse o belo elogio ao que quer que
seja, mas o acrescentam o máximo é coisa, e o mais belamente possível, quer ela seja assim quer não;
quanto a ser falso, não tinha nenhuma importância. Foi com efeito combinado como cada um de nós
entenderia elogiar o Amor, não como cada um o elogiaria. Eis por que, pondo em ação todo argumento,
vós o aplicais ao Amor, e dizeis que ele é tal e causa de tantos bens, a fim de aparecer ele como o mais
belo e o melhor possível, evidentemente aos que o não conhecem - pois não é aos que o conhecem - e eis
que fica belo, sim, e nobre o elogio. Mas é que eu não sabia então o modo de elogiar, e sem saber
concordei, também eu, em elogiá-lo na minha vez: “a língua jurou, mas o meu peito não”; que ela se vá
então. Não vou mais elogiar desse modo, que não o poderia, é certo, mas a verdade sim, se vos apraz,
quero dizer à minha maneira, e não em competição com os vossos discursos, para não me prestar ao riso.
Vê então, Fedro, se por acaso há ainda precisão de um tal discurso, de ouvir sobre o Amor dizer a
verdade, mas com nomes e com a disposição de frases que por acaso me tiver ocorrido.
Fedro então, disse Aristodemo, e os demais presentes pediram-lhe que, como ele próprio entendesse que
devia falar, assim o fizesse.
- Permite-me ainda, Fedro - retornou
Sócrates - fazer umas perguntinhas a Agatão, a fim de que tendo
obtido o seu acordo, eu já possa assim falar.
- Mas sim, permito - disse Fedro. - Pergunta! - E então, disse Aristodemo, Sócrates começou mais ou
menos por esse ponto:
- Realmente, caro Agatão, bem me pareceste iniciar teu discurso, quando dizias que primeiro se devia
mostrar o próprio Amor, qual a sua natureza, e depois as suas obras. Esse começo, muito o admiro.
Vamos então, a respeito do Amor, já que em geral explicaste bem e magnificamente qual é a sua
natureza, dize-me também o seguinte: é de tal natureza o Amor que é amor de algo ou de nada? Estou
perguntando, não se é de uma mãe ou de um pai - pois ridícula seria essa pergunta, se Amor é amor de
um pai ou ele uma mãe - mas é como se, a respeito disso mesmo, de “pai”, eu perguntasse: “Porventura o
pai é pai de algo ou não? Ter-me-ias sem dúvida respondido, se me quisesses dar uma bela resposta, que
é de um filho ou de uma filha que o pai é pai ou não?”
- Exatamente - disse Agatão.
- E também a mãe não é assim?
- Também - admitiu ele.
- Responde-me ainda, continuou Sócrates, mais um pouco, a fim de melhor compreenderes o que quero.
Se eu te perguntasse: “E irmão, enquanto é justamente isso mesmo que é, é irmão de algo ou não?”
- É, sim, disse ele.
- De um irmão ou ele uma irmã, não é? Concordou.
- Tenta então, continuou Sócrates, também a respeito do Amor dizer-me: o Amor é amor de nada ou de
algo?
- De algo, sim.
- Isso então, continuou ele, guarda contigo, lembrando-te de que é que ele é amor; agora dize-me apenas
o seguinte: Será que o Amor, aquilo de que é amor, ele o deseja ou não?
- Perfeitamente - respondeu o outro.
- E é quando tem isso mesmo que deseja e ama que ele então deseja e ama, ou quando não tem?
- Quando não tem, como é bem provável - disse Agatão.
- Observa bem, continuou Sócrates, se em vez de uma probabilidade não é uma necessidade que seja
assim, o que deseja deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente. É espantoso
como me parece, Agatão, ser uma necessidade; e a ti?
- Também a mim - disse ele.
Tens razão. Pois porventura desejaria quem já é grande ser grande, ou quem já é forte ser forte?
- Impossível, pelo que foi admitido.
- Com efeito, não seria carente disso o que justamente é isso.
- É verdade o que dizes.
- Se, com efeito, mesmo o forte quisesse ser forte, continuou Sócrates, e o rápido ser rápido, e o sadio ser
sadio - pois talvez alguém pensasse que nesses e em todos os casos semelhantes os que são tais e têm
essas qualidades desejam o que justamente têm, e é para não nos enganarmos que estou dizendo isso -
ora, para estes, Agatão, se atinas bem, é forçoso que tenham no momento tudo aquilo que tem, quer
queiram, quer não, e isso mesmo, sim, quem é que poderia desejá-lo? Mas quando alguém diz: “Eu,
mesmo sadio, desejo ser sadio, e mesmo rico, ser rico, e desejo isso mesmo que tenho”, poderíamos
dizer-
lhe: “O homem, tu que possuis riqueza, saúde e fortaleza, o que queres é também no futuro possuir
esses bens, pois no momento, quer queiras quer não, tu os tens; observa então se, quando dizes “desejo o
que tenho comigo”, queres dizer outra coisa senão isso: “quero que o que tenho agora comigo, também
no futuro eu o tenha.” Deixaria ele de admitir?
Agatão, dizia Aristodemo, estava de acordo.
Disse então Sócrates: - Não é isso então amar o que ainda não está à mão nem se tem, o querer que, para
o futuro, seja isso que se tem conservado consigo e presente?
- Perfeitamente - disse Agatão.
- Esse então, como qualquer outro que deseja, deseja o que não está a mão nem consigo, o que não tem, o
que não é ele próprio e o de que é carente; tais são mais ou menos as coisas de que há desejo e amor, não
é?
- Perfeitamente - disse Agatão.
- Vamos então, continuou Sócrates, recapitulemos o que foi dito. Não é certo que é o Amor, primeiro de
certas coisas, e depois, daquelas de que ele tem precisão?
- Sim - disse o outro.
- Depois disso então, lembra-te de que é que em teu discurso disseste ser o Amor; se preferes, eu te
lembrarei. Creio, com efeito, que foi mais ou menos assim que disseste, que aos deuses foram arranjadas
suas questões através do amor do que é belo, pois do que é feio não havia amor. Não era mais ou menos
assim que dizias?
- Sim, com efeito - disse Agatão.
- E acertadamente o dizes, amigo, declarou Sócrates; e se é assim, não é certo que o Amor seria da
beleza, mas não da feiúra? Concordou.
- Não está então admitido que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?
- Sim - disse ele.
- Carece então de beleza o Amor, e não a tem?
- É forçoso.
- E então? O que carece de beleza e de modo algum a possui, porventura dizes tu que é belo?
- Não, sem dúvida.
- Ainda admites por conseguinte que o Amor é belo, se isso é assim?
E Agatão: - É bem provável, ó Sócrates, que nada sei do que então disse?
- E no entanto, prosseguiu Sócrates, bem que foi belo o que disseste, Agatão. Mas dize-me ainda uma
pequena coisa: o que é bom não te parece que também é belo?
- Parece-me, sim.
- Se portanto o Amor é carente do que é belo, e o que é bom é belo, também do que é bom seria ele
carente.
- Eu não poderia, ó Sócrates, disse Agatão, contradizer-te; mas seja assim como tu dizes.
- É a verdade, querido Agatão, que não podes contradizer, pois a Sócrates não é nada difícil.
E a ti eu te deixarei agora; mas o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de
Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros — foi ela que uma vez, porque
os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos recuar a doença, e era ela que
me instruía nas questões de amor — o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir—vos,
a partir do que foi admitido por mim e por Agatão, com meus próprios recursos e como eu puder. É de
fato preciso, Agatão, como tu indicaste, primeiro discorrer sobre o próprio Amor, quem é ele e qual a sua
natureza e depois sobre as suas obras. Parece—me então que o mais fácil é proceder como outrora a
estrangeira, que discorria interrogando—me, pois também eu quase que lhe dizia outras tantas coisas tais
quais agora me diz Agatão, que era o Amor um grande deus, e era do que é belo; e ela me refutava,
exatamente
com estas palavras, com que eu estou refutando a este, que nem era belo segundo minha
palavra, nem bom.
E eu então: - Que dizes, ó Diotima? É feio então o Amor, e mau?
E ela: - Não vais te calar? Acaso pensas que o que não for belo, é forçoso ser feio?
- Exatamente.
- E também se não for sábio é ignorante? Ou não percebeste que existe algo entre sabedoria e ignorância?
- Que é?
- O opinar certo, mesmo sem poder dar razão, não sabes, dizia-me ela, que nem é saber - pois o que é
sem razão, como seria ciência? - nem é ignorância - pois o que atinge o ser, como seria ignorância? - e
que é sem dúvida alguma coisa desse tipo a opinião certa, um intermediário entre entendimento e
ignorância.
- É verdade o que dizes, tornei-lhe.
- Não fiques, portanto, forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não é bom a ser mau. Assim
também o Amor, porque tu mesmo admites que não é bom nem belo, nem por isso vás imaginar que ele
deve ser feio e mau, mas sim algo que está, dizia ela, entre esses dois extremos.
- E todavia é por todos reconhecido que ele é um grande deus.
- Todos os que não sabem, é o que estás dizendo, ou também os que sabem?
- Todos eles, sem dúvida.
E ela sorriu e disse: - E como, ó Sócrates, admitiriam ser um grande deus aqueles que afirmam que nem
deus ele e?
- Quem são estes? Perguntei-lhe.
- Um és tu - respondeu-me - E eu, outra.
E eu: - Que queres dizer com isso?
E ela: - É simples. Dize-me, com efeito, todos os deuses não os afirmas felizes e belos? Ou terias a
audácia de dizer que algum deles não é belo e feliz?
- Por Zeus, não eu - retornei-lhe.
- E os felizes então, não dizes que são os que possuem o que é bom e o que é belo?
- Perfeitamente.
- Mas no entanto, o Amor, tu reconheceste que, por carência do que é bom e do que é belo, deseja isso
mesmo de que é carente.
- Reconheci, com efeito.
- Como então seria deus o que justamente é desprovido do que é belo e bom?
- De modo algum, pelo menos ao que parece.
- Estás vendo então - disse - que também tu não julgas o Amor um deus?
- Que seria então o Amor? - perguntei-lhe. - Um mortal?
- Absolutamente.
- Mas o quê, ao cento, ó Diotima?
- Como nos casos anteriores - disse-me ela - algo entre mortal e imortal.
- O quê, então, ó Diotima?
- Um grande gênio, ó Sócrates; e com efeito, tudo o que é gênio está entre um deus e um mortal.
- E com que poder? Perguntei-lhe.
- O de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de
uns as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no
meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. Por seu intermédio
é que procede não só toda arte divinatória, como também a dos sacerdotes que se ocupam dos sacrifícios,
das iniciações e dos encantamentos, e enfim de toda adivinhação e magia. Um deus com um homem não
se mistura, mas é através desse ser que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto
quando despertos como quando dormindo; e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio,
enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou oficio, é um artesão. E esses gênios, é certo, são muitos
e diversos, e um deles é justamente o Amor.
- E quem é seu pai - perguntei-lhe - e sua mãe?
- É um tanto longo de explicar, disse ela; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se
os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram
de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o
néctar - pois vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então,
tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o
Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo
tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de
Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente
ele é sempre pobre, e longe
está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por
terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe,
sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e
corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio
ele recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza
nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita,
graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem
enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá.
Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio - pois já é -, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa.
Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da
ignorância, no pensar, quem não é um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não
deseja portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso.
- Quais então, Diotima - perguntei-lhe - os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes?
- É o que é evidente desde já - respondeu-me - até a uma criança: são os que estão entre esses dois
extremos, e um deles seria o Amor. Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é
amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o
ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico e de uma mãe
que não é sábia, e pobre. É essa então, ó Sócrates, a natureza desse gênio; quanto ao que pensaste ser o
Amor, não é nada de espantar o que tiveste. Pois pensaste, ao que me parece a tirar pelo que dizes, que
Amor era o amado e não o amante; eis por que, segundo penso, parecia-te todo belo o Amor. E de fato o
que é amável é que é realmente belo, delicado, perfeito
e bem-aventurado; o amante, porém é outro o
seu caráter, tal qual eu expliquei.
E eu lhe disse: - Muito bem, estrangeira! É belo o que dizes! Sendo porém tal a natureza do Amor, que
proveito ele tem para os homens?
- Eis o que depois disso - respondeu-me - tentarei ensinar-te. Tal é de fato a sua natureza e tal a sua
origem; e é do que é belo, como dizes. Ora, se alguém nos perguntasse: Em que é que é amor do que é
belo o Amor, ó Sócrates e Diotima? ou mais claramente: Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?
- Tê-lo consigo - respondi-lhe.
- Mas essa resposta - dizia-me ela - ainda requer uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com
o que é belo?
- Absolutamente - expliquei-lhe - eu não podia mais responder-lhe de pronto a essa pergunta.
- Mas é, disse ela, como se alguém tivesse mudado a questão e, usando o bom em vez do belo,
perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; que é que ele ama?
- Tê-lo consigo - respondi-lhe.
- E que terá aquele que ficar com o que é bom?
- Isso eu posso - disse-lhe - mais facilmente responder: ele será feliz.
- É com efeito pela aquisição do que é bom, disse ela, que os felizes são felizes, e não mais é preciso
ainda perguntar: E para que quer ser feliz aquele que o quer? Ao contrário, completa parece a resposta.
- É verdade o que dizes - tornei-lhe.
- E essa vontade então e esse amor, achas que é comum a todos os homens, e que todos querem ter
sempre consigo o que é bom, ou que dizes?
- Isso - respondi-lhe - é comum a todos.
- E por que então, ó Sócrates, não são todos que dizemos que amam, se é que todos desejam a mesma
coisa e sempre, mas sim que uns amam e outros não?
- Também eu - respondi-lhe - admiro-me.
- Mas não! Não te admires! - retrucou ela; - pois é porque destacamos
do amor um certo aspecto e,
aplicando-lhe o nome do todo, chamamo-
lo de amor, enquanto para os outros aspectos servimo-nos de
outros nomes.
- Como, por exemplo? Perguntei-lhe.
- Como o seguinte. Sabes que "poesia" é algo de múltiplo; pois toda causa de qualquer coisa passar do
não-ser ao ser é “poesia”, de modo que as confecções de todas as artes são “poesias”, e todos os seus
artesãos poetas.
- É verdade o que dizes.
- Todavia continuou ela - tu sabes que estes não são denominados poetas, mas tem outros nomes,
enquanto que de toda a “poesia” uma única parcela foi destacada, a que se refere à música e aos versos, e
com o nome do todo é denominada. Poesia é com efeito só isso que se chama, e os que têm essa parte da
poesia, poetas.
- É verdade - disse-lhe.
- Pois assim também é com o amor. Em geral, todo esse desejo do que é bom e de ser feliz, eis o que é “o
supremo e insidioso amor, para todo homem”, no entanto, enquanto uns, porque se voltam para ele por
vários outros caminhos, ou pela riqueza ou pelo amor à ginástica ou à sabedoria, nem se diz que amam
nem que são amantes, outros ao contrário, procedendo e empenhando-se numa só forma, detêm o nome
do todo, de amor, de amar e de amantes.
- É bem provável que estejas dizendo a verdade - disse-lhe eu.
- E de fato corre um dito, continuou ela, segundo o qual são os que procuram a sua própria metade os que
amam; o que eu digo porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo; pelo menos, meu amigo, se
não se encontra este em bom estado, pois até os seus próprios pés e mãos querem os homens cortar, se
lhes parece que o que é seu está ruim. Não é com efeito o que é seu, penso, que cada um estima, a não ser
que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens serão
o bem; ou te parece que amam?
- Não, por Zeus - respondi-lhe.
- Será então - continuou - que é tão simples assim, dizer que os homens amam o bem?
- Sim - disse-lhe.
- E então? Não se deve acrescentar que é ter consigo o bem que eles amam?
- Deve-se.
- E sem dúvida - continuou - não apenas ter, mas sempre ter?
- Também isso se deve acrescentar.
- Em resumo então - disse ela - é o amor amor de consigo ter sempre o bem.
- Certíssimo - afirmei-lhe - o que dizes.
- Quando então - continuou ela - é sempre isso o amor, de que modo, nos que o perseguem, e em que
ação, o seu zelo e esforço se chamaria amor? Que vem a ser essa atividade? Podes dizer-me?
- Eu não te admiraria então, ó Diotima, por tua sabedoria, nem te freqüentaria para aprender isso mesmo.
- Mas eu te direi - tornou-me. -É isso, com efeito, um parto em beleza, tanto no corpo como na alma.
- É um adivinho - disse-lhe eu - que requer o que estás dizendo: não entendo.
- Pois eu te falarei mais claramente,
Sócrates, disse-me ela. Com efeito, todos os homens concebem, não
só no corpo como também na alma, e quando chegam a certa idade, é dar à luz que deseja a nossa
natureza. Mas ocorrer isso no que é inadequado é impossível. E o feio é inadequado a tudo o que é
divino, enquanto o belo é adequado. Moira então e Ilitia do nascimento é a Beleza. Por isso, quando do
belo se aproxima o que está em concepção, acalma-se, e de júbilo transborda, e dá à luz e gera; quando
porém é do feio que se aproxima, sombrio
e aflito contrai-se, afasta-se, recolhe-se e não gera, mas,
retendo o que concebeu, penosamente o carrega. Daí é que ao que está prenhe e já intumescido é grande
o alvoroço que lhe vem à vista do belo, que de uma grande dor liberta o que está prenhe. É com efeito,
Sócrates, dizia-me ela, não do belo o amor, como pensas.
- Mas de que é enfim?
- Da geração e da parturição no belo.
- Seja - disse-lhe eu.
- Perfeitamente - continuou. - E por que assim da geração? Porque é algo de perpétuo e mortal para um
mortal, a geração. E é a imortalidade que, com o bem, necessariamente se deseja, pelo que foi admitido,
se é que o amor é amor de sempre ter consigo o bem. É de fato forçoso por esse argumento que também
da imortalidade seja o amor.
Tudo isso ela me ensinava, quando sobre as questões de amor discorria, e uma vez ela me perguntou: -
Que pensas, ó Sócrates, ser o motivo desse amor e desse desejo? Porventura não percebes como é
estranho o comportamento de todos os animais quando desejam gerar, tanto dos que andam quanto dos
que voam, adoecendo todos em sua disposição amorosa, primeiro no que concerne à união de um com o
outro, depois no que diz respeito à criação do que nasceu? E como em vista disso estão prontos para lutar
os mais fracos contra os mais fortes, E mesmo morrer, não só se torturando pela fome a fim de
alimentá-los como tudo o mais fazendo? Ora, os homens, continuou ela, poder-se-ia pensar que é pelo
raciocínio que eles agem assim; mas os animais, qual a causa desse seu comportamento amoroso? Podes
dizer-me?
De novo eu lhe disse que não sabia; e ela me tornou: - Imaginas então algum dia te tornares temível nas
questões do amor, se não refletires nesses fatos?
- Mas é por isso mesmo, Diotima - como há pouco eu te dizia - que vim a ti, porque reconheci que
precisava de mestres. Dize-me então não só a causa disso, como de tudo o mais que concerne ao amor.
- Se de fato - continuou - crês que o amor é por natureza amor daquilo que muitas vezes admitimos, não
fiques admirado. Pois aqui, segundo o mesmo argumento que lá, a natureza mortal procura, na medida do
possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um
outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma -
assim como de criança o homem se diz o mesmo até se tornar velho; este na verdade, apesar de jamais ter
em si as mesmas coisas, diz-se todavia que é o mesmo, embora sempre se renovando e perdendo alguma
coisa, nos cabelos, nas carnes, nos ossos, no sangue e em todo o corpo. E não é que é só no corpo, mas
também na alma os modos, os costumes, as opiniões, desejos, prazeres, aflições, temores, cada um desses
afetos jamais permanece o mesmo em cada um de nós, mas uns nascem, outros morrem. Mas ainda mais
estranho do que isso é que até as ciências não é só que umas nascem e outras morrem para nós, e jamais
somos os mesmos nas ciências, mas ainda cada uma delas sofre a mesma contingência. O que, com
efeito, se chama exercitar é como se de nós estivesse saindo a ciência; esquecimento é escape de ciência,
e o exercício, introduzindo uma nova lembrança em lugar da que está saindo, salva a ciência, de modo a
parecer ela ser a mesma. É desse modo que tudo o que é mortal se conserva, E não pelo fato de
absolutamente ser sempre o mesmo, como o que é divino, mas pelo fato de deixar o que parte e
envelhece um outro ser novo, tal qual ele mesmo era. É por esse meio, ó Sócrates, que o mortal participa
da imortalidade, no corpo como em tudo mais o imortal porém é de outro modo. Não te admires portanto
de que o seu próprio rebento, todo ser por natureza o aprecie: é em virtude da imortalidade que a todo ser
esse zelo e esse amor acompanham.
Depois de ouvir o seu discurso, admirado disse-lhe: - Bem, ó doutíssima Diotima, essas coisas é
verdadeiramente assim que se passam?
E ela, como os sofistas consumados, tornou-me: - Podes estar certo, ó Sócrates; o caso é que, mesmo
entre os homens, se queres atentar à sua ambição, admirar-te-ias do seu desarrazoamento, a menos que, a
respeito do que te falei, não reflitas, depois de considerares quão estranhamente eles se comportam
com
o amor de se tornarem renomados e de “para sempre uma g1ória imortal se preservarem”, e como por
isso estão prontos a arrostar todos os perigos, ainda mais do que pelos filhos, a gastar fortuna, a sofrer
privações, quaisquer que elas sejam, e até a sacrificar-se. Pois pensas tu, continuou ela, que Alceste
morreria por Admeto, que Aquiles morreria depois de Pátroclo, ou o vosso Codromorreria antes, em
favor da realeza dos filhos, se não imaginassem que eterna seria a memória da sua própria virtude, que
agora nós conservamos? Longe disso, disse ela; ao contrário, é, segundo penso, por uma virtude imortal e
por tal renome e glória que todos tudo fazem, e quanto melhores tanto mais; pois é o imortal que eles
amam. Por conseguinte, continuou ela, aqueles que estão fecundados em seu corpo voltam-se de
preferência para as mulheres, e é desse modo que são amorosos, pela procriação conseguindo para si
imortalidade, memória e bem-aventurança por todos os séculos seguintes, ao que pensam; aqueles porém
que é em sua alma - pois há os que concebem na alma mais do que no corpo, o que convém à alma
conceber e gerar; e o que é que lhes convém senão o pensamento e o mais da virtude? Entre estes estão
todos os poetas criadores e todos aqueles artesãos que se diz serem inventivos; mas a mais importante,
disse ela, e a mais bela forma de pensamento
é a que trata da organização dos negócios da cidade e da
família, e cujo nome é prudência e justiça - destes por sua vez quando alguém, desde cedo fecundado em
sua alma, ser divino que é, e chegada a idade oportuna, já está desejando dar à luz e gerar, procura
então
também este, penso eu, à sua volta o belo em que possa gerar; pois no que é feio ele jamais o fará. Assim
é que os corpos belos mais que os feios ele os acolhe, por estar em concepção; e se encontra uma alma
bela, nobre e bem dotada, é total o seu acolhimento a ambos, e para um homem desses logo ele se
enriquece de discursos sobre a virtude, sobre o que deve ser o homem bom e o que deve tratar, e tenta
educá-lo. Pois ao contato sem dúvida do que é belo e em sua companhia, o que de há muito ele concebia
ei-lo que dá à luz e gera, sem o esquecer tanto em sua presença quanto ausente, e o que foi gerado, ele o
alimenta justamente com esse belo, de modo que uma comunidade muito maior que a dos filhos ficam
tais indivíduos mantendo entre si, e uma amizade mais firme, por serem mais belos e mais imortais os
filhos que têm em comum. E qualquer um aceitaria obter tais filhos mais que os humanos, depois
de
considerar Homero e Hesíodo, e admirando com inveja os demais bons poetas, pelo tipo de descendentes
que deixam de si, e que uma imortal glória e mem6ria lhes garantem, sendo eles mesmos o que são; ou se
preferes, continuou ela, pelos filhos que Licurgo deixou na Lacedemônia, salvadores da Lacedemônia e
por assim dizer da Grécia. E honrado entre vós é também Sólon pelas leis que criou, e outros muitos em
muitas outras partes, tanto entre os gregos como entre os bárbaros, por terem dado à luz muitas obras
belas e gerado toda espécie de virtudes; deles é que já se fizeram muitos
cultos por causa de tais filhos,
enquanto que por causa dos humanos ainda não se fez nenhum.
São esses então os casos de amor em que talvez, ó Sócrates, também tu pudesses ser iniciado; mas,
quanto à sua perfeita contemplação, em vista da qual é que esses graus existem, quando se procede
corretamente, não sei se serias capaz; em todo caso, eu te direi, continuou, e nenhum esforço pouparei;
tenta então seguir-me se fores capaz: deve com efeito, começou ela, o que corretamente se encaminha a
esse fim, começar quando jovem por dirigir-se aos belos corpos, e em primeiro lugar, se corretamente o
dirige o seu dirigente, deve ele amar um só corpo e então gerar belos discursos; depois deve ele
compreender que a beleza em qualquer corpo é irmã da que está em qualquer outro, e que, se se deve
procurar o belo na forma, muita tolice seria não considerar uma só e a mesma a beleza em todos os
corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor
violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho; depois disso a beleza que está nas almas
deve ele considerar mais preciosa que a do corpo, de modo que, mesmo se alguém de uma alma gentil
tenha todavia um escasso encanto, contente-se ele, ame e se interesse, e produza e procure discursos tais
que tornem melhores os jovens; para que então seja obrigado a contemplar o belo nos ofícios e nas leis, e
a ver assim que todo ele tem um parentesco comum, e julgue enfim de pouca monta o belo no corpo;
depois dos ofícios é para as ciências que é preciso transportá-lo, a fim de que veja também a beleza das
ciências, e olhando para o belo já muito, sem mais amar como um doméstico a beleza individual de um
criançola, de um homem ou de um só costume, não seja ele, nessa escravidão, miserável e um mesquinho
discursador, mas voltado ao vasto oceano do belo e, contemplando-o, muitos discursos belos e
magníficos ele produza, e reflexões, em inesgotável amor à sabedoria, até que aí robustecido e crescido
contemple ele uma certa ciência, única, tal que o seu objeto é o belo seguinte. Tenta agora, disse-me ela,
prestar-me a máxima
atenção possível. Aquele, pois, que até esse ponto tiver sido orientado para as
coisas do amor, contemplando seguida e corretamente o que é belo, já chegando ao ápice dos graus do
amor, súbito perceberá algo de maravilhosamente
belo em sua natureza, aquilo mesmo, ó Sócrates, a
que tendiam todas as penas anteriores, primeiramente sempre sendo, sem nascer nem perecer, sem
crescer nem decrescer, e depois, não de um jeito belo e de outro feio, nem ora sim ora não, nem quanto a
isso belo e quanto àquilo feio, nem aqui belo ali feio, como se a uns fosse belo e a outros feio; nem por
outro lado aparecer-lhe-á o belo como um rosto ou mãos, nem como nada que o corpo tem consigo, nem
como algum discurso ou alguma ciência, nem certamente
como a existir em algo mais, como, por
exemplo, em animal da terra ou do céu, ou em qualquer outra coisa; ao contrário, aparecer-lhe-á ele
mesmo, por si mesmo, consigo mesmo, sendo sempre uniforme, enquanto tudo mais que é belo dele
participa, de um modo tal que, enquanto nasce e perece tudo mais que é belo, em nada ele fica maior ou
menor, nem nada sofre. Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo, através do correto
amor aos jovens, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com
efeito, em que consiste o proceder corretamente
nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir:
em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus,
de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos
ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão
daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo. Nesse ponto da vida, meu caro Sócrates,
continuou a estrangeira de Mantinéia, se é que em outro mais, poderia o homem viver, a contemplar o
próprio belo. Se algum dia o vires, não é como ouroou como roupa que ele te parecerá ser, ou como os
belos jovens adolescentes, a cuja vista ficas agora aturdido e disposto, tu como outros muitos, contanto
que vejam seus amados e sempre estejam com eles, a nem comer nem beber, se de algum modo fosse
possível, mas a só contemplar e estar ao seu lado. Que pensamos
então que aconteceria, disse ela, se a
alguém ocorresse contemplar o próprio belo, nítido, puro, simples, e não repleto de carnes, humanas, de
cores e outras muitas ninharias mortais,
mas o próprio divino belo pudesse ele em sua forma única
contemplar? Porventura pensas, disse, que é vida vã a de um homem a olhar naquela direção e aquele
objeto, com aquilo com que deve, quando o contempla e com ele convive? Ou não consideras, disse ela,
que somente então, quando vir o belo com aquilo com que este pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir não
sombras de virtude, porque não é em sombra que estará tocando, mas reais virtudes, porque é no real que
estará tocando?
Eis o que me dizia Diotima, ó Fedro e demais presentes, e do que estou convencido; e porque estou
convencido, tento convencer também os outros de que para essa aquisição, um colaborador da natureza
humana melhor que o Amor não se encontraria facilmente. Eis por que eu afirmo que deve todo homem
honrar o Amor, e que eu próprio prezo o que lhe concerne e particularmente o cultivo, e aos outros
exorto, e agora e sempre elogio o poder e a virilidade do Amor na medida em que sou capaz. Este
discurso, ó Fedro, se queres, considera-o proferido como um encômioao Amor; se não, o que quer que e
como quer que te apraza chamá-lo, assim deves fazê-lo.
Depois que Sócrates assim falou, enquanto que uns se põem a louvá-lo, Aristófanes tenta dizer alguma
coisa, que era a ele que aludira Sócrates, quando falava de um certo dito; e súbito a porta do pátio,
percutida, produz um grande barulho, como de foliões, e ouve-se a voz de uma flautista. Agatão exclama:
“Servos! Não ireis ver? Se for algum conhecido, chamai-o; se não, dizei que não estamos bebendo, mas
já repousamos”.
Não muito depois ouve-se a voz de Alcibíades no pátio, bastante embriagado, e a gritar alto, perguntando
onde estava Agatão, pedindo que o levassem para junto de Agatão. Levam-no então até os convivas a
flautista, que o tomou sobre si, e alguns outros acompanhantes, e ele se detém à porta, cingido de uma
espécie de coroa tufada de hera e violetas, coberta a cabeça de fitas em profusão, e exclama: “Senhores!
Salve! Um homem em completa embriaguez vós o recebereis como companheiro de bebida, ou devemos
partir, tendo apenas coroado Agatão, pelo qual viemos? Pois eu, na verdade, continuou, ontem mesmo
não fui capaz de vir; agora porém eis-me aqui, com estas fitas sobre a cabeça, a fim de passá-las da
minha para a cabeça do mais sábio e do mais belo, se assim devo dizer. Porventura ireis zombar de mim,
de minha embriaguez? Ora, eu, por mais que zombeis, bem sei portanto
que estou dizendo a verdade.
Mas dizei-me daí mesmo: com o que disse, devo entrar ou não? Bebereis comigo ou não?
Todos então o aclamam e convidam a entrar e a recostar-se, e Agatão o chama. Vai ele conduzido pelos
homens, e como ao mesmo tempo colhia as fitas para coroar, tendo-as diante dos olhos não viu Sócrates,
e todavia senta-se ao pé de Agatão, entre este e Sócrates, que se afastara de modo a que ele se
acomodasse. Sentando-se ao lado de Agatão ele o abraça e o coroa.
Disse então Agatão: - Descalçai Alcibíades, servos, a fim de que seja o terceiro em nosso leito.
- Perfeitamente - tornou Alcibíades; - mas quem é este nosso terceiro companheiro de bebida? E
enquanto se volta avista Sócrates, e mal o viu recua em sobressalto e exclama: Por Hércu1es! Isso aqui
que e? Tu, ó Sócrates? Espreitando-me de novo aí te deitaste, de súbito aparecendo assim como era teu
costume, onde eu menos esperava que haverias de estar? E agora, a que vieste? E ainda por que foi que
aqui te recostaste? Pois não foi junto de Aristófanes, ou de qualquer
outro que seja ou pretenda ser
engraçado, mas junto do mais belo dos que estão aqui dentro que maquinaste te deitar.
E Sócrates: - Agatão, vê se me defendes! Que o amor deste homem se me tornou um não pequeno
problema. Desde aquele tempo, com efeito, em que o amei, não mais me é permitido dirigir nem o olhar
nem a palavra a nenhum belo jovem, serão este homem, enciumado e invejoso, faz coisas
extraordinárias, insulta-me e mal retém suas mãos da violência. Vê então se também agora não vai ele
fazer alguma coisa, e reconcilia-nos; ou se ele tentar a violência, defende-
me, pois eu da sua fúria e da
sua paixão amorosa muito me arreceio.
- Não! - disse Alcibíades - entre mim e ti não há reconciliação. Mas pelo que disseste depois eu te
castigarei; agora porém, Agatão, exclamou
ele, passa-me das tuas fitas, a fim de que eu cinja também
esta aqui, a admirável cabeça deste homem, e não me censure ele de que a ti eu te coroei, mas a ele, que
vence em argumentos todos os homens, não só ontem como tu, mas sempre, nem por isso eu o coroei. - E
ao mesmo tempo ele toma das fitas, coroa Sócrates e recosta-se.
Depois que se recostou, disse ele: - Bem, senhores! Vós me pareceis em plena sobriedade. É o que não se
deve permitir entre vós, mas beber; pois foi o que foi combinado entre nós. Como chefe então da
bebedeira, até que tiverdes suficientemente bebido, eu me elejo a mim mesmo. Eia, Agatão, que a tragam
logo, se houver aí alguma grande taça. Melhor ainda, não há nenhuma precisão: vamos, servo, traze-me
aquele porta-gelo! exclamou ele, quando viu um com capacidade de mais de oito “cótilas”. Depois de
enchê-lo, primeiro ele bebeu, depois mandou Sócrates entornar, ao mesmo tempo que dizia: - Para
Sócrates, senhores, meu ardil não é nada: quanto se lhe mandar, tanto ele beberá, sem que por isso jamais
se embriague.
Sócrates então, tendo-lhe entornado o servo, pôs-se a beber; mas eis que Erixímaco exclama: - Que é
então que fazemos, Alcibíades? Assim nem dizemos nada nem cantamos de taça à mão, mas
simplesmente iremos beber, como os que têm sede?
Alcibíades então exclamou: Excelente filho de um excelente e sapientíssimo pai, salve!
- Também tu, salve! - respondeu-lhe Erixímaco; - mas que devemos
fazer?
- O que ordenares! É preciso com efeito te obedecer:
pois um homem que é médico
va1e
muitos outros;
ordena então o que queres.
- Ouve então - disse Erixímaco. - Entre nós, antes de chegares, decidimos que devia cada um à direita
proferir
em seu turno um discurso sobre o Amor, o mais belo que pudesse, e lhe fazer o elogio. Ora,
todos nós já falamos;
tu porém como não o fizeste e bebeste tudo, é justo que fales, e que depois do teu
discurso ordenes a Sócrates o que quiseres, e este ao da direita,
e assim aos demais.
- Mas, Erixímaco! - tornou-lhe Alcibíades - é sem dúvida bonito o que dizes, mas um homem
embriagado proferir um discurso em confronto com os de quem está com sua razão, é de se esperar que
não seja de igual para igual. E ao mesmo tempo, ditoso amigo, convence-te Sócrates em algo do que há
pouco disse? Ou sabes que é o contrário de tudo o que afirmou? É ele ao contrário que, se em sua
presença eu louvar alguém, ou um deus ou um outro homem fora ele, não tirará suas mãos de mim.
- Não vais te calar? - disse Sócrates.
- Sim, por Posidão - respondeu-lhe Alcibíades; nada digas quanto a isso, que eu nenhum outro mais
louvaria em tua presença.
- Pois faze isso então - disse-lhe Erixímaco - se te apraz; louva Sócrates.
- Que dizes? - tornou-lhe Alcibíades; - parece-te necessário, Erixímaco? Devo então atacar-me ao
homem e castigá-1o diante de vós?
- Eh! tu! - disse-lhe Sócrates - que tens em mente? Não é para carregarno ridículo que vais elogiar-me?
Ou que farás?
- A verdade eu direi. Vê se aceitas!
- Mas sem dúvida! - respondeu-lhe - a verdade sim, eu aceito, e mesmo peço que a digas.
- Imediatamente - tornou-lhe Alcibíades. - Todavia faze o seguinte. Se eu disser algo inverídico,
interrompe-
me incontinenti, se quiseres, e dize que nisso eu estou falseando; pois de minha vontade eu
nada falsearei. Se porém a lembrança de uma coisa me faz dizer outra, não te admires; não é fácil, a
quem está neste estado, da tua singularidade dar uma conta bem feita e seguida.
“Louvar Sócrates, senhores, é assim que eu tentarei, através de imagens. Ele certamente pensará talvez
que é para carregar no ridículo, mas será a imagem em vista da verdade, não do ridículo. Afirmo eu então
que é ele muito semelhante a esses silenos colocados
nas oficinas dos estatuários, que os artistas
representam com um pifre ou uma flauta, os quais, abertos ao meio, vê-se que têm em seu interior
estatuetas
de deuses. Por outro lado, digo também que ele se assemelha ao sátiro Mársias. Que na
verdade, em teu aspecto pelo menos és semelhante a esses dois seres, ó Sócrates, nem mesmo tu sem
dúvida poderias contestar; que porém também no mais tu te assemelhas, é o que depois disso tens de
ouvir. És insolente! Não? Pois se não admitires, apresentarei testemunhas. Mas não és flautista? Sim! E
muito mais maravilhoso que o sátiro. Este, pelo menos, era através de instrumentos que, com o poder de
sua boca, encantava os homens como ainda agora o que toca as suas melodias —pois as que Olimpo
tocava são de Mársias, digo eu, por este ensinadas - as dele então, quer as toque um bom flautista quer
uma flautista ordinárias, são as únicas que nos fazem possessos e revelam os que sentem falta dos deuses
e das iniciações, porque são divinas. Tu porém dele diferes apenas nesse pequeno ponto, que sem
instrumentos, com simples palavras, fazes o mesmo. Nós pelo menos, quando algum outro ouvimos
mesmo que seja um perfeito orador, a falar de outros assuntos, absolutamente por assim dizer ninguém se
interessa; quando porém é a ti que alguém ouve, ou palavras tuas referidas por outro, ainda que seja
inteiramente vulgar o que está falando, mulher, homem ou adolescente, ficamos aturdidos e somos
empolgados. Eu pelo menos, senhores, se não fosse de todo parecer que estou embriagado, eu vos
contaria, sob juramento,
o que é que eu sofri sob o efeito dos discursos deste homem, e sofro ainda
agora. Quando com efeito os escuto, muito mais do que aos coribantes em seus transportes bate-me o
coração, e lágrimas me escorrem sob o efeito dos seus discursos, enquanto que outros muitíssimos eu
vejo que experimentam o mesmo sentimento; ao ouvir Péricles porém, e outros bons oradores, eu achava
que falavam bem sem dúvida, mas nada de semelhante eu sentia, nem minha alma ficava perturbada nem
se irritava, como se se encontrasse em condição servil; mas com este Mársias aqui, muitas foram as vezes
em que de tal modo me sentia que me parecia não ser possível viver em condições como as minhas. E
isso, ó Sócrates, não irás dizer que não é verdade. Ainda agora tenho certeza de que, se eu quisesse
prestar ouvidos, não resistiria, mas experimentaria os mesmos sentimentos. Pois me força ele a admitir
que, embora sendo eu mesmo deficiente em muitos pontos ainda, de mim mesmo me descuido, mas trato
dos negócios de Atenas. A custo então, como se me afastasse das sereias, eu cerro os ouvidos e me retiro
em fuga, a fim de não ficar sentado lá e aos seus pés envelhecer. E senti diante deste homem, somente
diante dele, o que ninguém imaginaria haver em mim, o envergonhar-me de quem quer que seja; ora, eu,
é diante deste homem somente que me envergonho. Com efeito, tenho certeza de que não posso
contestar-lhe que não se deve fazer o que ele manda, mas quando me retiro sou vencido pelo apreço em
que me tem o público. Safo-me então de sua presença e fujo, e quando o vejo envergonho-me pelo que
admiti. E muitas vezes sem dúvida com prazer o veria não existir entre os homens; mas se por outro lado
tal coisa ocorresse, bem sei que muito maior seria a minha dor, de modo que não sei o que fazer com esse
homem.
De seus flauteios então, tais foram as reações que eu e muitos outros tivemos
deste sátiro; mas ouvi-me
como ele é semelhante àque1es a quem o comparei, que poder maravilhoso ele tem. Pois ficai sabendo
que ninguém o conhece; mas eu a revelarei, já que comecei. Estais vendo, com efeito, como Sócrates
amorosamente se comporta
com os belos jovens, está sempre ao redor deles, fica aturdido e como
também ignora tudo e nada sabe. Que esta sua atitude não é conforme à dos silenos? E muito mesmo.
Pois é aquela com que por fora ele se reveste, como o sileno esculpido; mas lá dentro, uma vez aberto, de
quanta sabedoria imaginais, companheiros de bebida, estar ele cheio? Sabei que nem a quem é belo tem
ele a mínima consideração, antes despreza tanto quanto ninguém poderia imaginar, nem tampouco a
quem é rico, nem a quem tenha qualquer
outro titulo de honra, dos que são enaltecidas pelo grande
número; todos esses bens ele julga que nada valem, e que nós nada somos - a que vos digo - e é
ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida. Uma vez porém que fica sério e se
abre, não sei se alguém já viu as estátuas lá dentro; eu por mim já uma vez as vi, e tão divinas me
pareceram elas, com tanto aura, com uma beleza tão completa e tão extraordinária que eu só tinha que
fazer imediatamente a que me mandasse Sócrates. Julgando porém que ele estava interessado em minha
beleza, considerei um achado e um maravilhoso lance da fortuna, como se me estivesse ao alcance,
depois
de aquiescer a Sócrates, ouvir tudo a que ele sabia; o que, com efeito, eu presumia da beleza de
minha juventude era extraordinário! Com tais idéias em meu espírito, eu que até então não costumava
sem um acompanhante ficar só com ele, dessa vez, despachando o acompanhante, encontrei-me a sós - é
preciso, com efeito, dizer-vos toda a verdade; - prestai atenção, e se eu estou mentindo, Sócrates, prova -
pois encontrei-me, senhores, a sós com ele, e pensava que logo ele iria tratar comigo a que um amante
em segredo trataria com o bem-amado, e me rejubilava. Mas não, nada disso absolutamente aconteceu;
ao contrário, como costumava, se por acaso comigo conversasse e passasse o dia, ele retirou-se e foi-se
embora. Depois disso convidei-o a fazer ginástica comigo e entreguei-me aos exercícios, como se
houvesse então de conseguir algo. Exercitou-se ele comigo e comigo lutou muitas vezes sem que
ninguém nos presenciasse; e que devo dizer? Nada me adiantava. Como por nenhum desses caminhos eu
tivesse resultado, decidi que devia atacar-me ao homem à força e não largá-lo, uma vez que eu estava
com a mão na obra, mas logo saber de que é que se tratava. Convido-o então a jantar comigo, exatamente
como um amante armando cilada ao bem-amado. E nem nisso também ele me atendeu logo, mas na
verdade com o tempo deixou-se convencer. Quando porém veio à primeira vez, depois do jantar queria
partir. Eu então, envergonhado, larguei-o; mas repeti a cilada, e depois que ele estava jantado eu me pus
a conversar com ele noite adentro, ininterruptamente, e quando quis partir, observando-lhe que era tarde,
obriguei-o a ficar. Ele descansava então no leito vizinho ao meu, no mesmo em que jantara, e ninguém
mais no compartimento ia dormir senão nós. Bem, até esse ponto do meu discurso ficaria bem fazê-lo a
quem quer que seja; mas o que a partir daqui se segue, vós não me teríeis ouvido dizer se, primeiramente,
como diz o ditado, no vinho, sem as crianças ou com elas, não estivesse a verdade; e depois, obscurecer
um ato excepcionalmente
brilhante de Sócrates, quando se saiu a elogiá-lo, parece-me injusto. E ainda
mais, o estado do que foi mordido pela víbora é também o meu. Com efeito, dizem que quem sofreu tal
acidente não quer dizer como foi senão aos que foram mordidos, por serem os únicos, dizem eles, que a
compreendem e desculpam de tudo que ousou fazer e dizer sob o efeito da dor. Eu então, mordido por
algo mais doloroso,
e no ponto mais doloroso em que se passa ser mordido — pois foi no coração ou na
alma, ou no que quer que se deva chamá-lo que fui golpeado e mordido pelos discursos filosóficos, que
têm mais virulência que a víbora, quando pegam de um jovem espírito, não sem dotes, e que tudo fazem
cometer e dizer tudo - e vendo por outro lado os Fedros, Agatãos, Erixímacos, os Pausânias, os
Aristodemos e os Aristófanes; e o próprio Sócrates, é preciso mencioná-lo? E quantos mais... Todos vós,
com efeito, participastes em comum do delírio filosófico e dos seus transportes báquicos e por isso todos
ireis ouvir-me; pois haveis de desculpar-me do que então fiz e do que agora digo. Os domésticos, e se
mais alguém há profano e inculto, que apliquem aos seus ouvidos portas bem espessas.
Como com efeito, senhores, a lâmpada se apagara e os servos estavam fora, decidi que não devia fazer
nenhum floreado com ele, mas francamente
dizer-lhe o que eu pensava; e assim o interpelei, depois de
sacudi-lo: - Sócrates, estás dormindo?
- Absolutamente - respondeu-me.
- Sabes então qual é a minha decisão?
- Qual é exatamente? - tornou-me.
- Tu me pareces - disse-lhe eu - ser um amante digno de mim, o único, e te mostras hesitante em
declarar-me. Eu porém é assim que me sinto: inteiramente estúpido eu acho não te aquiescer não só nisso
como também em algum caso em que precisasses ou de minha fortuna ou dos meus amigos. A mim, com
efeito, nada me é mais digno de respeito do que o tornar-me eu o melhor possível, e para isso creio que
nenhum auxiliar me é mais importante do que tu. Assim é que eu, a um tal homem recusando meus
favores, muito mais me envergonharia diante da gente ajuizada do que se os concedesse, diante da
multidão irrefletida.
E este homem, depois de ouvir-me, com a perfeita ironia que é bem sua e do seu hábito, retrucou-me: -
Caro Alcibíades, é bem provável que realmente
não sejas um vulgar, se chega a ser verdade a que dizes
a meu respeito, e se há em mim algum poder pelo qual tu te poderias tornar melhor; sim, uma irresistível
beleza verias em mim, e totalmente diferente da formosura que há em ti. Se então, ao contemplá-la,
tentas compartilhá-la comigo e trocar beleza por beleza, não é em pouco que pensas me levar vantagens,
mas ao contrário, em lugar da aparência é a realidade do que é belo que tentas adquirir, e realmente é
“ouro por cobre” que pensas trocar. No entanto, ditoso amigo, examina melhor; não te passe
despercebido que nada sou. Em verdade, a visão do pensamento
começa a enxergar com agudeza
quando a dos olhos tende a perder sua força; tu porém estás ainda longe disso.
E eu, depois de ouvi-lo: - Quanto ao que é de minha parte, eis aí; nada do que está dito é diferente do que
penso; tu porém decide de acordo com o que julgares ser o melhor para ti e para mim.
- Bem, tomou ele, nisso sim, tens razão; daqui por diante, com efeito, decidiremos fazer, a respeito disso
como do mais, o que a nós dois nos parecer melhor.
Eu, então, depois do que vi e disse, e que como flechas deixei escapar, imaginei-o ferido; e assim que eu
me ergui sem ter-lhe permitido dizer-me nada mais, vesti esta minha túnica - pois era inverno -
estendi-me por sob a manta deste homem, e abraçado com estas duas mãos a este ser verdadeiramente
divino e admirável fiquei deitado
a noite toda. Nem também isso, ó Sócrates, irás dizer que estou
falseando. Ora, não obstante tais esforços meus, tanto mais este homem cresceu e desprezou minha
juventude, ludibriou-a,
insultou-a e justamente naquilo é que eu pensava ser alguma coisa, senhores
juízes; sois com efeito juízes da sobranceria de Sócrates - pois ficai sabendo, pelos deuses e pelas deusas,
quando me levantei com Sócrates, foi após um sono em nada mais extraordinário do que se eu tivesse
dormido com meu pai ou um irmão mais velho.
Ora bem, depois disso, que disposição de espírito pensais que eu tinha, a julgar-me vilipendiado, a
admirar o caráter deste homem, sua temperança e coragem, eu que tinha encontrado um homem tal como
jamais julgava poderia encontrar em sabedoria e fortaleza? Assim, nem eu podia irritar-me e privar-me
de sua companhia, nem sabia como atrai-lo. Bem sabia eu, com efeito, que ao dinheiro era ele de
qualquer modo muito mais invulnerável do que Ájax ao ferro, e na única coisa em que eu imaginava ele
se deixaria prender, ei-lo que me havia escapado. Embaraçava-me então, e escravizado pelo homem
como ninguém mais por nenhum outro, eu rodava à toa. Tudo isso tinha-se sucedido anteriormente;
depois, ocorreu-nos fazer em comum uma expedição em Potidéia, e éramos ali companheiros de mesa.
Antes de tudo, nas fadigas, não só a mim me superava mas a todos os outros - quando isolados em algum
ponto, como é comum numa expedição, éramos forçados a jejuar, nada eram os outros para resistir - e
por outro lado nas fartas refeições, era o único a ser capaz de aproveitá-las em tudo mais, sobretudo
quando, embora se recusasse, era forçado a beber, que a todos vencia; e o que é mais espantoso de tudo é
que Sócrates embriagado nenhum homem há que o tenha visto. E disso, parece-me, logo teremos a prova.
Também quanto à resistência ao inverno - terríveis são os invernos ali - entre outras façanhas
extraordinárias que fazia, uma vez, durante uma geada das mais terríveis, quando todos ou evitavam sair
ou, se alguém saía, era envolto em quanta roupagem estranha, e amarrados os pés em feltros e peles de
carneiro, este homem, em tais circunstâncias, saía com um manta do mesmo tipo que antes costumava
trazer, e descalço sobre o gelo marchava mais à vontade que os outros calçados, enquanto que os
soldados o olhavam de soslaio, como se o suspeitassem de estar troçando deles. Quanto a estes fatos,
ei-los aí:
mas também o seguinte, como o fez
e suportou um bravo
lá na expedição, certa vez, merece ser ouvido. Concentrado numa reflexão, logo se detivera desde a
madrugada a examinar uma idéia, e como esta não lhe vinha, sem se aborrecer ele se conservara de pé, a
procurá-la. Já era meio-dia, os homens estavam observando, e cheios de admiração diziam uns aos
outros: Sócrates desde a madrugada está de pé ocupado em suas reflexões! Por fim, alguns dos jônicos,
quando já era de tarde, depois
de terem jantado - pois era então o estio - trouxeram para fora os seus
leitos e ao mesmo tempo que iam dormir na fresca, observavam-no a ver se também a noite ele passaria
de pé. E ele ficou de pé, até que veia a aurora e o sol se ergueu; a seguir foi embora, depois de fazer uma
prece ao sol. Se quereis saber nos combates - pois isto é bem justo que se lhe leve em conta - quando se
deu a batalha pela qual chegaram mesmo a me condecorar os generais, nenhum outro homem me salvou
senão este, que não quis abandonar-me ferido, e até minhas armas salvou comigo. Eu então, ó Sócrates,
insisti com os generaispara que te conferissem essa honra, e isso não vais me censurar nem irás dizer que
estou falseando; todavia, quando já os generais consideravam minha posição e desejavam conceder-me a
insigne honra, tu mesmo foste mais solícito que os generais para que fosse eu e não tu que a recebesse. E
também, ó senhores, valia a pena observar Sócrates, quando de Delião batia em retirada o exército; por
acaso fiquei ao seu lado, a cavalo, enquanto ele ia com suas armas de hoplita. Ora, ele se retirava, quando
já tinham debandado os nossos homens, ao lado de Laques: acerco-me deles e logo que os veja exorto-os
à coragem, dizendo-lhes que os não abandonaria. Foi aí que, melhor que em Potidéia, eu observei
Sócrates - pois o meu perigo era menor, por estar eu a cavalo - primeiramente quanto ele superava a
Laques, em domínio de si; e depois, parecia-me, ó Aristófanes, segundo aquela tua expressão,
que
também lá como aqui ele se locomovia “impondo-se e olhando de través”, calmamente examinando de
um lado e de outro os amigos e os inimigos, deixando bem claro a todos, mesma a distância, que se
alguém tocasse nesse homem, bem vigorosamente ele se defenderia. Eis por que com segurança se
retirava, ele e o seu companheiro; pois quase que, nos que assim se comportam na guerra, nem se toca,
mas é aos que fogem em desordem que se persegue.
Muitas outras virtudes certamente poderia alguém louvar em Sócrates, e admiráveis; todavia, das demais
atividades, talvez também a respeito de alguns outros se pudesse dizer outro tanto; o fato porém de a
nenhum homem assemelhar-se ele, antigo ou moderno, eis o que é digno de toda admiração. Com efeito,
qual foi Aquiles, tal poder-se-ia imaginar Brasidas e outros, e inversamente, qual foi Péricles, tal Nestor e
Antenor - sem falar de outros - e todos os demais por esses exemplos se poderia comparar; o que porém é
este homem aqui, o que há de desconcertante em sua pessoa e em suas palavras, nem de perto se poderia
encontrar um semelhante, quer se procure entre os modernos, quer entre os antigos, a não ser que se lhe
faça a comparação com os que eu estou dizendo, não com nenhum homem, mas com os silenos e os
sátiros, e não só de sua pessoa como de suas palavras.
Na verdade, foi este sem dúvida um ponto em que em minhas palavras eu deixei passar, que também os
seus discursos são muito semelhantes aos silenos que se entreabrem. A quem quisesse ouvir os discursos
de Sócrates pareceriam eles inteiramente ridículos à primeira vez: tais são os nomes e frases de que por
fora se revestem eles, como de uma pele de sátiro insolente! Pois ele fala de bestas de carga, de ferreiros,
de sapateiros, de correeiros, e sempre parece com as mesmas palavras dizer as mesmas coisas, a ponto de
qualquer inexperiente ou imbecil zombar de seus discursos. Quem porém os viu entreabrir-se e em seu
interior penetra, primeiramente descobrirá que, no fundo, são os únicos que têm inteligência, e depois,
que são o quanto possível divinos, e os que o maior número contêm de imagens de virtude, e o mais
possível se orientam, ou melhor, em tudo se orientam para o que convém ter em mira, quando se procura
ser um distinto e honrado
cidadão.
Eis aí, senhores, o que em Sócrates eu louvo; quanto ao que, pelo contrário, lhe recrimino, eu o pus de
permeio e disse os insultos que me fez. E na verdade não foi só comigo que ele os fez, mas com
Cármides, o filho de Glauco, com Eutidemo, de Díocles, e com muitíssimos outros, os quais ele engana
fazendo-se de amoroso, enquanto é antes na posição de bem-amado
que ele mesmo fica, em vez de
amante. E é nisso que te previno, ó Agatão, para não te deixares enganar por este homem e, por nossas
experiências ensinado, te preservares e não fazeres como o bobo do provérbio, que “só depois de sofrer
aprende”.
Depois destas palavras de Alcibíades houve risos por sua franqueza, que parecia ele ainda estar amoroso
de Sócrates. Sócrates então disse-lhe: - Tu me pareces, ó Alcibíades, estar em teu domínio. Pois de outro
modo não te porias, assim tão destramente fazendo rodeios, a dissimular o motivo por que falaste; como
que falando acessoriamente tu o deixaste para o fim, coma se tudo o que disseste não tivesse sido em
vista disso, de me indispor com Agatão, na idéia de que eu devo amar-te e a nenhum outro, e que Agatão
é por ti que deve ser amado, e por nenhum outro. Mas não me escapaste! Ao contrário, esse teu drama de
sátiros e de silenos ficou transparente. Pois bem, caro Agatão, que nada mais haja para ele, e faze com
que comigo ninguém te indisponha.
Agatão respondeu: - De fato, ó Sócrates, é muito provável que estejas dizendo a verdade. E a prova é a
maneira como justamente ele se recostou aqui no meio, entre mim e ti, para nos afastar um do outro.
Nada mais ele terá então; eu virei para o teu lado e me recostarei.
- Muito bem - disse Sócrates - reclina-te aqui, logo abaixo de mim.
- Ó Zeus, que tratamento recebo ainda desse homem! Acha ele que em tudo deve levar-me a melhor. Mas
pelo menos, extraordinária criatura, permite que entre nós se acomode Agatão.
- Impossível! - tornou-lhe Sócrates. - Pois se tu me elogiaste, devo eu por minha vez elogiar o que está à
minha direita. Ora, se abaixo de ti ficar Agatão, não irá ele por acaso fazer-me um novo elogio, antes de,
pelo contrário, ser por mim elogiado? Deixa, divino amigo, e não invejes ao jovem o meu elogio, pois é
grande o meu desejo de elogiá-lo.
- Evoé! - exclamou Agatão; - Alcibíades, não há meio de aqui eu ficar; ao contrário, antes de tudo, eu
mudarei de lugar, a fim de ser por Sócrates elogiado.
- Eis aí - comentou Alcibíades - a cena de costume: Sócrates presente, impossível a um outro conquistar
os belos! Ainda agora, como ele soube facilmente encontrar uma palavra persuasiva, com o que este belo
se vai pôr ao seu lado.
Agatão levanta-se assim para ir deitar-se ao lado de Sócrates; súbito porém uns foliões, em numeroso
grupo, chegam à porta e, tendo-a encontrado aberta com a saída de alguém, irrompem eles pela frente em
direção dos convivas, tomando assento nos leitos; um tumulto enche todo o recinto e, sem mais nenhuma
ordem, é-se forçado a beber vinho em demasia. Erixímaco, Fedro e alguns outros, disse Aristodemo,
retiram-se e partem; a ele porém o sono o pegou, e dormiu muitíssimo, que estavam longas as noites;
acordou de dia, quando já cantavam os galos, e acordado viu que os outros ou dormiam ou estavam
ausentes; Agatão porém, Aristófanes e Sócrates eram os únicos que ainda estavam despertos, e bebiam
de uma grande taça que passavam da esquerda para a direita. Sócrates conversava com eles; dos
pormenores da conversa disse Aristodemo que não se lembrava - pois não assistira ao começo e ainda
estava sonolento - em resumo porém, disse ele, forçava-os Sócrates a admitir que é de um mesmo
homem o saber fazer uma comédia e uma tragédia, e que aquele que com arte é um poeta trágico é
também um poeta cômico. Forçados a isso e sem o seguir com muito rigor eles cochilavam, e primeiro
adormeceu Aristófanes e, quando já se fazia dia, Agatão. Sócrates então, depois de acomodá-los ao leito,
levantou-se e partiu; Aristodemo, como costumava, acompanhou-o; chegado ao Liceu ele asseou-se e,
como em qualquer outra ocasião, passou o dia inteiro, depois do que, à tarde, foi repousar em casa.
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